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A ÚTIL INUTILIDADE DA POESIA junho 13, 2014

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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– Em Da inutilidade da poesia, Antonio Brasileiro discute a razão de ser do poeta num tempo indigente e infenso à poesia.

 

Antonio Brasileiro: "Poesia, criação fragilíssima, sopro".

Antonio Brasileiro: “Poesia, criação fragilíssima, sopro”.

Um poeta com sólida formação filosófica  que perpassa toda a sua poesia, caracterizada por uma forte conotação ontológica, se debruça sobre a teoria  do fenômeno poético para tentar explicar o valor da poesia num mundo refratário à criação poética. Para isso, ele tenta responder à  questão crucial posta diante de um mundo que procura legitimar o que o escritor peruano Mário Vargas Llosa denominou de “Civilização do espetáculo”, “onde o primeiro lugar na tabela dos valores vigente é ocupado pelo entretenimento, onde diverti-se , escapar do tédio, é a paixão universal” e a banalização das artes e da literatura parece ter atingido seu grau supremo. “Para quer servem os poetas e a poesia num tempo infenso a eles?”, pergunta o poeta e escritor Antonio Brasileiro, logo na introdução dos ensaios de Da inutilidade da poesia (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012), título instigante e provocativo, sobretudo vindo de um poeta profundo e prolífico.

Fruto de sua dissertação de doutorado, na Universidade Federal de Minas Gerais, Da inutilidade da poesia tenta responder a tese de que a poesia não tem valor algum numa sociedade mercantilizada e refratária aos poetas e, por isso mesmo, é livre e liberta de amarras. No livro, Brasileiro passeia por pensadores e poetas que tentaram explicar a criação poética, de Plantão, com sua “teoria do delírio sagrado”, segunda a qual o poeta, privado da razão, não tinha voz própria, não passando de simples porta-voz dos deuses; ao francês Paulo Valéry e o alemão Martin Heiddeger, que considera “os pontos culminantes de uma teoria do fenômeno poético do século XX”.

Nos ensaios, Antonio Brasileiro desfila erudição e o conhecimento endógeno de quem conhece e domina os mistérios, nem sempre sondáveis, da criação do poema, o artefato material da poesia.  De Shelley pinça uma definição lapidar “Os poeta são os legisladores não reconhecidos do mundo”.  Ou “deputados de um reino”, como diria Guimarães Rosa. De Voltaire toma emprestado “uma propriedade dos grandes poetas”: o entusiasmo sensato, sem a o qual o criador pode se deixar arrebatar pela criatura inacabada, o poema ainda por se completar, por intermédio do trabalho que separa o limbo das emoções fáceis do paraíso da boa poesia.

Em  Olavo Bilac aponta como domar o peso das palavras e lograr aquele domínio da linguagem que Italo Calvino chamou de leveza, numa da suas Seis propostas para o milênio: “a palavra pesada abafa a Ideia leve”.Em Ortega diferencia a literatura do pensador e do escritor: “A clareza é a cortesia do filósofo. O estilo é a do poeta”. Em Nietzsche experimenta, mais uma vez, o prazer seletivo da criação: “O artista tem maior prazer em criar que o resto dos homens em todos os outros tipos de atividade”.

Antonio Brasileiro visita Confúcio para expressar o bom aprendizado: “Àqueles  que, tendo eu proposto uma quarta parte da questão, não a tenham apreendido inteira, a esses não mais ensino”.  Em Herbert Read enfoca o exílio do poeta moderno numa terra desolada pela futilidade: “O poeta é um deslocado; a massa não opõe resistência a ele – o ignora”. Aqui, novamente, outra característica da “Civilização do espetáculo”, conforme Llosa: “O empobrecimento das ideias como força motriz da vida cultural”, ilustrado no desterro do artista.

Vários outros artistas e pensadores são citados em Da inutilidade da poesia. Citei alguns e coligi algumas frases deles apenas para demonstrar o vasto conhecimento de filosofia e arte demonstrado por Antonio Brasileiro e oferecer aos leitores desta resenha um pequeno aperitivo do que os espera no livro do poeta radicado em Feira de Santana e que completa 70 anos de idade no próximo domingo (15 de junho), podendo falar como nos versos de T.S Eliot, de Coros de “A Rocha”:

O homem que durante o dia edificou poderá retornar a seu

                  coração ao anoitecer para ser abençoado pelo dom do

                  silêncio, e de leve adormecer antes que o sono o aquiete

 

