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ESCRITOR PLURAL – Em Cidade Singular, Mayrant Gallo exibe seu cosmopolitismo humano. maio 14, 2013

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Mayrant Gallo autografa seu novo livro de contos.

Mayrant Gallo autografa seu novo livro de contos.

Há alguns anos, saudando o advento de Pés quentes nas noites frias, primeiro livro de contos de Mayrant Gallo, escrevi (para a revista Iararana nº 3), que a vasta galeria dos seres estilhaçados que transitam por aquelas histórias “são personagens dilacerados pela vida, em desconforto com o mundo, enfrentando situações-limite, forçados a tomar uma decisão ou a não decidir nada, o que é a forma mais covarde de decisão”. Disse, ainda, que Mayrant Gallo “nunca fala de acontecimentos etéreos ou melífluas ocorrências, mas da dureza da vida, do incerto destino dos homens” e também que “sua literatura não apascenta consciências; dissemina incômodos”. Acrescentei, por fim, que a se tratava de uma literatura pessimista, que não poderia ser de outro jeito, pois, em geral, seus personagens “acabam, de um jeito ou de outro, experimentando uma dessas patadas da vida; um desses coices traiçoeiros do destino”.

Pouco mais de uma década depois, reafirmo o que havia dito, e reforço, reportando-me, agora, ao livro Cidade Singular (Salvador: Kalango, 2013): com raras exceções, as criaturas de Mayrant Gallo tentam se equilibrar numa espécie de limbo existencial, à mercê de provações, desencantos e desilusões, como se o mundo  fosse um laboratório de dores.

Os ombros dos personagens de Cidade Singular – do implacável Pio Gatilho, do conto “Brinquedo perdido” ao pai impotente diante da desagregação emocional da filha, em “Pluma solta no vento”, passando também pelo resignado e nostálgico aposentado de “A fruta preferida de seu pai” –, bem, os ombros desses joguetes do destino imponderável suportam o mundo, aceitam-no em seu fatalismo irrevogável, não se insurgem contra ele.

Os personagens que, por ventura, esboçam alguma ação afirmativa, não necessariamente uma ação moralmente aceita, como a Bonnie dos Barris e a Lolita malvada de “Diários da piscina”, o fazem sabendo que acabarão caindo na mesma rede de repetições de uma vida para a qual parece não haver saída; um destino fatalizado como de tragédia grega. Por isso, todos seguem carregando o fardo da existência, pois (ainda recorrendo a Drummond), para eles, chegou um tempo em que “a vida é uma ordem; a vida apenas, sem mistificação”.

Com o mesmo estilo sóbrio, límpido, conciso, cuidadoso e carpinteiro de “um operário das palavras”, “um Sísifo que, em lugar de uma pedra, rola montanha acima um saco abarrotado de signos, intenções e sintaxes”, como se define o escritor na apresentação do livro, Mayrant Galo enfeixa 15 contos em Cidade Singular. Tributário de autores que admira, o escritor passeia pelo relato noir norte-americano (“Você não é Sam Spade” e “A Bonnie dos Barris”), pelo brasileiro Rubem Fonseca (“Brinquedo perdido”), por Camus (no início de “Diários da piscina”), Borges (“O quasídromo”) e pelos desencontros familiares em todas as prosas (“O fim da inocência”, “Pluma solta no vento” e “Viagem adentro do ano militar”). Também exibe seu cosmopolitismo humano com a perícia de um escritor plural que observa e denuncia os miasmas pulsantes de uma cidade singular em seus desencontros.

SEXO, CRIME E SOLIDÃO

Mayrant Gallo demonstra que, há muito, se livrou da angústia da influência; aquela sensação de quem não consegue se libertar dos autores mais marcantes e passa a vida em imitações, pastiches ou, simplesmente, numa espécie de inércia da criação, por compreender que outro já decifrou sua alma de artista e disse tudo que se pretendia dizer, num interdição covarde e consentida diante de uma sombra poderosa. Logrou tal libertação de um modo direto e catártico, reconhecendo o legado generoso da tradição.

“Aos leitores que, por ventura, me imputam certa capacidade de escrever sem influências, me predisponho a esclarecer que eu não seria ninguém – como efetivamente não sou – se não fosse a admiração que alimento por cada desses autores  e por mais alguns outros, oriundos dos quatro cantos do mundo”, admite, depois de citar Goodis, Cain, Chandler, Camus, João Antônio, Rubem Fonseca e Borges, cujos ecos reverberam, com maior ou menor intensidade, nos contos de Cidade singular.

Sexo, crime, solidão e a inutilidade última de todo gesto humano (como se tudo fosse fortuito e inócuo, no oceano tempestuoso da vida a desaguar num promontório vazio), presidem a trajetória dos personagens deste livro.  São homens e mulheres testados pela vida e reprovados por si mesmos. Fenômeno  que se delineia na epígrafe de Ray Bradbury: “Como é que se sabe por que se faz alguma coisa na vida?”

Singular em seu variado cardápio de tipos humanos, a  cidade de Salvador, por onde vagueia uma fauna plural de seres atormentados, é o onipresente personagem de aço e concreto, como num flerte com o naturalismo, no qual o ambiente, deletério ou benéfico,  molda e traga as pessoas. Neste preciso ambiente geográfico caminhamos  pelo armarinho da Rua Carlos Gomes, pelo Shopping Center Barra, pela loja de discos do Rio Vermelho, pela reabertura do Cine Art, no Politeama, pelos quiosques da Fundação Politécnica, pelo Santo Antônio, passando pelo Carmo e descendo o Taboão, pelos arredores da nova Fonte Nova e por tantos outros logradouros por onde circulam almas singulares, na pluralidade tediosa de dias repetitivos.

Nestas 15  histórias curtas de Mayrant Gallo, não se vislumbra um autor niilista, embora a desconfiança e descrença no homem e nas ações humanas sejam patentes no timbre do escritor. O que se deixa entrever é um cético que ainda deposita uma esperança mínima. Nas crianças, como no menino (autobiográfico?) de “Viagem adentro do ano militar”, cuja porta para o futuro, onde antes vira (ou imaginara ter visto) o pai ausente, permanece aberta, com o vento sacudindo as cortinas do porvir.

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Comentários»

1. Mayrant Gallo - julho 10, 2015

Elieser, este foi um dos melhores textos já escritos sobre qualquer livro de minha autoria. Abraço e minha gratidão. Mayrant.

eliesercesar - julho 11, 2015

O mérito todo é do livro, Mayrant.

Elieser Cesar

Date: Fri, 10 Jul 2015 22:25:06 +0000 To: eliesercesar@hotmail.com


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