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CASERNA janeiro 9, 2014

Posted by eliesercesar in Contos.
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caserna (1)

Agora, lá em casa todos têm que usar farda. Impus o fardamento para fomentar a disciplina doméstica, antes frouxa, com ciscos nos cantos da sala. Para dar o exemplo patriarcal, fui o primeiro a envergar a farda (não digo uniforme, coisa de colegiais). Tiveram que acompanhar a oficial indumentária (essa, sim, palavra imersa em testosterona)  Mariazinha do Fórum, minha patroa, e a prole obediente, Gervásio, Ananias, Gonilda e Elizabete, nomes díspares como a apontar as diferentes idiossincrasias dos meus filhos.

Agora vou falar da beleza da farda, concebida por mim, alfaiate bissexto: uma calça verde; uma camisa amarela, um boné azul com abas brancas pontilhadas de estrelas. Como vocês já perceberam, cívica homenagem ao solo pátrio. Sei que não são roupas apropriadas para o calor do sertão; porém, muito mais sofreram os soldados na Guerra de Canudos,  carregando a farda e os armamentos do exército sob sol inclemente do Cumbe, de Monte Santo e de Belo Monte. Os sertanejos? Bah, os sertanejos viviam quase nus, como os índios. E, aliás, sempre tive dúvida: índio é gente? Deixa pra lá.

Voltando à portaria da farda (sim, baixei portaria para oficializar a normatização doméstica), a patroa ainda quis chiar:

– Já não basta o uniforme do fórum?

Incontinente, cortei o mal pela raiz:

– Primeiro, lá pode ser uniforme. Aqui, é farda. Segundo, no fórum, você trabalha. Em casa, descansa. Vista a farda.

Vestiu-a. Chegava em casa, tirava o uniforme e punha a farda.Os meninos até que gostaram da novidade, ensejo para brincarem de filme de guerra.

Depois do uso da farda, lobriguei a continência. Era eu chegar da repartição, e eles, em ordem unida, bateram continência. Ficavam em posição marcial até que o papai aqui concedesse:

– Descaaaansar!

Pouco depois, impus os exercícios físicos, no quintal. Um aquecimento e em seguida vinte abdominais – número que aumentava na proporção do preparo físico – dez barras, e, um pouco mais tarde, uma corrida até o Jorro, no final da tarde. Dessa última atividade, poupei Mariazinha do Fórum, pois não a queria extenuada à noite; se é que me entendem.

Não demorei e introduzi as lições de tiro ao alvo, acertar a bala no mamoeiro a vinte metros de distância. Como era preciso saber nadar; nos sábados íamos ao Itapicuru, no Jorrinho. Depois da natação, comíamos bode assado com farofa d’água. Eu tomava uma pinga, depois uma gelada, e dava uma garapa para patroa e os meninos.

Um dia, Gervásio, o mais velho, teve a petulância de querer saber a razão da farda e de tantos exercícios. Castiguei-o com cinquenta abdominais extras. No meio do expediente, ele implorou:

– Penico, painho! Penico!

Como não sou tirano, suspendi o castigo. Afaguei-lhe os cabelos suados e expliquei:

– Olha, filho, tudo isso é para o bem de vocês e da nossa família. Temos que nos preparar para a sobrevivência. Qualquer dia, a hecatombe…

Gervásio me cortou:

– Hecatombe? Vôte, painho! Que bicho é esse?

Então, simplifiquei:

– Qualquer dia desses, a guerra nuclear chega a Tucano e, aí,  não resgatará nem um calango.

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