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ROBÔ GIGANTE MORRE? março 6, 2013

Posted by eliesercesar in Prosa.
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UM CAPÍTULO DE O AZAR DO GOLEIRO (LIVRO DE ESTREIA, DE 1989):

– Robô gigante morre? – perguntou Ruiberto.
– Morre – respondeu Nego.
… – Morre nada. Ele mata o chefe dos monstros e fica vivo – apostou Isidoro.
– Se ele morrer não tem graça – disse Dagô.
– Morrem ele e o chefe dos extraterrenos – opinou Beto.
Olhamos todos com raiva para ele. Que mania de torcer contra o artista (era o mesmo que torcer contra a Seleção Brasileira na Copa do Mundo, mesmo que o time estivesse ruim). Bandido não ganhava e pronto. Filme era assim mesmo; por esse teria que ser diferente?
Estávamos todos na casa de Adovaldo para assistir ao último episódio da série “Robô Gigante”. Após salvar, durante vários capítulos, a Terra da invasão dos monstros – cada um mais feio e perigoso do que outro – o Robô finalmente lutaria com o chefe de todas aquelas repelentes criaturas do espaço.
– Ele salva a terra e depois morre – insistiu Beto.
– Nada disso. Ele destrói o chefe dos monstros e depois volta para o planeta onde morava, antes do menino encontrar o relógio que o aciona e comanda – arriscou Nego.
– Isso mesmo – entusiasmou-se Adovaldo.
– Mas assim o menino fica sozinho e isso também não presta – observou Isidoro.
– Fica não. Depois ele encontra o filho do Robô – disse Humberto, o irmão caçula de Adovaldo.
Foi o palpite mais besta de todos. Humberto recebeu uma estrondosa vaia que o deixou envergonhado. Que história mais boba. Quem já viu robô, uma engenhoca de aço, cheio de baterias, válvulas e fios, poder ter filhos. Se ele não era homem, nem bicho? Tudo bem que os monstros pudessem gerar criaturas horrendas como eles, mas o robô…
Estávamos todos ansiosos. Faltavam apenas alguns minutos para o início do derradeiro episódio. Havia no grupo quem se orgulhava de não haver perdido nenhuma aventura da série. Eu não tivera a mesma sorte; acho que perdi uns três capítulos.
Mas, ò azar do cão, subitamente a imagem no vídeo apagou-se; Adovaldo correu ao comutador.
– Merda – xingou –faltou luz.
A apreensão tomou conta da turma. Logo naquela hora. Porque a energia elétrica não faltava quando estava passando o jornal?
– Vou contar até dez e a luz volta. – disse Isidoro, iniciando a contagem. – Um…, dois.., três…,quatro…,cinco…,seis…, sete…, oito (nada de luz)…, oito e meio, nove (a tela ainda escura)…, nove e um pouquinho…,nove e um terço…, nove e meio…, nove e noventa e nove.., atenção: dez.
A imagem ressurgiu nítida no vídeo. A gritaria foi geral.
– Cagada; foi cagada – disse Nego.
– Cagada uma ova. Foi mágica mesmo – defendeu-se Isidoro.
Ele ainda mostrava um sorriso que ia de uma orelha à outra, quando a imagem sumiu outra veza no vídeo. O desânimo dominou o grupo de novo. Era comum a energia faltar e retornar segundo depois, apenas com o fito de pregar uma peça nas pessoas que precisam dela para algo importante. Esperamos mais alguns segundos. Depois, o desânimo deu lugar á tristeza.
– Não volta – agourou Beto.
– Cale a boca, pé-frio – ordenei chateado 9que mania de ser do contra; primeiro disse que o Robô morre e depois que a energia não voltava).
– cale a boca já morreu, quem manda em minha boca sou eu – respondeu Beto.
Eu estava nervoso.
– É? Pois se eu der um pau nela, quem vai passar a mandar sou eu – ameacei, esquecido de que de nós dois Beto era mais forte.
– Pois dê; dê logo, se você for homem – desabafou Beto.
– Não vou dar porque estamos na casa de Adovaldo – disse eu.
– Então, vamos sair para você dar – propôs Beto.
Quando a discussão – para o meu azar – parecia que ia acabar em briga, a televisão voltou a funcionar.
Todos vibramos.
– Deixa a briga para lá. A luz voltou e o time tem que permanecer unido para a partida de amanhã – pediu Adovaldo.
