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A ARTE DO CONTO DE HERBERTO OU A ESTRANHA ROUQUIDÃO DA MORTE janeiro 11, 2013

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Valdomiro Santana

espingarda de socar

Para, em vinte minutos, dar minha pequena contribuição a mais um destes encontros[1], cujo signo é a leitura, e aqui neste espaço da Biblioteca Pública da Bahia, vou ler um texto que escrevi. E começo lembrando que, daqui a cinco anos, no dia 21 de setembro, será o centenário de nascimento dele, Herberto Sales.

Jorge Amado, Adonias Filho, Herberto e Osório Alves de Castro (autor de um romance, Porto calendário, que assombrou Guimarães Rosa) são, a meu ver, os mais importantes ficcionistas baianos modernos. Desses quatro, o menos conhecido é Osório. Em tudo e por tudo, quatro ficcionistas diferentes. Pela força de sua criação, cada um deles tem um lugar definitivo na história da literatura brasileira. Mas, já que a paixão da leitura hoje (não a paixão pela leitura) é o conto de Herberto, abro logo um de seus livros e leio isto:

Os dois homens começaram a descer a encosta. O velho Patuá vinha na frente. Era um cabra de ombros estreitos, grande bigode e pernas em arco, muito firmes ainda para sua idade. O negro Guido seguia-o de perto, sustendo na mão esquerda a capanga de munição. Na semi-obscuridade da madrugada, o vale esboçava amplos paredões hirtos, encaixotando funebremente o rio. Os dois homens saltavam de uma pedra para outra, desciam pelos lajedões talhados quase a pique, subiam por íngremes atalhos, e logo reapareciam atrás de uma touça de malva ou de velame, com uma agilidade de cabritos monteses. Agora, porém, tinham eles conseguido alcançar um trecho melhor do caminho, e andavam num passo regular, encolhidos nos capotes surrados.

É a abertura do conto “Emboscada”, um dos textos de seu livro Histórias ordinárias (Rio de Janeiro: Edições O Cruzeiro, 1966). Deve ter sido por volta de 1968 que li pela primeira vez este conto. Quantas vezes já o li, como se fosse a primeira e única, no curso desses 44 anos? Possivelmente mais de dez. E a cada vez o bloco de sensações, compacto bloco, este da abertura, que acabo de ler, me atinge logo e me abala. Sou, a cada vez, outro leitor. Então eu voltava (volto) ao alto da página, para começar a ler de novo, não este primeiro parágrafo, com a sequência impressionante de quatro períodos em que se vão fundindo os verbos de movimento com a descrição precisa dos dois personagens, que são dois jagunços, o velho Patuá e o negro Guido, e do cenário, que é um terreno acidentado, uma encosta, um dos lados de um vale, por onde corre um rio.

O sintagma “semi-obscuridade da madrugada”, hora em que começa a narrativa, é imediatamente antecedido de outro sintagma, “capanga de munição”. Ambos se acoplam com o cenário — um vale —, que é coadjuvante da ação, em seu movimento reiterado, pois “esboçava amplos paredões hirtos, encaixotando funebremente o rio”. O gerúndio, que aí funciona como adjunto adverbial de modo, só faz indiciar com força a atmosfera do conto.

Mas, no alto da página, o que me prendia (me prende, como agora), era (é), não o começo da narrativa, e sim o título, condensado numa só palavra: “Emboscada”.  Palavra que, trabalhada por um escritor como Herberto, chega à potência de seu grau máximo, por ser signo e símbolo a um só tempo. Palavra que deixa de ser a da linguagem corrente. Ora, no instante em que essa palavra bate nos olhos, em que a sílaba / ka /  tem a força, a tonicidade que tem, de imediato me ocorre outra palavra, “tocaia”, que é de origem tupi, e com a mesma acepção, ou melhor, do mesmo campo semântico. Vejam que, na transliteração do tupi dessa palavra, o fonema / i /, que é átono, é avassalado pelo efeito acústico especial dessa consoante velar surda, o / k /.

