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A DERROCADA DO SONHO AMERICANO novembro 17, 2014

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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– Em  Pastoral Americana,  seu melhor romance, Philip Roth desconstrói o mito do american way of life.

Pastoral

Seymour Levov, o Sueco, encarna o sonho de sucesso do norte-americano médio dos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial e o emblema do american way of life. É jovem e bonito, ponta no futebol americano, meio de campo no basquete e primeira base no beisebol. No porte atlético é quase um Zeus.  Mas abandona a promissora carreira no esporte para se tornar um bem-sucedido empresário na produção de luvas de couro, seguindo o exemplo do pai. Seymour se casa com a Miss New Jersey de 1949, bonita e fútil, com quem tem uma filha. Ao que tudo indica, numa família respeitada invejada e muito bem-estabelecida, uma menina com uma desenhada e  promissora carreira universitária.

Bom marido, carinhoso e indulgente pai, boa praça com todas as pessoas que o cercam, o Sueco (apelido que ganhara no esporte por ser um judeu com traços escandinavos), é incapaz de contrariar as outras pessoas e, como um filho obediente, segue a vontade do pai. Estava, portanto, fadado a uma vida sem contrariedades como alguém protegido numa redoma de luxo e inexpugnável aos sofrimentos dos pobres mortais. Até que, da maneira mais implacável, descobre que “ninguém passa pela vida isento de amarguras, desgostos, confusão e perda” e que “mesmo aqueles que tiveram tudo do melhor quando crianças, mais cedo ou mais tarde recebem sua cota regular de sofrimento, quando não recebem até mais do que isso”.

A terrível descoberta se dá através de uma bomba-relógio prestes a explodir no sacrossanto lar dos Levov: a pequena Merry, a filha adolescente do casal, uma menina feia, gorducha e gaga, “a mais feia filha de pais mais bonitos que já existiu no mundo”. Em plena contestação à Guerra Vietnã e no furacão dos movimentos pelos direitos civis no final dos anos 60 do século passado nos Estados Unidos, a doce e inibida Merry se transforma numa terrorista e faz explodir uma bomba num pequeno supermercado de uma cidadezinha rica e pacata de Nova Jersey, matando um homem bom e inocente. Depois some na clandestinidade e comete outros atentados a bomba  que  matam mais três pessoas. Esta a tragédia doméstica de Seymour Levov e o eixo do romance Pastoral Americana, de Philip Roth, judeu de Newark, em Nova Jersey, como o próprio Sueco.

O AVESSO DA VIDA

Com Pastoral Americana, Philip Roth completa sua "Trilogia da América"

Com Pastoral Americana, Philip Roth completa sua “Trilogia americana”, também composta pelos romances “Me casei com uma comunista” e “A marcha humana”.

A história é contada pelo escritor Nathan Zuckerman, alter ego de Roth, que aparece em outros romances do autor, como sarcástico O complexo de Portnoy e não menos ácido O avesso da vida. A tragédia de Seymour Levov é a mesma do americano despreparado para os revezes da vida, ou avesso dela, como prefere Philip Roth:

A gente pode tentar se virar pelo avesso, mas tudo o que a gente então consegue é ficar do lado avesso e solitário, em vez de do lado direito e solitário.

O Sueco peregrina em busca da filha, até que a encontra totalmente ao avesso da violência política, tendo superado a gagueira que tanto a desesperava e, agora, numa mudança não menos radical, adepta da não-violência, ao ponto de usar um véu “a fim de não fazer mal algum aos organismos microscópicos do ar que respiramos”, de não tomar banho “porque venerava toda vida, inclusive os vermes” e de não se lavar “a fim de não fazer mal nenhum à água”. Um caso perdido no meio do turbilhão social de uma época.

Nas palavras do narrador, Seymour Levov é vítima da “tragédia do homem despreparado para a tragédia – a tragédia do homem comum”. Todo o seu sucesso era um engano e ele constata que toda a sua vida fora uma fachada e que “essa fachada não ia sair de graça”, como efetivamente custou-lhe muito: a paz de espírito, a tranqüilidade antes abençoada do lar e até a fidelidade da mulher. Sueco tenta refazer a vida como uma nova mulher, com outros filhos, mas carregará, no espírito lacerado, o desgosto imposto pela filha, os assassinatos que ela cometera e o ponto mais baixo da escala social a que sua querida Merry descera.

Depois de tanto sofrimento, o amargurado, Seymour constata que inimigo mora bem mais próximo do que ele podia imaginar: “Todos nós temos uma casa. É sempre o lugar onde as coisas dão erradas”. O Sueco cresceu numa época em que “havia uma grande fé na vida e vivíamos incessantemente voltados na direção do sucesso: uma vida melhor estava reservada para nós”. Como aconteceu, por exemplo, com a “Geração Perdida” encarnada no infortúnio de Scott Fitzgerald e, mais tarde, desencarnada no suicídio de Ernest Hemingway.

Ao final, quando já se podia permitir apenas um estoicismo resignado diante daquilo que não se pode mudar, Seymour Levov descobre a “pior lição que a vida pode ensinar – que ela mão faz sentido”. Com um título que remete a uma vida idílica e amorosa no campo e a mais completa comunhão espiritual com a natureza, Pastoral Americana revela, de forma implacável, a derrocada do sonho americano.

 

 

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