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UMA HISTÓRIA DA ERA DO JAZZ julho 31, 2013

Posted by eliesercesar in Contos.
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Ilustração: Nighthaws, de Edward Hooper.

Ilustração: Nighthaws, de Edward Hooper.

(Trecho da novela O escolhido das sombras, do livro A garota do outdoor)

 

20

 

A música amenizava o tédio. Em companhia de Violeta eu passava horas inteiras ouvindo clássicos, jazz tradicional e um pouco de gospel.

Quando ouvia um daqueles negros americanos cantar, com uma voz potente, quase roufenha e bastante nítida, evocava a atmosfera viciada dos cabarés dos anos trinta, que conhecia somente através dos filmes.

Num bar, com um grande balcão de madeira reluzente, o barman servia-me um uísque duplo e eu, Rubby Serese, bebia sozinho e ruminava uma fossa tremenda por uma loura que me abandonara. O paletó folgado, a calça pespontada, o chapéu de abas frouxas, os sapatos de duas cores, com cadarços e uma expressão de cafajeste sofredor no rosto escanhoado. No amplo salão, uma clarineta soprava a brisa da minha saudade. Na mesa ao lado, um grupo de gangsters ultimava os preparativos para dizimar a quadrilha rival, com uma fuzilaria impiedosa, que surpreenderia os inimigos no meio de um jogo de cartas e deixaria, na sala de jogos, a marca brutal dos que jamais perdoam; operação que asseguraria, aos matadores, o domínio completo sobre o tráfico de bebidas e entorpecentes. Na extremidade do balcão, à minha esquerda, uma prostituta bonita, muito pintada, empunhando com graça uma longa piteira e usando uma touca enfeitada com um penacho, aguardava o instante propício para me pedir um drinque.

No salão de dança, casais elegantemente vestidos — os homens trajando smokings; as mulheres com luxuosos vestidos de noite, longos e brilhantes — dançavam levemente embriagados pelo gin-tônica.

Quando notava o meu copo vazio, o barman, um jovem de boa aparência, perguntava-me, com a delicadeza  quase feminil dos garçons, se eu desejava outro drinque. “É pra já, mister Serese”.

Então, a prostituta, muito jovem, se aproximava sem cerimônias e me pedia um drinque. “Outro duplo, por favor, Frank”.

Loquazes, conversávamos por mais  duas horas e, antes de Dorothy Goldfinger propor que fôssemos, embriagados, terminar a noite num motel de beira de estrada, eu revelaria  que Melisa Parker Steiner, a linda loura descendente de alemães, havia me abandonado,  quando eu começara a destilar uísque, numa fábrica clandestina instalada no meu sítio, nos arredores de Chicago, infringindo à Lei Seca, para comercializá-lo com a ajuda de um gangster poderoso.

Contei também à minha companheira que Melisa Parker Steiner, a quem mulher alguma que o meu poder e a minha influência permitiam-me possuir ou poderia ser comparada, dissera que eu acabaria  estendido numa viela miserável, com o corpo peneirado pelas metralhadoras automáticas dos gangsters, como acontece a todos os homens honestos, que se metem em negócios escusos com quadrilhas de assassinos frios, impiedosos e profissionais. Ela, Melisa Parker Steiner, não ficaria para morrer comigo. Não queria engordar, com o seu rosto deslumbrante, o seu corpo escultural,  branco e macio, as estatísticas mórbidas da máfia, oferecendo-se em holocausto, por amor a um fabricante clandestino de bebidas.

Tudo isso eu contava à minha companheira fortuita, daquela vez Agnes McBaker, não mais Dorothy Goldfinger (morta dias atrás, apunhalada por um desconhecido, no quarto de um motel ordinário). Contava-lhe antes de juntarmos os corpos com a desesperança daqueles que só encontram paz e consolo no sexo.

Mas, de repente, a música terminava e eu voltava a ser Rubaldo Serese, no quarto com uma sombra de mulher, livre dos meus delírios cinematográficos. Virava a face do disco na vitrola e, enquanto a melodia durava, sobressaíndo-se, desta vez, um tropete fogoso, eu, americanizado, retornava ao mesmo bar, agora em companhia de Sally Chapman (Agnes McBaker contraíra pneumonia e estava hospitalizada).

A Sally eu também revelava a mesma paixão irremediável de um fabricante clandestino de bebidas pela loura Melisa Parker Steiner, descendente direta da alta nobreza alemã.

“I can’t stop lovin’you, Melisa”, repetia para mim mesmo, enquanto pedia outro drinque e começava a alisar as coxas macias de Geraldine Howe (Sally Chapman enforcara-se).

Não sei se Violeta também tinha os seus delírios, enquanto ouvíamos jazz e eu esquentava o estômago com vinho ordinário.

 

 

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