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RETRATO DE UMA SENHORA – No romance Marce, Gláucia Lemos constrói uma mulher inoculada com o vírus da liberdade. janeiro 21, 2014

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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A escritora Gláucia Lemos, em noite de autógrafos de Marce.

A escritora Gláucia Lemos, em noite de autógrafos de Marce.

O filósofo e escritor francês Jean-Paul Sartre resumiu toda dificuldade de convivência entre os homens  e  a angústia resultante das relações assentadas sob o fio navalha, com uma frase cabal: “O inferno são os outros”. O escritor brasileiro João Guimarães Rosa repete, em Grande Sertão: Veredas, que “viver é muito perigoso”. As duas assertivas que dialogam entre si na esfera do existencialismo – viver não seria ainda mais perigoso justamente porque o inferno são os outros? – servem para ilustrar a decepção e o recolhimento que a escultora Marcelina Torres Alvar, a Marce, do romance homônimo da escritora baiana Gláucia Lemos, experimenta no seio da família que deixou para trás e a qual é forçada a rever durante a leitura de um testamento.

Marce (Salvador: Solisluna, 2013) é um romance de desencontros, de acerto de contas com o passado, de fuga e busca pessoal, não da felicidade fugaz, mas, ao menos, da tranquilidade redentora. Costuram toda a trama, centrada no destino  da corajosa, emancipada e sensível Marce, os frouxos laços de família de parentes entrelaçados na hipocrisia e nas aparências das convenções sociais. Todos imersos numa atmosfera irrespirável como se comprimidos numa redoma de ar rarefeito prestes a explodir e espalhar estilhaços por todos os cantos da casa, sem poupar ninguém.

No romance, a tradicional, mas já decadente família Torres Alvar vive dias de nervosa ansiedade em torno da abertura do testamento de uma tia, uma espécie de matriarca solteirona do clã, Elaine Torres Alvar, cuja ascendência sobre todos, ao ponto de decidir casamentos (um deles corajosamente rejeitado por Marce, o que a transforma na “ovelha negra” da família), paira até depois da morte. Com a morte da tia, Marce retorna ao solar em que fora criada com a irmã Dolores, depois que seus pais morreram num acidente de avião. Ao todo, são nove sobrinhos (mais cinco consortes acompanhantes) da poderosa Elaine Torres Alvar, retidos por um longo temporal  no solar da família, em tensa espera pela leitura do testamento.

Marce deixara o solar poucos mais de duas décadas antes, depois que abandonara no altar um noivo imposto pela tia, pelo qual tinha respeito, mas não amor, muito menos paixão. Inoculada com “vírus da liberdade” que, segundo a escultora, provoca nos demais parentes o medo da contaminação, Marce parte para Guadalupe, sua Pasárgada praiana, onde vai viver modestamente das esculturas que cria. Marce mudas-se com  fome de liberdade:

Eu só queria ser eu mesma, ter vontade e ter voz. Não ser cópia de ninguém.

Cansada “do mundo das aparências”, onde “todas as possibilidades estão na vitrine” a heroína de Gláucia Lemos, como tantas mulheres do mundo real, só queria para si o direito de viver como bem lhe aprouvesse, sem incomodar ninguém, nem causar inveja a outrem:

Caminho alguns passos pela sala sem me dirigir a alguém. Acho que nem todos  me reconhecem e gosto que seja assim. Mas há os que me reparam demoradamente. Talvez esses me identifiquem e se perguntem o que faz ali aquela que foi destituída do seu lugar naquele clã. Talvez alguns menos felizes me invejem, porque não esperei para receber sobre os ombros o peso da escolha indesejada. E me vejam mais forte do que eles o seriam. De uma forma ou de outra, não me sinto menor que  ninguém. Sou apenas diferente.

Diante da rotina asfixiante e do egoísmo daqueles que apresentam soluções prontas para a cambiante condição do ser, Marce promove uma mudança radical em sua vida, como quem refaz completamente seu figurino. Sozinha em Guadalupe, enceta “um novo panorama, um novo estilo de vida, um recomeço”, pois, para a heroína solitária e decidida do romance de Gláucia Lemos, era preciso, sobretudo, “mudar de vida como quem muda de identidade”. É o que faz Marce, como a repetir o trecho de uma canção de gênero da MPB, salvo engano dos anos 80:  “Que venha essa nova mulher dentro de mim!”.

