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A NAU DO OUTRO MUNDO julho 5, 2013

Posted by eliesercesar in Contos.
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        (A partir de um soneto de Mario Quintana)

Nau 

                                                                1

Nossa cidade portuária fica na costa leste do país e tem poucos moradores. Como todo lugar pequeno, é um local pacato, onde todas as pessoas se conhecem e se frequentam como se fossem parentes. Briga nas ruas, só mesmo a dos cachorros que disputam restos de peixes deixados pelos pescadores, praticamente todos os homens adultos da região. O maior orgulho da nossa gente é a abundância e qualidade do pescado e o belo promontório da baía de águas azuis e cristalinas. Carne vermelha, aqui, é uma raridade. Todos comem peixes, de domingo a domingo, com pratos variados para diversificar o cardápio.

Todos seguimos a ordem simples do lugar, com os acontecimentos se repetindo, festas de casamento, batizados, a comemoração do padroeiro, um santo pescador e a morte de alguém, quase sempre um idoso, depois de longa enfermidade, pois, em geral, na nossa cidade as pessoas gozam de boa saúde, condição atribuída a nutritiva dieta de peixes e crustáceos.

Nada de extraordinário acontece no lugar, a exemplo dos estragos causados pelas chuvas ou a fúria do mar soprando ventos fortes e destelhando as casas. Ao contrário, em nossa cidade a chuva é pouca e o mar sempre manso na baía de águas translúcidas. No entanto, aconteceu! Oxalá, jamais tivesse ocorrido. Uma das principais testemunhas dos fatos, junto com meus três irmãos, até hoje me arrepio e sinto o sangue gelar-me nas veias, só em recordá-los.

Foi a aparição de um barco, não de uma embarcação qualquer, como as que estávamos acostumados a ver sair, todas as manhãs, do porto para a pescaria em alto mar, mas de uma nau sem velas nos mastros, que surgiu em meio à uma extemporânea névoa em nossa baía como se o próprio visitante intruso trouxesse consigo brumas jamais vistas e que pareciam prenunciar algo terrível, um sortilégio dos oceanos prestes a aportar em nossa cidade.

Melhor que ventos fortes tivessem desviado o barco para os rochedos e que o nosso povinho pacato não tivesse conhecimento da carga que trazia nos convés. Quem dera que aquela aparição sinistra não tivesse passado de um desses delírios coletivos que acometem um povo crível e supersticioso, disposto a acreditar em tudo…

2  

O barco não ostentava nenhuma bandeira que permitisse identificar sua origem. Era uma nau apátrida e desgarrada de quaisquer laços de nacionalidade. Quem a viu primeiro foi meu irmão mais velho. Naquela manhã inesquecível fora o primeiro a chegar ao porto para a pesca da lagosta, do salmão, do atum e do marlin. Ajeitava nosso pequeno barco de motor na popa, herança de nosso pai, também pescador como o pai e o avô dele, quando viu a embarcação como que parada no mar, mas movendo-se com aquela paciente lentidão dos sonhos.

Depois de se convencer de que não era nenhuma visagem, veio me procurar em casa para informar que um barco suspeito alcançava nossa baía. Tinha enorme respeitado por mim e por minha opinião, porque eu era o mais estudado de casa e quase chegara à universidade, não fosse o sumiço de meu pai, misteriosamente desaparecido no mar, que me obrigou a trocar os livros pela a rede, o arpão e a vara de pescar.

Também intrigado com a inusitada visita, engoli o café da manhã e fui para o cais com meu irmão mais velho. Lá, encontramos os outros dois irmãos mais novos e uma pequena multidão de curiosos, inclusive o padre e o delegado. Afinal, pensavam todos, que barco era aquele e o que queria em nossa baía? Houve quem pedisse calma, que ninguém se preocupasse, deveria ser uma nau de turistas esnobes em busca de praias desconhecidas e acolhedoras, logo, saciada a curiosidade, iriam embora, sem deixar rastro como as aves migratórias. E se fosse um barco pirata, corsários escondidos a estibordo, armados até os dentes, dispostos ao assalto, a pilhagem, ao estupro e ao massacre de uma população indefesa? Que pirata coisa nenhuma, nos dias de hoje; pirataria só não internet, você anda assistindo muito filme de capa e espada, descartou uma voz na pequena multidão.

