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VIAGEM CLAUSTROFÓBICA agosto 15, 2014

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Céline, em caricatura de David Levine.

Céline, em caricatura de David Levine.

Mergulho visceral na precária condição humana, Viagem ao Fim da Noite, de Louis-Ferdinand Céline, na verdade Louis-Ferdinand Destouches (Céline ele tomou emprestado da avó), é um livro para aqueles que não procuram a diversão fácil, a satisfação barata, a fuga esotérica, ou ainda o engodo semi-evangélico das publicações de autoajuda. Não! Na Viagem celiniana não há concessões ao belo, ao bem-comportado, ao politicamente correto. Há vida, angústia, sofrimento e pessimismo; muito pessimismo.

É um romance claustrofóbico. Para os sues personagens, não há possibilidade de redenção ou esperança possível. Todos caminham em seu itinerário de atos baixos, covardes e mesquinhos, até a escura noite que se chama morte. “A verdade deste mundo é morte”, proclama o sofrido, irônico e cético Ferdinand Bardamu, criatura atormentada, irmão espiritual  do Mersault de Camus (O estrangeiro) e de Antoine Roquetin, de Sartre (A náusea), às vezes, mais dilacerado do que ambos.

O único personagem verdadeiramente inocente de Viagem ao Fim da Noite é o menino Bébert (mesmo nome do gato de Céline), que acaba morrendo com um estoicismo impressionante para a sua idade. Livro de um cínico, de um niilista ou ainda de quem levou o ceticismo à sua última consequência (a total desconfiança diante dos homens). Há um pouco disso tudo na Viagem.

O revolucionário russo Leon Trótski definiu Viagem ao Fim da Noite como “um panorama do absurdo da vida”. Trótski viu em Céline “um moralista”. Sem dúvida, um moralista. Apontar a podridão de uma sociedade carcomida pela mentira, pelos vícios, pela crueldade e pela cupidez não é, em si, uma moral superior a que se quer denunciar? O romance de Céline destila pessimismo. “Aos vinte anos, eu não tinha mais nada, a não ser o passado”, constata Bardamu. A frase lembra outra famosa, do também francês Paul Nizan, amigo de Sartre, morto na guerra, combatendo do outro lado das trincheiras de Céline, que apoiou os fascistas: “Eu tinha vinte anos. Não me venham dizer que é a mais bela idade da vida”, afirma Nizan, em Aden, Árabia.

Aliás, foi o próprio Nizan quem fez a análise mais lúcida de Céline, quando o romance  Viagem ao Fim da Noite arrebatou intelectuais de esquerda e foi celebrado, por artistas como Simone de Beauvoir e Henri Barbusse, como obra de um escritor “engajado”, um autêntico socialista em sua indignada revolta. “Essa revolta pura pode levar Céline a qualquer lugar: até nós, contra nós ou a lugar nenhum”, alertou Nizan. Levou-o ao fascismo. Céline defendeu o fuzilamento e a forca para os judeus, foi condenada à morte pela Resistência francesa, fugiu, exilou-se, e passou um ano e meio na prisão em Copnehaguen. Na França foi condenado a outro ano e meio de cadeia. Anistiado, retornou a seu país, para viver seus últimos dez anos de vida na pequena cidade de Meudon, na companhia da segunda mulher, Lucette Almanzou e do gato Bébert.

A NOITE COMO DIVISA

Livro

Um existencialismo escatológico permeia as paginas de Viagem ao Fim da Noite, onde o homem é visto como “podridão em suspenso”. “A gente não sobe na vida, desce”, constata Bardamu, que se sentia “assassinado em sursis”. “O mundo nos deixa bem antes de irmos embora de vez”, rumina o personagem, médico como Céline. Para aqueles que acreditam em fórmulas mágicas de felicidade, Bardamu oferece o veneno dos estraga-prazeres: “Não se refaz a vida”. Porém, num transporte de piedosa generosidade, admite que “a gente acaba se alegrando com pouca coisa, com o muito pouco que a vida faz a gentileza de nos dar à guisa de consolo”. Para Bardamu parece haver uma interdição fatalista na busca do prazer e da felicidade: “Não podemos nos encontrar enquanto estamos vivo. Há cores demais que nos distraem  e gente demais que se mexe ao redor. Só nos encontramos no silêncio, quando é tarde demais, como os mortos”. Há uma frase típica de Nietzsche na Viagem: “Quando a gente faz questão de se desconsiderar vai ao povo”.

Na verdade, o romance de Céline são vários. Como um painel da pequenez do homem (o homem desentronizado de sua vaidade e reduzido à necessidade pragmática de viver a duras penas), Viagem tem várias histórias. A primeira parte do romance é um libelo de condenação a guerra, na melhor linha do alemão Erich Maria-Remarque (Nada de novo no front) e do norte-americano Stephan Crane (O emblema rubro da coragem). Durante a I Guerra Mundial, Bardamu resolve se alistar no exército de uma maneira irresponsável, um ato gratuito. Do mesmo modo que o Jim, de Crane, testemunha o horror, a covardia, os inúteis atos heroicos e a carnificina dos campos de batalha.

“Recuso a guerra e tudo o que há dentro dela”, rechaça Bardamu. E continua: “Recusou-a claramente, com todos os homens que ela contém, não quero ter nada para tratar com eles, com ela. Sejam eles novecentos e noventa e cinco milhões eu sozinho. São eles que estão errados e sou eu que estou certo, porque sou o único a saber o que quero; não quero mais morrer”.

A guerra termina e Bardamu recomeça a sua vida, “um fiapo de luz que termina na noite”. Vai viver nos confins da África trabalhando para o colonialismo francês; arrisca a América, onde também vive mal, por não ter sido ungido pelo “deus dólar”, volta para frança, forma-se em medicina e vira um médico de província, acudindo e receitando os miseráveis, com uma indiferença olímpica para o seus sofrimentos e suas pequenas tragédias domesticas. Bardamu desce de ponta-cabeça nesta Viagem noturna (e soturna) nos confins das almas, até  o desfecho dentro de um táxi digno de um filme noir, quando proclama:

                                      Tudo para a noite. É minha divisa

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