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DENTRO DA VIDA VELOZ novembro 6, 2014

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Livro

Qual foi a vida mais longa, a de um homem que viveu 40 anos e cultivou o espírito, a arte e as amizades; ou a de outro que trabalhou ativamente até os 70 anos, acumulou riquezas, mas não teve tempo de desfrutá-las, embora passasse toda a velhice fazendo planos para o ócio que jamais veio? Para a lógica matemática, a do segundo. Porém, para o filósofo, dramaturgo, político e escritor italiano Lúcio Anneo Sêneca (4 a.C? -65 d.C), a do primeiro. Vejam o que fiz Sêneca, no belo tratado Sobre a brevidade da vida:

Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa e nos foi dada com muita generosidade para a realização de tarefas importantes. Ao contrário, se desperdiçada no luxo e na indiferença, se nenhuma obra é concretizada, por fim, se não se respeita nenhum valor, não realizamos aquilo que deveríamos realizar, sentimos que ela realmente se esvai. Desse modo, não temos uma vida breve, mas fazemos com que seja assim. Não somos privados, mas pródigos de vida. Como grandes riquezas que chegam às mãos de um mau administrador, em um curto espaço de tempo, se dissipam, mas, se modestas e confiadas a um bom guardião, aumentam com o tempo, assim a existência se prolonga por um largo período para o que sabe dela usufruir.

Sêneca parte da tese de que para quem sabe viver a vida é longa. E saber viver para o filósofo latino não é tributar a existência a dissipações, aos prazeres do vinho e da carne. A todo tipo de libações que, no seu entender, apenas contribuem para que o tempo pise o pé no acelerador até a sinuosa reta final de todo homem. Para Sêneca esta é apena uma maneira de tentar acumular a vida, dissipando-a.

Convicto de que a vida dos homens ocupados é ainda mais breve, aliás, brevíssima, ele prega o ócio; não a preguiça, mas um ócio produtivo; não um convite à indolência paralisadora, mas uma recomendação para que se evite “a falsa operosidade e a fútil agitação”. Esta a agitação recalcitrante   dos homens que “uns aos outros se consomem”, incapazes de perceber que “pequena é a parte da vida que vivemos”, já que a maioria deles “lança-se a novos propósitos levianamente, encontrando apenas desgostos”. E de que maneira, segundo Sêneca, essas pessoas se lançam em projetos levianos e de difícil consecução? “Sofrendo da ânsia do futuro e do tédio do presente”, responde o filósofo que foi conselheiro do Nero e, acusado de traição, se suicidou por ordem do tirano.

Esta ânsia, de quem parece querer beber a vida a golfadas, é tão grande que se há, por ventura, um evento, uma grande festa, um grande encontro marcado para daqui a um mês, existem também pessoas que “desejam pular os dias que ficam no meio” e, assim, colaboram voluntariamente para que a vida se torna ainda mais breve. Diz Sêneca:

 Muito breve e agitada é a vida daqueles que esquecem o passado, negligenciam o presente e temem o futuro. Quando chegam ao fim, os coitados entendem, muito tarde, que estiveram ocupados fazendo nada.

VIDA: MODO DE USAR

 

Sêneca: "Não somos privados, mas pródigos de vida".

Sêneca: “Não somos privados, mas pródigos de vida”.

Sêneca prega que somente “os ociosos que estão livres para a sabedoria, apenas estes vivem. Pois não só controlam bem sua vida, como também lhe acrescentam a eternidade”. Como?  Convivendo com “aqueles sábios fundadores das idéias sagradas que nasceram para nós e nos preparam para a vida”. Esse convício de pessoas separadas por eras, mas unidas sob o manto atemporal da arte e do espírito, nos permite “disputar com Sócrates, duvidar com Carnéadas, encontrar a tranquilidade com Epicuro, vencer a natureza dos homens com os estóicos, ultrapassá-la com os cínicos”. Para isso, “uma vez que a natureza nos permite comungar com toda a eternidade”, é preciso “não nos afastarmos da estreita e pequena passagem do tempo e nos entregarmos com todo o nosso espírito ao que é ilimitado, eterno e dividido com os melhores”.

Nenhum homem terá motivo para se arrepender dessa convivência com os grandes homens e com as grandes ideias do passado, pois, como acrescenta Sêneca:

Nenhum deles vai te levar para a morte, todos te ensinarão a morrer; nenhum deles desperdiçará teus anos, te oferecerá os seus; nunca a conversa com eles será perigosa, nunca a amizade fatal, ou o respeito dispendioso. Conseguirás deles tudo que desejas; eles não serão culpados, senão conseguires exaurir aquilo o que querias.

Ao contrário, esses homens ajudarão a prolongar a vida, se não no esticado objetivo do tempo, ao menos na percepção subjetiva da existência que logrou a sua finalidade de transcender a inevitável transitoriedade do homem. Anota o filósofo:

Estes te levarão ao caminho da eternidade, te elevarão ao ponto mais alto de onde ninguém corre o risco de cair. Esta é a maneira de prolongar a vida, ou mesmo de transformá-la em eternidade. As honras, os monumentos, tudo aquilo que ambição decretou ou construiu com trabalhos logo há de ruir, uma vez que não existe nada que a passagem do tempo não arruíne ou ponha em desordem. Porém, não pode atingir os conhecimentos que a sabedoria construiu, pois nenhuma idade pode destruí-los ou diminuí-los. A próxima e a seguinte sempre vão aumentá-los mais um pouco, já que a inveja avista apena o que está próximo de si, e admiramos com menos astúcia o que está distante.

Prossegue Sêneca, falando, agora, do quanto a vida é longa, se pavimentada pela sabedoria:

Assim, a vida do sábio se estende por muito tempo, ele não tem os mesmos limites que os outros, é o único que não depende das leis do gênero humano, todos os séculos o servem como a um deus. Algo se perde no passado? Ele recupera com a memória. Está no agora? Ele desfruta. Há de vir com o futuro? Ele antecede.  A união de todos os tempos em um só momento faz com que sua vida seja longa.

A vida, ao final das contas, é também o modo como ela é usada – parafraseando, aqui, o título de um bom   romance do francês Georges Perec. E, para aqueles (ó, quase todos nós!) que não souberam devidamente usá-la fica este conselho de Sêneca:

Todas as coisas jazem na incerteza: vive daqui para adiante.

 

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