“Emboscada”, portanto, é a palavra que já me atingiu e abalou desde o instante em que a li no sumário de Histórias ordinárias. O que já me jogou no âmbito da energia de seu signo. O que nele já faz vibrar, enlaçar e fender sensações.

“Os dois homens começaram a descer a encosta”.

Reparem que qualquer pessoa pode dizer essa frase, que é rigorosamente a mesma da abertura deste conto. No entanto, essas oito palavras, assim agenciadas, compostas sintaticamente, deixam de ser as que qualquer pessoa diria porque, aqui, ao voltar essa frase à nossa consciência de leitor, não está mais em jogo seu sentido corriqueiro. O que temos com “Os dois homens começaram a descer a encosta” é um enunciado que entra em nosso comércio das palavras de todo dia, a aparição do que semanticamente já sabemos. Mas, em vez de aparição, o que temos agora, ao contrário, é o fenômeno, que mostra a si em si mesmo. Um mostrador de relógio aparece redondo, cada vez que lemos a hora (função utilitária); ou mesmo, independentemente da utilidade, por causa das exigências de nossa consciência (função, digamos, da banalidade cotidiana). Ora, o fenômeno em si é o mostrador como série infinita de elipses. Ao subir do plano de composição técnica (que é o agenciamento sintático) ao plano de composição estética (que é a fabulação), centenas de palavras já estão condensadas na palavra “emboscada”, como as oito da primeira frase da abertura.

Este conto, e tão somente com a análise de seu título, com a reflexão que suscita o gatilho da frase de abertura, já mostra o que é a palavra escrita para Herberto. Já faz com que, e irrompendo pelo meio — como touças de malva ou de velame, entre as pedras da encosta —, o fenômeno da narração instaure e incorpore um outro tempo, aquém do que vai transcorrer em nossa percepção de leitor: um tempo elíptico, subentendido, cinematográfico, digamos. Basta isso para mostrar que estamos diante de um grande escritor, porque, dono do artesanato de sua língua, através das palavras, entre as palavras, nos faz ver e ouvir; “perfura buracos” na linguagem para ver ou ouvir, como diz Samuel Beckett, “o que está escondido atrás”.

Não é Herberto um escritor regionalista, mas universal. Se pensarmos nas Lavras Diamantinas da Bahia como sertão, e para além do que designa a fisiografia desse termo, pensaremos em Guimarães Rosa, para quem “o sertão está em toda parte”, e em outro grande escritor, o português Miguel Torga, para quem “o local é o universal sem paredes”.

Só um grande escritor é capaz de nos fazer ler, vezes sem conta, uma frase como esta:

“Os dois homens começaram a descer a encosta”.

Mas, o que faz o leitor apressado de nossos dias? Simplesmente engole esta frase; vai engolindo toda a sequência dos quatro períodos da abertura compacta de 12 linhas; engole o diálogo entre o velho Patuá e o negro Guido, logo em seguida, que se estira por quase nove páginas, em que a tensão da espera na tocaia se tece com um equilíbrio incrível entre o escorrer dos minutos e a abertura de um oco em outro  tempo do conto — tempo ontológico, um intratexto, num jogo em que entram os fantasmas do sentimento religioso de Guido, seu misticismo, e a calejada e irônica frieza da arte de matador do velho Patuá, com os acessórios, que aí também figuram, do preparo dos clavinotes, do lugar estratégico para mirá-los e dispará-los, do tempo curtíssimo de Guido ainda fumar, com precaução, um cigarro…

Esse leitor apressado não dá a mínima para o jogo sonoro e semântico desses dois nomes, Patuá e Guido, que entram na tessitura da linguagem do conto, e já são — como os jagunços escolhidos por um coronel a fim de matar outro coronel, um fazendeiro — como o próprio ser da emboscada, sua arquitetura, seu locus, seu ritmo, suas pausas, sua respiração… Faz isso, esse leitor, como se estivesse lidando com a linguagem corrente, que é também a do cotidiano da leitura de jornal, em que a notícia é o que é: uma informação nova, breve, inteligível e sem nenhuma conexão com as outras notícias, porque fabricada para o esquecimento imediato, pois o próprio nome (jornal) indica que é efêmero.