– Por mim, tudo bem – apressei-me em dizer.
– Por mim também – concordou Beto.
A energia elétrica voltou justamente no momento em que eram exibidas as últimas cenas do capítulo anterior. O chefe dos monstros deixou a espaçonave da qual comandava sai quadrilha do outro mundo – já toda liquidada – cresceu de tamanho e defrontou-se com o Robô para a batalha final.
Permanecíamos todos espremidos na pequena sala. Veio a propaganda. A emissora anunciou mais uma aventura da série Kung-Fu, a história de um menino da cabeça pelada que aprendera, com um mestre cego, os segredos das artes marciais e se tronando em adulto, agora usando cabelos longos, um defensor dos mais fracos, colocando sempre a força a serviço do coração. Depois vieram uns comerciais bestas e, o filme começou.
O chefe dos monstros atacou o Robô com uma potente braçada. O Robô se esquivou e acertou-lhe um soco na venta. O chefe caiu estatelado e o Robô acionou os foguetes embutidos nos dedos dele. Pronto; aqueles foguetes dariam cabo do bandido. Todos torcíamos. Dagô e Isidoro esfregavam uma na outra as palma das mãos, não num gesto de contentamento, mas de inquietação.
O Robô disparou o primeiro míssil e o petardo explodiu numa rocha, atirando lascas de pedras à distância. Outras bombas foram disparadas, mas só uma delas atingiu o vilão, ferido na perna, porém ainda firme na batalha.
A luta estava dura. O Robô batia muito no chefe dos monstros, mas também apanhava um pouco. Se fosse uma luta de boxe, o Robô venceria por pontos. Contudo, não era aquele tipo de briga; era preciso nocautear para sempre o chefe dos monstros para que a terra pudesse respirar aliviada.
Quando o duelo já durava muito tempo, o Robô enlaçou o adversário pela cintura e voou com ele para espaço. O menino que o comandava pediu para ele voltar. Pela primeira vez, o Robô não obedeceu ao garoto; continuou voando com o chefe dos monstros debatendo-se nos seus braços de ferro. Ficamos todos apreensivos, vendo o Robô com sua carga bem presa. O menino o chamava de volta; gritava desesperado, com lágrimas correndo-lhe pelo rosto, para que ele não fizesse aquilo. O Robô prosseguia sua viagem no espaço. Bem longe, no céu, ele chocou-se de propósito num meteorito. O menino não parava de soluçar. Humberto começou a chorar. Muitos de nós tínhamos os olhos lacrimosos, mas já éramos muito grandes para chorar por um simples filme, como o irmão caçula de Adovaldo.
– Chorando? – provocou Beto, apontando para mim.
– Chorando o quê? Sou homem – disse eu.
Na verdade eu tinha mesmo vontade chorar. Um nó de fogo me queimava a garganta. Assistir, semanas a fio, tantos episódios para ver o Robô se acabar daquele jeito com o chefe dos monstros. Tinha graça?
De repente o menino parou de chorar. Limpou as lágrimas com as mãos e começou a sorrir. Num planeta distante, ele viu o Robô inteirinho como se o choque com o meteorito não o tivesse afetado.
Ouvimos a música do filme. O menino sorria; o chefe dos monstros destruído e o Robô tranquilo no seu planeta.
– Morreu, eu não disse? Morreram o Robô e o chefe dos monstros – garantiu Beto.
– Morreu nada. Você não viu o Robô inteirinho, no planeta dele? – perguntou Isidoro.
– Aquilo foi imaginação do menino; para compensar a saudade que ele já sentia do Robô – explicou Beto.
Morreu ou não morreu? Estávamos em dúvida. Seu Eliovaldo, o pai de Adovaldo, ao passar pela sala, parara para ver o fim do filme. Resolvemos consultá-lo.
– Morreu. A explosão foi muito forte – respondeu Seu Eliovaldo, acrescentando com perversidade: “foi pedaço do Robô e do monstro para todos os lados”.
Entristecida, toda a turma concordou com ele. Eu ainda tinha as minhas dúvidas. Que mania a do pessoal de acreditar em tudo o que os mais velho diziam!…

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