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ADEUS, CAMARADAS dezembro 11, 2014

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Em Autobiografia de Federico Sánchez, Jorge Semprún faz acerto de contas com o passado de intelectual estalinizado e ataca a linha do Partido Comunista da Espanha.

Autobiografia

Exilado na França após a derrota dos republicanos na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e ex-prisioneiro do campo de concentração de Buchenwald, na Alemanha,  Federico Sánchez atuou como militante do Partido Comunista da Espanha (PCE), por mais de duas décadas,  na clandestinidade em Paris e na Espanha dominada pelo Generalíssimo Francisco Franco.  Como muitos de seus pares mundo à fora, foi “um intelectual estalinizado” até entrar em choque com o que considerava voluntarismo, triunfalismo e subjetivismo do PCE, e acabar  expulso do partido, junto com Fernando Claudín, em 1964, sob a acusação de reformismo e desavenças com Dolores Ibarruri, a carismática La Pasionaria, e Santiago Carrilo, dirigentes máximos do comunismo espanhol.

Federico Sánchez era, na verdade, o nome de guerra empregado na clandestinidade pelo escritor espanhol Jorge Semprún, o premiado autor de A segunda morte de Ramón Mercader, A grande viagem  e um Belo domingo e  de roteiros de filmes como  A guerra acabou, de Alain Resnais, e Z, de Costa-Gravas, também ministro da Cultura do Primeiro-Ministro Felipe Gonzalez.   Depois da expulsão do Comitê Executivo do PCE e sua conseqüente saída do partido, Semprún resolve se despregar da máscara de Federico Sánchez para voltar a ser ele mesmo. A máscara é retirada com um implacável acerto de contas com o PCE, sobretudo com o seu Secretário Geral, Santiago Carrillo, através do relato dos anos de militância de Federico Sánchez  e de seu embate purificador com o centralismo democrático do PCE, contido no misto de romance e testemunho político  Autobiografia de Federico Sánchez.

Publicado mo Brasil pela Paz e Terra, o livro recebeu o Prêmio Planeta 77 e vendeu mais de 500 mil exemplares na França e na Espanha. Hoje, quase quatro décadas depois de seu lançamento, pode soar como um relato datado e que só resiste ao tempo   por despertar um interesse histórico. A impressão não passa de uma meia verdade, já que o centralismo democrático (essa ambigüidade subjetivista que alia o vocábulo democrático a decisões unilaterais e impostas de cima), e outras práticas condenáveis dos partidos comunistas ainda sobrevivem em países como Cuba e China, para não citar contrafação aberrante do socialismo implantada na Coréia do Norte.

Logo de início Jorge Semprún deixa claro que o tema das relações do intelectual com o partido, e mais amplamente do movimento operário em geral, é um dos assuntos principais de seu ensaio autobiográfico. Porém, não é o único.  Federico Sánchez, ou melhor Jorge Semprún, expõe as mazelas dos seus camaradas num fogo sacrifical e sincero que não poupa a si mesmo:

Agora, na sala onde estávamos reunidos, Santiago Carrillo sustentava que se encerrava para sempre o processo do stalinismo. Gritava enfurecido que remexer nesse passado só era prova de masoquismo pequeno-burguês. Pois bem, eu prosseguirei revolvendo esse passado para por a nu suas chagas purulentas, para cauterizá-las com o ferro vermelho vivo da memória.

Até porque “não vai ser fácil calar Federico Sánchez”, como diz o autor mais adiante. E Federico Sánchez nada mais é do que a voz do passado diante de uma revisão que se impunha  pelas condições objetivas do presente, para empregar uma das expressões tão caras ao marxismo-leninismo, no caso do PCE e de tantos outros PCs satélites da União Soviética, desconfigurados pelo estalinismo. O que é mesmo o subjetivismo tão combatido pelo rigor científico que o marxismo impôs ao disciplinado militante Federico Sánchez. É Jorge Semprún quem explica: “O subjetivismo significa que não se analisa corretamente nem a correlação de forças nem as possibilidades reais da ação, significa que se subestimam as forças do adversário, que que designam objetivos errôneos, que ao serem alcançados provocam a desmobilização ou a desmoralização das forças revolucionárias”.

Isso num momento em o PCE apostava na queda quase mecanicista da ditadura de Franco, quando, na verdade, o capitalismo monopolista que a sustentava dava mostras evidentes de reciclagem e revitalização, com o aumento do consumo de bens pela classe operária, ainda distante do poder de mobilização equivocadamente detectado pelo triunfalismo míope da cúpula partidária dos comunistas espanhóis.

