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O DESERTO DOS TÁRTAROS outubro 14, 2014

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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O deserto dos tártaros

Chega um tempo em a gente se dedica à releitura dos grandes livros, depois de haver lido muito e diante da impossibilidade de continuar lendo outras tantas obras já que, apenas para a leitura, uma vida só não basta. Acabei de reler um romance extraordinário, O deserto dos Tártaros, do italiano Dino Buzatti. A trama é simples e remete o leitor ao absurdo de Kafka: nomeado oficial, Giovanni Drogo é enviado para um posto de fronteiras, um forte no deserto, antes atacado pelos Tártaros. Ele vai para passar quatro meses. Fica a vida toda e vê o tempo escoar na poeira do deserto. Para dar sentido à vida na fortaleza solitária todos, oficiais e soldados, aguardam com ansiedade guerreira um ataque dos tártaros, que nunca virá como o Godot da peça de Samuel Beckett.

É um livro sobre a passagem inevitável do tempo, a corrosão, lenta e inexorável, dos dias e, por extensão, da vida. O estilo poético de Buzatti lembra o Exupéry de Terra dos Homens, como neste trecho memorável:

“À soleira estava sentada uma mulher, ocupada em tricotar uma meia, e a seus pés dormia, num rústico berço, uma criança. Drogo fitou espantado aquele sono maravilhoso, tão diferente do dos homens grandes, tão delicado e profundo. Não haviam nascido ainda naquele ser os sonhos turvos, a pequena vagava despreocupada, sem desejos ou remorsos, por um puro e calmo. Drogo permaneceu parado, admirando a criança adormecida, uma aguda tristeza penetrava seu coração.Tentou imaginar a si mesmo mergulhado no sono, um Drogo estranho que ele nunca pudera conhecer. Imaginou o aspecto do próprio corpo, bestialmente adormecido, sacudido por arquejos obscuros, a respiração pesada, a boca entreaberta e caída. Entretanto, também ele, um dia, dormira como aquela criança, também ele fora gracioso e inocente e, quem sabe, um velho oficial doente parara para vê-lo, com amarga estupefação. “Pobre Drogo”, disse a si mesmo, e compreendia como isso era frágil, mas no fim ele estava só no mundo, e além dele próprio, ninguém mais o amava”.

O romance de Buzatti desvenda o deserto árido no peito do homem, em contagem regressiva a partir do instante em que é concebido.

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