VALÉRY E HEIDDEGER

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As melhores páginas de Da inutilidade da poesia são dedicadas ao poeta Paul Valéry e ao filósofo Martin Heiddeger. Geômetra da palavra, Valéry desconstrói a ideia ingênua de que o poema brota facilmente e, logo está pronto para ser servido, num banquete lúdico, como um pão saído do forno. Para ele, a poesia não é produto da inspiração, nem das emoções não sopesadas pela razão, mas uma “festa do intelecto”, pois, como observa Antonio Brasileiro, citando o autor de Variedades, “a eclosão de um bom verso se deve tão  só a consciência em sua máxima lucidez”. Portanto, a antítese da concepção platônica de que o poeta era um possuído, um agente passivo das manifestações dos deuses.

Valéry valorizava o trabalho, a carpintaria das palavras, mais que seu resultado, a obra de arte propriamente dita, ou seja: fazia da poética a própria poesia. Seu sonho, como lembra Brasileiro, “era purificar a literatura das emoções e outros itens  demasiado humanos. Um sonho, segundo o poeta baiano, “irrealizável , bem se vê: como encontrar sentido num poema só ossos (nenhuma carne, nenhum músculo, nada que se presentifique sob a forma de), animal, apenas esqueleto?” Dizia Valéry: “Não amo a literatura, mas os atos e os exercícios do espírito”.  Daí muitos críticos apontarem que seus poemas são como “túmulos bonitos”, belos, forma longe da emoção.

Valéry rejeitava as coisas ditadas pelo coração, as fáceis, as espontâneas, “todas aquelas que fugiam do controle da mente”, menos – e aqui se nos apresenta o que parece uma contradição de sua poética demasiadamente racional – “as que os deuses no dão”. O que os deuses dão ao poeta? Os primeiros versos. O pontapé inercial do poema. O resto é obtido através do “demônio do trabalho”., este, título de um capítulo de Da inutilidade da poesia.

Valéry tinha ojeriza a um tipo de artista muito em voga hoje em dia; aquele capaz de produzir poemas em série, que já saem da linha de produção prontos para a edição, sem nenhum retoque, o menor  polimento, o mínimo  acabamento: “O delirante descabelado, aquele que escreve um poema inteiro numa noite febril”. Para ele, todo bom poema exige “uma multidão de raciocínios exatos”.  Valéry defende que a poesia requer um certo tipo de emoção e uma “estranha indústria” que reconstitui essa emoção, como anota Antonio Brasileiro. Por isso mesmo, como ainda sublinha Brasileiro, “o que faz um verdadeiro poema ser o que é, é o verdadeiro poeta que está por trás dele”, já que a poesia “é percepção do mundo enquanto forma”.

É em Heiddeger, considerado um filósofo de difícil compreensão,  que Antonio Brasileiro  mais  identifica uma poética próxima do seu próprio pensamento de poesia e do fenômeno poético. Para o filósofo alemão, “a linguagem é a casa do ser; em seu abrigo mora o homem; e os pensadores e os poetas são aqueles que guardam esse abrigo”.

Que metáfora poderia estar mais próximo a um poeta que, por sua natureza intrínseca, está condenado à linguagem como Sísifo à pedra que carrega, inutilmente? Heiddeger tem o poeta na mais alta conta. “O pensador diz o ser. O poeta nomeia o sagrado”, afirma o filósofo alemão. É também de Heiddeger o leitmotiv do livro de Antonio Brasileiro: “Para que poetas em um tempo indigente?”. É o que Brasileiro tenta responder em Da inutilidade da poesia.

No venerável Chuang Tzu, Brasileiro dá uma pista de que, ao cabo, a poesia, mesmo em um tempo indigente, é sempre útil, ao menos para uma minoria não contaminada pela indigência do tempo: “Todos conhecem a utilidade do útil, mas ninguém conhece a utilidade do inútil”. Aos puristas suscetíveis de se chocar com a provocação do título do livro  (“como um poeta pode admitir que a poesia é inútil”, perguntariam os mais ingênuos), Antonio Brasileiro avisa: “Inutilidade é a palavra choque que elegemos, não é preciso que se a tome ao pé da letra”.

Por essa razão, Brasileiro prossegue escrevendo poemas, pois sabe que “escrever é confiar” e que “barco seguro, as palavras só o são com os poetas”. Além disso, como poeta tocado pela filosofia, está convicto de que “a poesia é mais que este debruçar-se sobre si mesma a perguntar: O que sou?”.

Aceitemos, pois, a fugaz utilidade da poesia, “criação fragilíssima, sopro”.

 

 

 

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