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TRÊS LIVROS dezembro 31, 2013

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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HESSE, SVEVO E FAULKNER

Todo ano,  procuro saldar uma velha dívida de leitura. Pegar aquele livro que está lá na estante, como a dizer: “Leia-me. Não sabe  o que está perdendo!”. Pois, bem, de uma leva, resolvi três dessas pendências, para fechar o ano, com que havia relegado há alguns anos.

Primeiro li O Jogo das Contas de Vidro, de Hermann Hesse, uma aventura espiritual sobre a essência necessária da música. Dele extraio esse trecho (memorável)  sobre o inconformismo e a necessidade de ousar transformar a rotina, tediosa e repetitiva, como um eterno retorno ao nada:

hESSE

Não vai rir de mim, mas esses meninos que partiram têm para mim, apesar de tudo, alguma coisa de imponente, assim como o anjo rebelde Lúcifer, tem certa grandiosidade. Talvez tenham feito alguma coisa errada, podemos admitir que cometeram um erro, mas seja como for, fizeram alguma coisa, realizaram algo, ousaram dar um salto e é preciso coragem para isso. Nós que fomos aplicados, pacientes e ajuizados, não fizemos nada, não demos saltos nenhum.

 Depois, a Consciência de Zeno, de Italo Svevo, romance que bebe na psicanálise para transcendê-la e até ironizá-la, através da arte. De fina ironia que lembra Machado de Assis.  Desse livro destaco essas linhas que (fora do contexto) parecem misóginas, porém, não são (daí um convite reiterado à leitura):

sVEVO

A mulher era um objeto que variava de preço mais do que ação na Bolsa. Alberta não me compreendeu bem e pensou que estivesse a repetir uma coisa já sabida de todos, ou seja, que o valor da mulher variava com a idade. Quis explicar-lhe com mais clareza: a mulher podia ter alto valor à certa hora da manhã, nenhum valor ao meio-dia, para valer à tarde o dobro do que valera  de manhã e acabar à noite por ter um valor negativo: uma mulher estaria cotada a esse valor quando um homem calculava que soma estaria disposto a pagar para mandá-la para os quintos dos infernos.

Por fim, Absalão, Absalão!, uma tragédia shakespeariana, de William Faulkner, passada no sul segregacionista dos Estados Unidos, onde o autor de O som e a fúria criou o condado mítico de Yoknapatawpha. Trata-se de  uma história de gente rude enredada no obscuro e fatal labirinto do destino. São tantos os trechos esteticamente luminosos, que foi difícil escolher um. Porém, segue esse que dialoga com Castro Alves, a quem Faulkner , certamente, não deve ter conhecido:

fAULKNER

A brotação da natureza e a brotação dos homens era regada pelo sangue negro desperdiçado e insuflada pelos ventos, dos quais os navios proscritos haviam fugido em vão, quando a última vela esfrangalhada havia desaparecido no mar azul e junto com ela o último grito desesperado e inútil de uma mulher ou uma criança.

 

Boas leituras em 2014, é o melhor  que posso desejar para o próximo ano.

 

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