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A cabeça de Lampião        julho 16, 2014

Posted by eliesercesar in Contos.
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Virgulino
Fonça jurava que viu a cabeça de Lampião cair de um avião.

– Vi; vi, sim. Foi no açude – teimava ela, aos oitenta anos, com os cabelos brancos assanhados, os olhos, de tão esbugalhados, parecendo um farol de fusquinha, a boca sem nenhum dente e todo o seu corpinho encurvado.

A velha repetia a mesma história. Há bastante tempo, lavava roupas no açude com um grupo de moças da idade dela. No final da tarde, terminado o serviço, as amigas voltaram para casa com as bacias na cabeça. Ela ficou sozinha enxugando as últimas peças. Nos matos, ao redor, tudo era tranquilidade, com os pássaros procurando um cantinho para dormir, os sapos coaxando à beira d’água e as cigarras cantando sem parar.

De repente, Fonça ouviu o ronco de um avião. Olhou para cima. A aeronave voava baixo, “da altura da torre da igreja”. Era grande, pintada de azul e branco. Tinha algumas letras que ela não leu, “porque não entendia dessas artes de leitura”.

– Vi! Eu vi! Com esses olhos que a terra há de comer – garantia a velha, apontando os olhos de enormes gudes.

Toda a turma já conhecia aquela história, mas pedia a Fonça para contá-la outra vez.

Bem…, bom – dizia Fonça, mastigando as gengivas. – O avião estava lá, voando baixinho. Depois parou no ar, nem zoada fez mais. Tinha uma luz que cegava as vistas, mas eu botei um plástico nelas e pude ver. A janela do bicho abriu e a cabeça de Lampião, com chapéu de cangaceiro, óculos e tudo, caiu no açude. Está lá até hoje, podre, mas está.

– E depois, Fonça? – perguntava alguém da turma.

– Depois, eu corri de medo. Até me esqueci de apanhar a bacia com as roupas. Eu ia ficar lá com aquela cabeça de fantasma dentro do açude? – respondia a velha, muito séria.

Caíamos todos na gargalhada. Fonça não ligava para as risadas. Bem humorada, também começava a rir num engasgo; ria até perder o fôlego, quando passava a fungar. Nesse ponto, nós a ajeitávamos na cadeira de balanço, até ela recuperar o ar dos pulmões. Depois íamos embora.

– Tchau, Fonça.

– Deus dê boa sorte, menino.

Mesmo caduca e perturbada com aquela conversa da cabeça de Lampião, a velha era estimada por todos. Tinha apenas um filho que morava em São Paulo e lhe mandava dinheiro de vez em quando. Muita gente procurava ajudá-la. Todo dia de feira, mãe me encarregava de levar alguns mantimentos para Fonça, que, até caducar, fora a melhor aparadeira de toda a região. Foi ela quem fez o parto de Vavá, lembrava mãe, agradecida.

Um dia, o filho de Fonça chegou de surpresa e a levou para São Paulo. Coroa forte e de cabelos grisalhos, era sargento de polícia. Queria a mãe ao lado dele; queria que ela conhecesse seus netos, que perguntavam sempre pela avó, e seu primeiro bisneto, que ainda não perguntava por ninguém.

Todo o nosso time (e muita gente da cidade) acompanhou Fonça à estação, onde ela e o filho tomaram o trem para a capital e de lá pegariam um ônibus para São Paulo.

Da janela do trem, acenando com o bracinho para todos e alegre no seu risinho sem dentes, Fonça era parte da cidade que ia embora.

– Mande pegar a cabeça no açude – pediu Fonça, dirigindo-se indistintamente a todos, momentos antes do maquinista dar a partida no trem.

Poucos meses depois da viagem, o filho de Fonça escreveu a padre Rubens contando que a mãe havia morrido, tranquilamente, sem dar nenhum pio como um velho passarinho.

– Aposto que antes de morrer ela ainda falou na cabeça de Lampião no açude – disse Beto.

Todos concordamos com ele, daquela vez.

Meses depois da morte de Fonça, eu estava pescando no açude com Vavá, quando pensei na possibilidade da cabeça de Lampião ter mesmo caído na água. E não poderia isso ter acontecido? Perguntei o que Vavá achava. A resposta veio num carão:

– Deixe de ser besta, Toinho. A cabeça de Lampião ficou exposta na capital, ao lado do crânio de Maria Bonita e do coco de outros cangaceiros.

 (Do livro O azar do goleiro, 1989, prestes a ganhar uma edição comemorativa dos 25 anos)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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