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VIAGEM DE TREM março 21, 2014

Posted by eliesercesar in Sem categoria.
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(Da novela, O azar do goleiro, 1989):

Trem

Uma vez por ano, mãe levava eu e Vavá para fazer exames na capital. Eu detestava aquele tipo de exame, pois tinha dificuldade para cagar a pulso.

– Vamos. Anda logo.

Eu agachado, espremendo-me num esforço danado e mãe ali, ao meu lado, exigindo que terminasse logo o serviço. Vavá, ao contrário, cagava com grande facilidade. Bastava querer.

Viajávamos sempre de manhã cedo. Duas horas e meia de trem até a capital. Na véspera da viagem, minha excitação era tamanha que eu não conseguia dormir direito. Passava quase toda a madrugada acordado, pensando nas coisas boas que veria na capital: os prédios enormes, muitos carros nas ruas, o imenso e inesquecível mar. Pensando em todas essas coisas, eu quase não conseguia pegar no sono. Saía da cama quando os primeiros galos começavam a cantar e só tinha a certeza de que havia dormido um pouco pela vaga lembrança de algum sonho.

Vestíamos nossas melhores roupas. Dentro de seu vestido mais bacana, usando batom, um colar de contas, uma bolsa de couro, tirada da gaveta apenas em ocasiões especiais, e calçando sapatos de saltos grandes, mãe parecia bem mais jovem e bonita. Vendo-a daquele jeito, eu achava que ela até podia competir com Dona Edmunda, não fosse alguns anos mais velha do que a mulher de Seu Tote.

No trem eu e Vavá brigávamos para ver que viajaria ao Aldo da janela. Vavá tentava correr para chegar ao lugar predileto. Mãe, contudo, o retinha pelo braço.

– Não. Você é maior. Deixe seu irmão ir ao lado da janela, na ida. Na volta, o lugar é seu- ordenava ela.

Vavá concordava resmungando. Eu ficava radiante. O trem sol voltava à noite e, no escuro, a paisagem não era interessante.

Eu aproveitava a viagem para olhar os pastos, verdes e ainda úmidos pelas chuvas recentes naquela época do ano, onde o gado parecia comer eternamente. Pensava em como era boa a vida dos bois. Uma vida bem mansa; só comer e mastigar, sem pressa nenhuma, o bolo macio e verde capim. Era mesmo uma vida bacana. Mas, eu não queria ser boi, se um dia tivesse que nascer bicho. De jeito nenhum. Boi tem os dias contados. Basta apenas engordar até o ponto de abate para receber, com as costas do machado, uma pancada no cocorote, o bastante para fazer o bicho cair zonzo e começar a ser retalhado com a lâmina do machado.

Eu não gostava de ver os bichos morrerem daquele jeito. Coitados, comiam com tanta inocência, mastigavam com tanta tranquilidade, sem suspeitar que cada quilo engordado encurtaria ainda mais o caminho do matadouro.

Boa mesmo era a vida das vacas, que ninguém matava porque davam leite e crias. Elas tinham lá suas mordomias; só eram abatidas se não pudessem parir  ou tivessem pouco leite, o que dava prejuízo ao criador. A sorte era que quase todas as vacas davam crias; bicho parideiro assim nunca vi. Já o boi tinha que ir para o matadouro de qualquer jeito; menos os reprodutores,  mas esses eram bem poucos em relação ao rebanho.

Ouvi dizer que na Índia o boi é um animal sagrado e que lá ninguém pode matá-lo, senão vai preso. Olhando os bois comendo com aquele jeito de bicho preguiçoso, tive vontade de, um dia, reunir os melhores vaqueiros do Brasil para formar a maior boiada do mundo e tocar os animais para a Índia, onde ninguém poderia fazer-lhes mal. Contei esse plano a Vavá.

– Deixe de ser abestalhado – disse ele, despeitado – a Índia é muito longe. Fica no Oriente.   

– Oriente é um pau no seu dente – respondi.

– É? Venha dar. Então, venha dar – desafiou Vavá.

– Dou – respondi, confiado em mãe. – Dou, agora mesmo.

Irritado com o meu atrevimento, Vavá fez menção de levantar-se para ajustar contas comigo. Mãe deu-lhe um beliscão.

– Fique quieto – ordenou ela.

Vavá aquietou-se. Enfezado, permaneceu calado durante o resto da viagem.

Da janela do trem, naquela mãe fresca, eu pensava no destino azarado dos bois, completamente esquecido das emoções que me aguardavam na capital.

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Comentários»

1. João Fernando Gouveia - março 22, 2014

Reminiscências infantis bem humoradas. Ser boi, que destino, heim?


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