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CORDEIRO outubro 17, 2014

Posted by eliesercesar in Contos.
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Cordeiro

  

CORDEIRO

1

Essas cordas me arrebentam. Na quarta-feira estarei com as mãos esfoladas, os dedos inchados pelos socos que dou; os olhos roxos pelos murros que recebo. Já estou acostumado. É sempre assim, pancada que vai pancada que vem. Ninguém liga para o que acontece nas cordas, salvo quando a confusão é com os mauricinhos e com as patricinhas que ficam do lado de dentro. Se eu não ficar atento, apanho de folião pipoca – desses frouxos, do lado de fora, que batem e saem correndo e que só batem quando estão em grupo.

Vocês já perceberam. Sou cordeiro.  Não desses cordeiros amansados pela religião que apanham e dão à outra face à porrada. Faço parte do enorme lumpesinato do carnaval e, muitas vezes, me comprazo em bater em meus semelhantes, os lenhados que se espremem para brincar fora das cordas e sonham com os camarotes. Não me importo com o trabalho. Preciso ganhar alguns trocados e é só. Não há lugar para falso moralismo com o estômago vazio e contas a pagar.

Já perdi muito na vida, empregos, mulheres, dinheiro, oportunidades que só se repetem para que a gente falhe novamente e fique ainda mais azucrinado. Só não perdi, por pura sorte, a vida e o gosto de viver.  No fundo, é o que conta. Vivo puto da vida, mas vivo.  No ano passado, perdi seis dentes, defendendo uma loira de bloco pra lá de caro do assédio de um grupo de travestidos. E o que ganhei em troca? Nem um obrigado, valeu cara, foi massa, bacana mesmo, cê é dez. Nada disso. Até parecia que eu era o segurança particular da vadia.

Estudei pra isso?

Estudei, no vou negar. Cheguei à faculdade. Porém, as más companhias, as farras, o álcool, a maconha e, depois, as drogas pesadas, me afastaram do caminho promissor de um pequeno burguês assalariado, com mulher e filhos, um monte de contas a pagar no final do mês e a certeza anestesiante de que aquele era um exemplo a ser seguido. Porém, os sonhos e os projetos abortados da juventude ficaram para trás, com os livros e o papo cabeça com os intelectuais de meia tigela; aliás, de meia, não, de um quarto de tigela.

Não faço mais plano nenhum. Não projeto futuro algum. Vivo o presente, sem ilusão como condenado à véspera do pelotão de fuzilamento.  E o meu presente é este, o de cordeiro, batendo, apanhando, empurrando, sendo empurrado, com sede, com fome, de água, de pão, de mulher gostosa, dentro e fora das cordas, mais dentro do que fora. Estudei pra isso? Não importa. Preciso de trinta reais, por dia; cento e oitenta, em seis dias de folia, festa que não é minha. Não me queixo. Estou vivo. Se tive e perdi,  mereço!

Meus irmãos são simples, carentes e brutais, como Joaninha Mão de Homem, também cordeira, que sabe bater de soqueira, quando o caldo entorna, e Tavinho Pavio Curto, capoeirista e boxeador nas horas vagas, meus dois amigos nas cordas e fora delas. Joaninha é sapatão e mora com uma estudante, uma dessas feministas tabacudas, que abominam o domínio do macho, mas se deixam explorar ainda mais por um gigolô do mesmo sexo.  Tavinho ganha a vida como segurança de clubes GLS e também sabe explorar, sem piedade, toda a fauna carente de veados, lésbicas e simpatizantes que não são mais do que bichinhas enrustidas, gravatas coloridas no armário.

2

Só um pacote de biscoito e um litro de água. Foi tudo que nos deram até agora, neste calor. Enquanto isso, os bem-nascidos se esbanjam na cerveja, no uísque e na cocaína que rola, farta, em um dos carros de apoio. Pra disfarçar o consumo, o cara finge que vai ao banheiro, de onde volta a mil, disposto a engolir a folia.

Muitos ladrões se empregam de cordeiros pra roubar. Roubam os babacas e escapolem com mais dinheiro do que ganhariam em pequenos bicos durante seis meses. Eles vêm em turma.  Quando o bloco passa por um local mais apertado, um deles saí das cordas e arma uma briga. Os demais aproveitam a confusão e saem distribuindo socos e pontapés, roubando relógios, correntes de prata e de ouro, carteiras de cédulas, telefones celulares. Depois vão para o fundo das cordas., como quem não fez nada.

