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AVENTURA NO CIRCO março 13, 2014

Posted by eliesercesar in Contos.
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mágico

Fechei os olhos no instante em que o homem forte, barbudo e cabeludo, vestido apenas numa tanga, atirou o primeiro machado. Temi pela mulher bonita, amarrada a uma grande roda de madeira, onde a arma deveria se cravar. Vavá me cutucou e eu abri os olhos. O machado fincara-se na madeira, a dois palmos da cabeça da moça.

Todos no circo bateram palmas. O atirador apanhou o segundo machado. Encorajado pela pontaria do primeiro arremesse, acompanhei a trajetória do segundo. O machado colou-se na tábua, pertinho da coxa da mulher. O homem efetuou mais dois lançamentos. A pontaria foi a mesma.

A moça deixou seu lugar. O atirador abriu os braços pedindo aplausos. Bati palmas com entusiasmo. A ovação foi geral. Vavá colocava dois dedos na boca e assovia alto. A mulher voltou para junto da roda. O atirador colocou uma venda preta nos olhos. Pronto, vai matar a moça, pensei. Não matou. Lançou facas e machados com a mesma pontaria de antes. As palmas soaram mais fortes. A mulher sorria. O homem agradecia fazendo mesuras para o público.

Ele e a moça voltaram para um novo número. Desta vez o homem não tapou os olhos, mas a mulher foi amarrada à roda e esta, impulsionada por um ajudante, começou a girar. Os tambores tocaram num ritmo de suspense.

– Agora a moça se lasca – disse Beto.

– Deixe de ser agourento – reclamei.

Pensei em fechar outra vez os olhos. Achei que precisava ser corajoso, pois não era nenhum frouxo, e os mantive bem abertos. O atirador arremessou a primeira faca, quase atingindo o braço da mulher. A segunda alojou-se um pouco mais distante. No último lançamento, o atirador virou-se de costa e dobrou o corpo como um homem-borracha. Os tambores soaram mais altos. O barbudo conseguia enfiar a faca bem longe do corpo da sua parceira. Empolgado, aplaudi e gritei por mais de um minuto.

A maior atração do circo foi Markok, Senhor dos Mil Segredos do Universo, o maior mágico das Arábias. Vestindo uma capa preta e usando uma cartola da mesma cor, Mardok subiu ao tablado. Ele tinha a mesma barbicha que os bons mágicos têm.

– Aposto que esse tal de Markok sabe a metade dos segredos que diz conhecer – falou Beto.

Como ninguém estava interessado em apostas, ele calou-se e prestou atenção ao mágico. Markok mostrou a cartola vazia e depois tirou coelhos dela; fez sumir lenços no ar, que subitamente ressurgiam dobrados em suas mãos e deles saíam pombos voando. Depois, Mardok chamou um homem gordo como um barril e fez o gorducho flutuar por alguns segundos. A plateia aplaudiu em delírio.

Com um ar de zangado, o mágico se aproximou do público. Olhou na minha direção.

– Você aí, menino – disse ele com um vozeirão, apontando para mim. – Venha até aqui.

Minhas pernas tremeram; meu coração bateu acelerado. Markok me olhava com aqueles olhos poderosos de mágicos.

– Eu? – duvidei.

– Você mesmo. Não tenha receio, garoto – tranquilizou Markok na sua voz modulada.

Com a boca aberta e os olhos arregalados de espanto, olhei para Vavá. Temia que Mardok me fizesse sumir e depois esquecesse o passe de mágica sem o qual eu não poderia voltar ao mundo. Nesse caso, ficaria sendo somente espírito, uma alma a vagar por aí, sem corpo.

– Vá, Toinho. Deixe de ser besta – encorajou-me Vavá.

– Vá não, Toinho. É esparro – aconselhou-me Beto.

Fui. Não para demonstrar coragem e sim para não parecer frouxo.

Mardok pousou sua grande mão enluvada no meu ombro. Todos no circo olhavam para nós dois. Tive vontade de encolher-me todo até sair do alcance da mão do mágico. Porém, permaneci ereto, controlando com esforço a respiração para não mostrar nervosismo. O Senhor dos Mil Segredos do Universo ria, solene. Apontava para mim, como se eu já merecesse aplausos simplesmente por estar ali ao lado dele.

– Muito bem, Toinho!

– Isso mesmo, Toinho!

– Bote ele no bolso, rapaz!

– Faz o mágico desaparecer, Toinho!

Espremido no galinheiro, o pessoal do time debochava de mim. Encabulado, ergui o braço numa tímida saudação. Muita gente me aplaudiu. Fiquei vermelho de vergonha.

– Muito bem. Muito bem – repetia Mardok, coçando a barbicha.

Minha preocupação aumentava a cada segundo. Eu temendo por um desastre e o mágico ali, bem na dele, cofiando os pelos do queixo, e repetindo “muito bem, muito bem”.

– Como se chama, meu jovem? – perguntou Mardok.

Não era mais a mesma voz modulada e nítida, mas um som abafado, como se o mágico falasse com uma toalha colada à boca.

– Toinho – respondi.

– Fale mais alto, para a plateia – pediu Markok.

– Toinhooô – gritei, sentindo as orelhas formigarem.

– Toinho. Muito bem – elogiou o mágico. – Quantos anos tem você, meu jovem?

– Dez, Seu Markok.

– Mais alto, rapaz.

– Deeez – gritei.

– Muito bem. Agora diga-me: está estudando?

– Siiim – berrei, sem saber onde esconder a cara.

– Em que série?

– Na quinta, Seu Markok – respondi, sem gritar.

– Alto, meu jovem – exigiu o mágico.

– Na quiiinta – gritei.

Depois de dizer mais dois “muito bem”, o maior mágico das arábias pegou no meu nariz e começou a retirar moedas dele. Eu espirrava e a s moedas retiniam no chão, uma atrás da outra. O público gargalhava. Houve uma pequena pausa em que parei para respirar e Markok aproveitou para abrir os braços e receber os aplausos da plateia. Em seguida, o mágico recomeçou a retirar moedas do meu nariz (não cheguei a contar, mas creio que ele retirou mais de cem moedas).

– Um verdadeiro tesouro; uma jóia de criança, esse rapaz – disse Markok ao encerrar o número.

Todos no circo retorciam-se de rir e batiam palmas para o Senhor dos Mil Segredos do Universo.

– Obrigado, meu jovem – agradeceu Markok, dando-me uma daquelas moedas (era uma moeda diferente de todas que eu conhecia; devia ser estrangeira).

Então foi para isso que o mágico me chamou. Voltei para o meu lugar com a sensação de que não era um garoto normal, mas um valioso cofre ambulante.

– Bravo, Toinho!- cumprimentou-me Vavá – Você esteve ótimo.

Todo o time me parabenizou com inveja. Eu teria ficado convencido se, a partir daquele dia, não houvesse ganho o apelido de nariz de mealheiro.

(Do livro, O azar do goleiro, 1989)

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