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MORTE NO RIO abril 16, 2014

Posted by eliesercesar in Prosa.
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afogado 

Bias, o neto de Dona Vermelha, morreu afogado no rio. Primeiro veio a notícia: querendo imitar o pulo de Tarzan, ele dera um salto no rio e não voltara à tona. Devia ter batido a cabeça numa pedra, desmaiado e se afogado em seguida.

Alguns pescadores deram várias buscas no rio, mas não conseguiram encontrar o corpo de Bias. Dona Vermelha, coitada, teve que tomar tranquilizantes. Perdera o neto mais querido. Mãe ficou todo o tempo ao lado dela.

O corpo apareceu dois dias depois de sumido, muito abaixo do local do acidente. Coberto de vegetação, inchado de água e fedendo bastante; estava irreconhecível. No lugar dos olhos havia duas brocas tomadas por pequenas folhas do rio. Dizendo que a gente não podia ficar ali, pai mandou eu e Vavá para casa.

– Ah, pai, deixa a gente ficar – pedi.

– Vá – ordenou ele.

– Que coisa feia, hein, Toinho? – comentou Vavá.

– Nem parecia o Bias – disse eu, sentindo um aperto na garganta.

– Viu como ele estava duro? – perguntou Vavá.

Nada respondi. Não queria prolongar aquela conversa. Bias era meu amigo. Tinha me chamado para ir ao rio no dia em que morreu. Não fui porque mãe bateu o pé e não deixou. Rio coisa nenhuma; para pegar vermes? Que eu tirasse o cavalinho da chuva. Fiquei ainda com mais pena ao lembrar que Bias era somente um ano mais velho do que eu.

Tinha noites em que eu sonhava com o fantasma dele. Bias vinha me levar para o reino que havia no ponto mais fundo do rio, aonde só chegava a assombração dos afogados e as estrelas eram os peixes que brilhavam n’água. Era um local escuro e frio, habitado apenas por afogados. Todos os afogados, de todos os rios do mundo, vinham para o fundo daquele rio. Tinha até o Rei dos Afogados, um sujeito barbudo e feio, o mais alto e mais forte de todos, que andava rodeado de sargaços e de todos os tipos de peixes. Era ele que mandava os demais afogados subirem à superfície, a fim de trazer as pessoas vivas para aquela cidade dos mortos.

Bias vinha sempre me buscar. Não chegava com a mesma cara com que foi encontrado boiando nas águas; mas como sempre o conheci: um menino galego, magro, de lábios finos, orelhas grandes e um pequeno nariz arrebitado. Ele conseguia me levar para o trecho onde desaparecera. Pulava da mesma pedra, soltando o mesmo grito de Tarzan. Só que desta vez voltava à superfície, mas com as suas feições horrorosas de morto. Nessa parte do sonho eu acordava. Oba, foi somente um sonho; apenas um pesadelo, pensava aliviado, tomava coragem para olhar embaixo da cama para verificar se o fantasma de Bias não estava lá; e demorava a pegar no sono outra vez.

(Capítulo da novela O azar do goleiro)

 

 

 

 

 

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