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O INFERNO SOMOS NÓS outubro 28, 2014

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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– Em Ângelo Sobral desce aos infernos, Ruy Espinheira Filho mergulha na precária e inelutável condição humana.

 

Cristo no Limbo, de Hieronymus Bosc.

Cristo no Limbo, de Hieronymus Bosch.

“Difícil é aguentar até que a morte chegue”. Esse verso, de Poema de Novembro, do livro A Canção de Beatriz e outros poemas, de Ruy Espinheira Filho, é o que melhor espelha a crise existencial por que passa Ângelo Sobral, o principal personagem do romance Ângelo Sobral desce aos infernos, do próprio Ruy, que conquistou, em 1985, o 2º lugar do Prêmio Rio de Literatura da Fundação Rio e, agora, quase três décadas depois, ganha nova edição pela editora Giostri, com “burilamentos e cortes” feitos pelo autor.

Curto, em pequenos capítulos, linguagem concisa, objetiva e, em muitos trechos, poética, o romance conta a velhice de um escritor que se vê repentinamente viúvo, e, uma vez só, com mais tempo para refletir sobre a inelutável condição humana que, cedo ou tarde, obrigará todo homem a descer aos infernos de si mesmo e dos outros. Pois, no romance de Ruy, ao contrário dos versos de Fernando Pessoa, não se pode ir sozinho para o inferno. Havemos mesmo de ir juntos, autor, personagens e leitor. 

Ao emergir nessa noite escura da alma, Ângelo Sobral mergulha também no caos interior de pessoas que ele conhece e no dos próprios personagens, cuja vida conturbada vai esboçando num caderno; delineando contornos palpáveis de cada um deles e amarrando enredos de histórias futuras: três irmãos miseráveis, dois rapazes e uma moça; um trabalhando distante, outro preso por bandidagem, ela obrigada a se prostituir para ter o que comer; um casal de idosos sob uma penúria extrema; ele aposentado; ela inválida numa cadeira de rodas; dois amantes revolucionários; ele líder da guerrilha, ao que tudo indica plasmado no Capitão Carlos Lamarca; ela apaixonada e a aguerrida; entre os dois a pata sangrenta da ditadura militar.

Ângelo Sobral desce aos infernos é um romance sobre a precariedade, a falta de sentido e o absurdo da vida. É também um livro que se lê com certo incômodo existencial, pois, empregando as palavras do próprio Ângelo Sobral, Ruy não é um desses novelistas “capazes de substituir as asperezas da vida por milagres redentores”.

MURO DAS LAMENTAÇÕES

Ruy Espinheira Filho transita, com igual desenvoltura, pelo verso e a prosa.

Ruy Espinheira Filho transita, com igual desenvoltura, pelo verso e pela prosa.

Poeta da memória que ilumina o presente e resgata o pretérito, Ruy Espinheira Filho também empreende no premiado romance, uma volta ao passado, o que não poderia ser diferente nas divagações de um idoso e, ainda mais, viúvo, inteligente e sensível, como vemos nesta reflexão de Ângelo Sobral:

Como pode algo mais distante, do fundo do passado, ser mais poderoso do que o drama recente? Só há uma maneira de responder isso: por isso mesmo. Quanto mais distante mais presente, mais arraigado em nós.

Daí, talvez, o peso do passado na leveza aparente do presente, a sensação de perda do homem velho:

Quando a minha infância acabou, morrera um pouco com ela.

Desse modo, essa infância distante e a lembrança de Helena, a mulher que morrera, são, para Ângelo Sobral:

Um sonho que ainda posso sonhar – mas no passado.

No meio do caminho dos personagens do escritor e também da gente do escritor criado pelo escritor, há um muro que interdita a felicidade, “horinhas de descuido”, como definiu, em uma de suas histórias, Guimarães Rosa. “Alto e espesso, áspero e frio”, esse muro reflete “o menino, o rapaz, o homem e (seu rosto de hoje) o velho em que desapareceram”.

Ângelo Sobral trafega no fio da navalha que o faz suspenso em crises:

Em última análise, minha vida não tem sido mais do que oscilar entre dois gumes: Um, as crises de criação (quando consigo criar). Pobre de quem vive perto do Horácio definiu como “a raça irritadiça dos poetas”.

A outra crise, a existencial decorre da constatação de que “viver é um aprofundamento da condição humana, nos que somos em essência – sem os mil disfarces que criamos e aperfeiçoamos desde o tempos das cavernas, ou antes disso.”

Em sua descida aos abismos do ser, Ângelo Sobral poderia utilizar a famosa máxima de Sartre, segundo a qual “o inferno são os outros”, para dividir a responsabilidade pela vida que escolhemos e sentenciar: “o inferno somos nós”.

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Comentários»

1. w. j.solha - outubro 28, 2014

Ave, César! Excelente resenha! Digo isso de cátedra, porque também resenhei o romance do Ruy. Meus cumprimentos aos dois!


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