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GALLO QUE TECE A MANHÃ DAS LETRAS – IBSEN, ORTEGA Y GASSET E JOÃO ANTÔNIO. fevereiro 24, 2013

Posted by eliesercesar in Artigos.
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Um inigo do povo

A luta de Mayrant Gallo pelo respeito à literatura – do mais renomado escritor ao mais obscuro gráfico, só para abarcar a rede que produz o livro – não é isolada. Em seu esforço por fazer respeitar a literatura na Bahia, Mayrant Gallo se insurge contra a maré vazante da mediocridade, incluindo   um lumpesinato pseudo-literário, que não escreve, não publica, tem horror a  quem o faz e se esconde no mais covarde anonimato.

Aparentemente isolada, mas ganhando força, a luta de Mayrant pela valorização da arte lembra a do Dr. Stockmann, personagem do drama Um inimigo do povo, do norueguês  Henrik Ibsen. Para remorar: Dr. Stockmann vive num balneário de uma pequena cidade administrada pelo irmão dele. Investigativo, como todo bom cientista, descobre que as águas vendidas como térmicas e medicinais estão, na verdade, contaminadas pelos germes da putrefação. Tenta alertar os moradores que, antes, o respeitavam, mas acaba angariando a antipatia geral, ao ponto de virar “um inimigo do povo”.

É sintomático o seguinte diálogo com o editor (venal) de um jornal da cidade, o mesmo que o apoiava, incondicionalmente, antes da descoberta crucial:

Hovstad (Berrando mais alto que os outros.) – A pessoa que ataca dessa forma o bem comum é um inimigo do povo!

Dr. Stockmmann (Exaltando-se cada vez mais) – E que me importa a destruição de uma comunidade podre, que vive  e protege mentiras? É preciso que seja arrasada, ouviram? Todos aqueles que vivem de mentiras devem ser exterminados como ervas daninhas! Vocês acabaram por infectar todo o país! E se todo o país ficar infectado com este nível de corrupção, merecerá ser reduzido ao nada junto com seu povo!.

É o ódio sagrado contra a mentira, a desfaçatez, o engodo, o arrivismo; enfim, contra tudo aquilo que avilta e envilece o gênero humano que, segundo Borges, não convém ser fomentado, como também o espelho que duplica e multiplica o homem.

Resumo da ópera: o bom médico é demitido, afastado do convívio social e, com o apoio exclusivo da mulher e dos filhos, se renova com a convicção de que “o homem mais poderoso que há no mundo é o que está mais só”.

Sim, porque fez a sua parte, está com a consciência limpa e sabe que não deve mais nada a ninguém.

Agora, para aqueles que têm destilado diatribes anônimas (os Mollochs), um pouco de Ortega y Gasset: “A característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõe em toda a parte”.

Com diz o verso de João Cabral: “Um galo sozinho não tece uma manhã”. Mas, vários galos tecem uma aurora. Como disse João Antônio (em seu corpo a corpo com a vida): “a luta é esta, ou nenhuma”.

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