Faz isso, esse leitor, para chegar logo ao desfecho e decretar o seu gosto, que é onipotente, fundado na certeza total e, às vezes, leviano, porque pode esse leitor também deixar de gostar. O que ele lê, não dura, não o afeta, nele não se entranha, ou passa ao largo do acontecimento em si da leitura literária, que é o correlativo do ato de escrever.

Não percebe esse arquivista e descartador de gostos literários que o eu de Herberto é o eu sem eu em que ele, o escritor, se transformou ao tornar-se impessoal pela arte, que é essencialmente impessoal. Pois, o que é gostar de uma obra de arte, qualquer que ela seja, senão a ela sobrepor esse juízo e privá-la da morada que ela é como espaço do imaginário?

Está longe, portanto, esse apressado leitor, do que George Steiner chama de “fazer silêncio dentro do silêncio”, que é ler com toda a atenção. Nos dias de hoje, em que a pressa comanda tudo e tudo coisifica e descarta, uma obra literária é, como diz Maurice Blanchot, “uma rica estação de silêncio para quem sabe nela penetrar”. Não o silêncio equivalente ao repouso da surdez interior, mas “como uma defesa firme e uma alta muralha contra essa imensidão falante que se dirige a nós, desviando-nos de nós”.

Voltemos ao conto e leiamos agora o fecho de “Emboscada”, que é mais concentrado e mais compacto, em seus cinco períodos compostos de oito linhas, do que a abertura: o velho Patuá

[…] com o clavinote apontado para a nuca do homem, apertou o gatilho. O negro Guido acompanhou-o. Dois tiros estrondaram, ao mesmo tempo que a caverna se enchia de fumaça. Como se uma invisível mão os enxotasse, os pássaros voaram. Um desabrido tropel foi ouvido: era o cavalo do fazendeiro, que fugia com os arreios vazios. Espantado, corria doidamente estrada abaixo — as caçambas batendo como sinos. Como sinos roucos. Estranhamente roucos.

Vejam que tanto a experimentação quanto o prazer da leitura de “Emboscada” resultam do equilíbrio instável entre o esperado e o choque do que é novo. Esse choque, por sua vez, atinge seu ponto mais elevado porque é um choque de reconhecimento, um déjà vu. O que é contado se convulsiona, se ilumina. É isso o que Borges chama de “fato estético”. Sobre o qual, basta que se pense num conto do próprio Borges, “A biblioteca de Babel”, cujos livros contêm a totalidade das literaturas passadas e, fantasticamente, das que estão por vir.

Emboscada. O processo semântico é um processo de diferenciação. Ler literariamente é comparar. Vejam que o tratamento de um mesmo tema mitológico, por exemplo, comporta analogias e contrastes em diferentes autores trágicos como Ésquilo, Sófocles e Eurípedes.

Emboscada. Quantos signos a morte, este signo maior que é ela, tanto da obra de Herberto quanto da de Jorge, de Adonias e de Osório, enfim, dos grandes escritores de qualquer tempo e lugar, fazem com que a leitura deste conto seja, como falei há pouco, a experimentação do próprio ser emboscada? Ser de sensações que vibram, se acoplam e se estilhaçam no todo que é a estrutura da narrativa.

Herberto

A morte na universalidade da literatura. Lembrem-se do que abre Terras do sem fim, de Jorge: o sul da Bahia, chão de cacau, como “a terra adubada com sangue”; lembrem-se, também de Jorge, do título de um de seus últimos romances, Tocaia grande: a face obscura, e do título do talvez mais bem-realizado de seus livros, em que o real é a própria essência e o que há de admirável no fantástico: a novela A morte e a morte de Quincas Dágua.

