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ANDAIMES DA INTOLERÂNCIA outubro 29, 2014

Posted by eliesercesar in Artigos.
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(Artigo publicado na edição de 29 de outubro do jornal Correio*, de Salvador)

intolerância

Depois das eleições de 1989, a primeira direta para presidente da República após a redemocratização do país, e também a mais acirrada do ponto de vista ideológico (basta lembrar que Leonel Brizola era um dos candidatos), muitos apressados disseram que o Brasil saia das urnas irremediavelmente dividido. Na época votei em Brizola, no primeiro turno, por considerá-lo mais preparado do que Lula para vencer Fernando Collor de Mello, num eventual segundo turno. Achava que as forças conservadoras inflavam a candidatura de Lula para se livrar de Brizola, adversário perigoso, de língua afiada (tanto que num memorável debate pela televisão definiu Paulo Maluf como “filhote da ditadura”), acostumado a duros combates, como o da Cadeia da Legalidade, que garantiu a posse do Presidente João Goulart, após a renúncia atabalhoada de Jânio Quadros. No segundo turno, claro, carimbei o voto em Lula.

Após a eleição de Collor dizia-se, nos quatro cantos do país, que o Brasil estava dividido, como se à beira de uma secessão ou de uma guerra civil. Ainda atordoado pela derrota, o PT até aventou a possibilidade de criar um “governo paralelo”, como se a eleição, por mais que não gostássemos do resultado, não tivesse sido legítima, apesar dos golpes baixos, como a manipulação da notícia sobre último debate pela Rede Globo, para beneficiar Collor, mostrando, no seu principal telejornal, um Lula acuado nas cordas e um Collor aguerrido como um galo de briga. Porém, o que se viu depois foi um país que empreendeu um refluxo para a convivência pacífica e democrática, e que não se dividiu, ao contrário do que vaticinavam os arautos da discórdia. Não houve divisão, mas a vigilância sobre aos atos do novo governo permaneceu acesa, como deve se manter no regime democrático. Tanto que não demorou e os brasileiros, inclusive os que votaram em Collor, saíram às ruas para pedir o impeachment do presidente da República.

Agora, após a vitória apertadíssima de Dilma Roussef sobre Aécio Neves, presenciamos novamente a volta do discurso separatista. “País dividido”. É o que mais se ouve e se lê nos jornais. Ora, dividido o país já está, há muito tempo. Entre poucos que têm muito, muitos que têm pouco, muitos que começaram a ter um pouco e outros que ainda não têm nem um pouco e, que, portanto, precisam de uma atenção maior do governo.  Mesmo antes da campanha eleitoral, o pais já estava divido entre um minoria que sempre nutriu um ódio classista e figadal contra pobres, negros e homossexuais (e, no calor da ressaca eleitoral, agora, os nordestinos), e uma maioria, altruísta e generosa, para a qual é preciso continuar reduzindo as desigualdades socais sem, contudo, deixar de olhar o Brasil como um todo.

O que não quer dizer que o país vá sofrer um processo de balcanização semelhante ao da antiga Iugoslávia, como desejariam os mal-intencionados que, apropriando-se de um discurso neofascista, pregam o ódio, a intolerância racial e a estupidez genocida e belicista. Se o ovo da serpente está sendo chocado, por iniciativa de uma minoria sectária e raivosa, convém deixarmos que ele gore na granja da insensatez.

Não! Esse Brasil não se dividirá para além das divisões de classes que já existem, como, aliás, existem em praticamente todas as nações do mundo. A polarização que assistimos durante a campanha eleitoral representa, acima de tudo, um atestado da solidez das nossas instituições democráticas, uma demonstração cabal de que é possível se conviver com o contraditório, com o pensamento diferente, com a ideologia diversa; se não amistosamente, pelo menos de forma civilizada, como manda a velha e boa dialética

Para isso, é necessário que se comece a desarmar os palanques, inclusive aqueles instalados entre amigos e familiares, pelos andaimes da intolerância.

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