PAPEL EM BRANCO DA PUREZA

Marce 2

Tempo e solidão; solidão embebida nas horas marcam os passos de Marce. “O tempo, esse guerreiro contra o qual lutamos em vão”, diz o único primo que se identifica com Marce em seu anseio de liberdade e respeito supremo pela alteridade. “O rosto talvez seja o mesmo, mas nele não me encontro mais. Sou outra pessoa. Para ser sincera, não sei o que estou fazendo aqui. Não pertenço mais a este núcleo, eu sozinha sou toda a minha família. Não tenho laços, não tenho parentes.”, reflete a escultora, como a se mirar no espelho ceciliano e constatar,  num misto de melancolia e resignação, que ela “não tinha esse rosto de hoje”.

Como o personagem de um famoso romance (Palmeiras selvagens) do escritor estadunidense William Faulkner que diz preferir a dor ao nada, Marce também sabe que a dor confere um carimbo indelével à repetitiva e monótona burocracia da vida e reverbera com maior intensidade nos espíritos mais sensíveis:

A dor é muito cara à arte. Ela conduz à verdadeira expressão jamais alcançada em estado de inércia emotiva. Dor, que és maldita e evitada por todos até as derradeiras consequências, como te deveriam reverenciar os artistas de todas as linguagens!

Sabe também, Marce, que o homem nasce puro e que o tempo acaba por manchá-lo com a nódoa  das perdas irreversíveis; primeiro da inocência, depois das ilusões e, por última, da própria existência física:

[…] Nós não inventamos as coisas da vida, elas estão aí para serem padecidas, porque nascemos puros como um papel em branco. A vida nos suja e nos rasga todos os dias.

A abertura do testamento revela surpresas para a tradicional e decadente família, como a existência de mais uma Torres Alvar no sobrado do clã; desta vez “uma bastarda”, como a chamam os novos parentes mais conservadores. A trama do romance insinua ainda a suspeita de um assassinato – à moda do filme Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock. Pela janela do quarto, embaçada pela chuva, Marce presencia um movimento insólito no quintal, como se duas pessoas estivessem cavando uma cova. Porém, ao acordar, na manhã seguinte, não tem certeza se, de fato, testemunhara ou sonhara a cena. Habilmente, Gláucia Lemos deixa a solução do enigma a cargo do leitor, embora as entrelinhas indiquem a ocorrência de um crime bárbaro.

Em seu novo romance, Gláucia Lemos celebra o triunfo da autenticidade sobre os disfarces sempre renovados da mentira e da hipocrisia. Marce é um peixe, ou melhor, uma sereia madura fora das águas rasas das conveniências sociais, mas capaz de nadar a braçadas no calmo oceano de suas próprias escolhas.

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Comentários»

1. glaucia lemos - janeiro 21, 2014

Elieser, meu caro Elieser, se eu nunca tivesse lido este livro sairia agora correndo para encontrá-lo em alguma das livrarias em que está exposto. Ou ele é um bom livro, um livro extraordinário, ou o crítico sabe dourar uma pílula como ninguém. Digo-lhe só que, à medida que a leitura da sua resenha progredia, meu coração acelerava, com receio de que no próximo parágrafo ela terminasse, e eu queria que se prolongasse por muitas ,laudas ainda. Ao fim, foi um suspiro fundo, profundo e me perguntei se retratei mesmo esta mulher que viveu comigo e em mim, durante o tempo em que escrevi MARCE. e sinto que ela viveu de carne-e-osso e ainda vive,ainda pulsa forte e corajosa. Obrigada, meu irmão, você conheceu realmente MARCE.

eliesercesar - janeiro 21, 2014

Ora, Gláucia Lemos, foram dois prazeres. Primeiro o da leitura. Depois, o de escrever a resenha. Méritos seus e da bela Marce

2. Iva Maria O. Vianna - janeiro 24, 2014

ELIESER:Bom dia…j comprei este livro ,estou lendo e gostando! comprei no museu sofia costa pinto..abraos iva vianna Date: Tue, 21 Jan 2014 20:18:13 +0000 To: iva-vianna@hotmail.com


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