Lembrem-se do título do livro de estreia de Adonias, um romance: Os servos da morte.  Do convite de Adonias, em Léguas da promissão, volume de contos, para conhecer, também no sul da Bahia, a “terra de muito espanto, o Itajuípe”, diz ele, pois “é preciso avisar”. Lembrem-se do painel criado por Osório, ao mostrar o que era ser jagunço, na segunda metade do século XIX, em Santa Maria da Vitória, em Carinhanha e em tantas comunidades ribeirinhas do São Francisco.

E lembrem-se, de volta a Herberto, de como em Cascalho, seu primeiro livro, um romance, a chuva é uma das manifestações da morte. Pois chove muito na abertura e no fecho do romance. Foi, justo, numa noite de chuva grossa, violenta, que Herberto começou a escrevê-lo, em Andaraí. No episódio final, a chuva, que logo se torna enxurrada avassaladora, torrente feroz, é o que vai apanhar três garimpeiros, Filó, Joaquim-Boca-de-Virgem e Neco, dentro de uma gruna, onde faz um frio danado. E Joaquim, sublinha Herberto, “vê a morte diante dos olhos”. Mais do que isso, pois, como conta Herberto, “[Joaquim] Sente-se apanhado irrevogavelmente na armadilha: ia morrer como um bicho — sem vela nem sentinela — e esse pormenor lhe causava uma espécie de decepção”. Vejam como a palavra “armadilha” tem a mesma espessura semântica de tocaia, de emboscada.

Lembrem-se ainda, em Cascalho, de um dos núcleos dramáticos mais intensos e brutais, que é a morte de Zé de Peixoto pela fuzilaria de nove jagunços atocaiados.  Eis o que, na sequência dessa morte, vem com um grito e a descrição mais crua:

— Mataram Zé de Peixoto.

Um homem explicou muito agitado:

— Eu fui o primeiro a chegar… Encontrei um cachorro de porta de açougue lambendo o sangue dele. Coisa horrível. Quando risquei o fósforo, o negro estava com os miolos do lado de fora e as virilhas varadas de bala.

Já que a memória, como diz Borges, é um rio de ferro que modifica as coisas, sejamos o leitor que imagina e experimentemos — com temor e tremor — mudar o tempo do verbo:

“Os dois homens começam a descer a encosta”.

Já que o ato de ler é tão criador quanto o ato de escrever, muito mais poderia ser dito sobre a arte do conto de Herberto. E até lembrar, por causa da conexão com “Emboscada”, um outro conto dele, “O morrinho”, de seu livro Uma telha de menos (4. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980), em que faz uma espécie de faroeste, conciso ao máximo: dois fazendeiros disputam um irrisório pedaço de terra e um deles é mais rápido no gatilho.

Conta Herberto no Subsidiário 1 (confissões, memórias & histórias) que, quando fez o exame de admissão no Ginásio da Bahia, aqui em Salvador, conheceu um professor de História, Bernardino José de Souza, que logo lhe perguntou:

— De onde o senhor é?

Respondi:

— De Andaraí, Lavras.

E ele:

— Quantos o senhor já matou?

Eis o que escreve Herberto a propósito dessa recordação, que, por sua vez, deflagra outra, nele bem viva, de sua infância:

Afinal a pergunta [do professor Bernardino] não fora de todo descabida. Eu vinha de uma terra de violência e crime, onde até os meninos matavam, como Luís, meu colega de escola, que matou João Grande com uma espingarda de carregar pela boca.

(Texto  apresentado no Seminário Novas Letras; Herberto Sales e o conto contemporâneo, promovido em dezembro de 2012 pela Fundação Pedro Calmon).


[1] Seminário Novas Letras, evento que, organizado pela Fundação Pedro Calmon, da Secretaria de Cultura da Bahia, focalizou o tema “Herberto Sales e o conto contemporâneo”, realizado no Quadrilátero da Biblioteca Pública do Estado, em 14/12/2012, com a participação dos escritores Ruy Espinheira Filho, Ângela Vilma e Valdomiro Santana. Esse encontro foi mediado pelo escritor Elieser Cesar.

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