O golpe funcionava melhor, antes da  polícia instalar câmaras eletrônicas pelo circuito da festa. A prática se tornou mais difícil depois que os telejornais divulgaram imagens das gangues que agiam dentro das cordas, o que levou a direção dos blocos a exigir atestado de antecedentes criminais dos candidatos a cordeiros Sem falar nos policiais à paisana dentro das cordas, contratados para dar segurança aos barões.   Mas, a medida não foi suficiente para acabar com o crime, pois a maioria dos cordeiros tem bons antecedentes e, como se sabe, a ocasião faz o ladrão.

O cordeiro autêntico tem uma vontade enorme de estuprar as gostosinhas que passam toda a festa numa chupação desenfreada, num esfrega-esfrega vertiginoso, numa bolinagem impetuosa, inflamadas de desejo e com o sexo em chamas. A cada momento, elas são requestadas, bolinadas, comidas, violentadas,  cobertas de sêmen e torturadas por estes homens rudes. Não vou mentir: também quero tirar a minha lasquinha nas grã-finas.

Pior do que a sede e a fome é suportar o barulho; a música feita para o entorpecimento do espírito, para a perpetuação da estupidez, a disseminação da burrice, a hegemonia da mediocridade e para encher o bolso de uma indústria que sobrevive de fazer os bestas rebolar e requebrar, quebrar e rebolar durante o ano todo, numa orgia permanente e galopante de batuques e molejos. Será que essa gente não sabe que vai envelhecer, que a carne rija vai virar canjica, o sorriso murchar na seca flor dos lábios emurchecidos e a euforia passageira se converter em triunfante depressão? Tenho uma recaída pelo intelectualismo filosofante do passado e cedo ao arroubo existencial em meio ao barulho ensurdecedor. Ao menos tento preservar minha individualidade ou o que restou de minha sensibilidade de outrora, se é que meu espírito, ou que dele sobrou, não foi contaminado pela miséria do meu tempo.

Logo me convenço de que não vale à pena lembrar do passado. Que o pagode arrebente meu cérebro, estoure meus tímpanos, entorpeça minha mente, embote meu raciocínio, tome conta de tudo!

Ò siririco, ò siririco,

vá tomar no seu furico.

Porra de vida!

                                          

3

Até mulheres grávidas (claro, sempre as negras), trabalham nas cordas. Já vi uma levar uma porrada e abortar na rua mesmo. Fui falar com um segurança, que falou com um diretor do bloco e ouviu que o problema era com o SAMU. Não estivesse em desvantagem numérica, teria quebrado a cara do filho da puta. Mas, logo relaxei. Afinal, ser cordeiro não é moleza, muito menos trabalho para mulher prenha.

Li no jornal que, no carnaval, são mais de 50 mil cordeiros, 50 mil peões, 50 mil lascados, ou seja: um cordeiro para cada grupo de 20 foliões, contando um milhão de foliões, incluindo os mauricinhos e as patricinhas que, na avenida, esbanjam dinheiro e  felicidade o tempo todo, como se fosse possível ser feliz todo o tempo e não estar louco. E a gente aqui se esfalfando para garantir a alegria deles todos; a bebida, a orgia de droga e de sexo, a histeria e a euforia alucinada das mulheres. Se uma delas tropeça e machuca o dedinho do pé, há quem fique com pena da periguete. Vadia!

Depois da festa é mais uma humilhação para receber o pagamento. A merreca só saí quando todos vão embora e quando muitos de nós já não aguentam mais em pé. Tome, aqui, e suma. Nenhum obrigado ou simples até amanhã. Só, não se esqueça: logo cedo no batente. Tá bom, chefe!

Estou cansado, de saco cheio, mas de olho em uma coroa oxigenada, mignon, fogosa, tudo no lugar, recauchutada de academia. Saí sempre às dez da noite para o Estacionamento de São Raimundo, no Politeama, para apanhar o carro, um Uno de segunda mão. No último dia, vou segui-lá. Aí, sim, faço meu carnaval.

Depois… depois…talvez, use uma corda.

 

(Conto publicado na revista Flaubert # 8)

 

 

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