Confesso que também pensei bobagem: aquela embarcação deveria estar sendo comandada por meu pai, Ulisses retornando para a sua Ítaca de pescadores pobres, muito tempo depois de se perder no mar, trazendo especiarias, riqueza e prosperidade para todos. Logo me convenci do absurdo da ideia.

Homem prático do mar em comparação a mim – mais afeito à fantasia e a imaginação – meu irmão mais velho sugeriu que deveríamos zarpar em nosso barco e abordar a nau em plena baía, a fim de verificar as reais intenções de sua desconhecida tripulação. Assim, convocamos nossos dois irmãos e zarpamos em família. O delegado quis partir conosco, mas o padre o convenceu de que seria melhor que ficasse em terra, para a eventualidade de alguma confusão. Era certo que nossa gente era ordeira e pacata, mas ainda mais certo que aquele se tratava de um acontecimento insólito e de consequências imprevisíveis. Zarpamos, precedidos da oração puxada pelo padre para que nenhum mal atingisse a nossa cidade.

 

                                                                3

Por mais esforço que fazíamos para nos aproximar do barco, mais distante a outra embarcação se nos afigurava. Era como se nos movêssemos em câmara lenta. Parecia até pirraça: nosso barco tentando se aproximar e a nau distante como uma miragem. Depois de um tempo que nos pareceu congelado na eternidade, conseguimos nos abeirar da embarcação. Então, partimos para a abordagem. Decidimos quem primeiro deveria subir ao convés. Menos experiente nas lidas do mar, porém unanimidade entre os meus, fui o escolhido. Meu irmão mais velho lançou a corda com uma âncora a bombordo do outro barco. Subi pela corda e saltei nos convés, com o coração palpitando na tensa expectativa do desconhecido. Logo vi uma mão pequena e inerte. Em seguida, várias mãozinhas. “Jesus Cristo! Não pode ser verdade?!”, exclamei, intrigando meus irmãos. Instantes depois, os outros três se juntaram a mim, no mesmo espanto e indignação. Mesmo acostumado às surpresas do mar, meu irmão mais novo começou a vomitar. Homens rudes e temperados na vida dura de pescadores, os outros dois não contiveram as lágrimas.

Até hoje, muitos anos depois, não sei como naquele momento de transe, consegui manter o sangue frio e ser o mais prático de todos. Ordenei aos meus irmãos, que levássemos a embarcação de volta, refazendo a rota daquela viagem de assombros. Meu irmão mais velho tomou o leme, os demais deveríamos obedecer as suas ordens. Mas, quem disse que havia mais caminho de volta? Meu irmão mais velho se esforçava por controlar o barco que teimava em rumar para o cais, agora, para o nosso desespero, com uma velocidade que parecia impulsionada por uma determinação cósmica.

Aquelas, agora, eram águas extremas. Vencidos pelo cansaço, impotentes diante de forças misteriosas, nos sentamos nos convés e deixamos o barco se aproximar do porto. Meu irmão mais velho ainda tentou uma manobra desesperada. “Vão pra casa. Vão todos pra casa. Não vale à pena”, gritou da proa. Seu apelo foi em vão. Minutos depois, toda a cidade pode conferir horrorizada que acabara de chegar ao porto uma nau carregada de crianças mortas.

 

P.S: O trecho  do Soneto X de Mario Quintana, contido no livro A Rua dos Cataventos e que inspirou este conto de horror, diz:

                     O silêncio de quando, em alto mar,

                     Pálida, vaga aparição lunar,

                     Como um sonho vem vindo essa Fragata…

 

                    Estranha Nau que não demanda portos!

                   Com mastros de marfim velas de prata,

                   Toda apinhada de meninos mortos…  

        

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