Em seu acerto de contas com os antigos camaradas, Jorge Semprún acusa os fascistas e os estalinistas de terem “a mesma concepção metafísica e policial da história”, e os membros do Comitê Central do PCE, sobretudo Santiago Carrillo de mergulhar no oceano do triunfalismo ideológico, na cegueira idealista e num servilismo indecente às ordens da União Soviética de Josef Stalin, “o deus da teoria, o corifeu da ciência, o patriarca indiscutível, como se [após a morte do ditador soviético, em 1953] suas palavras continuassem sendo o critério do verdadeiro e do falso”. Isso porque, conforme Semprún,  Carrillo havia se esquecido de que “Stalin tinha morrido e que seu cadáver tinha sido atirado no lixo da história”.

FIDEL CASTRO E DEUS-PARTIDO

Jorge Semprún no tempo de Federico Sánchez

Jorge Semprún no tempo de Federico Sánchez

Para os militantes em desacordo, como Federico Sánchez e Fernando Claudín, dirigente da Juventude Comunista antes da guerra civil e membro do Comitê Central do PCE durante o sangrento conflito, “o máximo recurso democrático oferecido consiste na possibilidade de fazer sua autocrítica – ou melhor que outros a façam – ou sair do partido”. Neste contexto de asfixia política, “o mínimo que exige o centralismo democrático é que se pare de pensar com sua própria cabeça para se limitar a repetir e florear os pensamentos do chefe que se chama Secretário Geral ou Grande Timoneiro , ou que outro nome se dê ao “cicerone da terra prometida”, seja Stalin, Mao ou Fidel.

Nas memórias de sua militância como Federico Sánchez, cuja consciência alienada o fazia escrever poemas que seguiam a cartilha do realismo socialista, louvando La Pasionaria como “alma da reconquista, fogo estendido ao vento do Partido Comunista” e lamentando a morte de Stalin (“não se pode pensar que isso tenha acontecido”), Jorge Semprún volta a mexer nas feridas do estalinismo imolando-se também no altar do sectarismo alienante,  como acentua ele mesmo: “Agora, porém, em minha própria chaga, pois, jamais gostei em tocar em chagas alheias”. E chafurda no passado autoritário em resposta ao brado de Santiago Carrillo, para quem “revolver o passado é masoquismo de intelectual pequeno-burguês”.

Com sua imersão num passado que seus camaradas gostariam de esquecer, Semprún deseja espicaçar o que considera a memória seletiva dos intelectuais estalinistas: “A memória comunista é na realidade uma desmemória; não consiste em recordar o passado, mas em censurá-lo. A memória dos dirigentes comunistas funciona pragmaticamente, de acordo com os interesses e os objetivos políticos do momento. Não é uma memória histórica, testemunhal, é uma memória ideológica”. Daí, na sua opinião, o líder bolchevista Leon Trótski ter sido morto, por Ramón Mercader, militante do Partido Socialista Unificado da Catalunha (PSUC), a mando de Stalin, para assassinar não somente um adversário político perigoso, mas também memória da Revolução Russa.

Semprún, ele mesmo.

Semprún, ele mesmo.

Jorge Semprún ilustra o credo religioso em torno do partido com o seguinte trecho do pronunciamento (“peroração bíblica e fluvial”), de Fidel Castro durante o Primeiro Congresso do PC do Cuba:

O Partido resume tudo. Nele se sintetizam os sonhos de todos os revolucionários ao longo da nossa história; nele se concretizam as ideias, os princípios e a força da Revolução; nele desaparecem nosso individualismo e aprendemos a pensar em termos de coletividade; ele é nosso educador, nosso mestre, nosso guia e nossa consciência vigilante, quando nós mesmos não formos capazes de ver nossos erros, nossos defeitos e nossas limitações; nele nos tornamos um todo e nos tornamos, cada um, um soldado espartano da mais justas das causas e, todos juntos, um gigante invencível; nele, as ideias, as experiências, o legado dos mártires, a continuidade da obra, os interesses do povo, o futuro da pátria, e os laços indestrutíveis com os construtores proletários de um mundo novo em todos os rincões da Terra estão garantidos.

Ao que responde Sánchez-Semprún:

Naturalmente, ao sintetizar liricamente o que é o Partido (a maiúscula é de Castro: também nisso se ajusta à tradição), ao glorificá-lo e deificá-lo, Fidel Castro silencia sobre um aspecto essencial de semelhante concepção da vanguarda comunista: a necessidade de se ter na cúpula da organização um Chefe Máximo, um Grande Timoneiro, um Generalíssimo, um Primeiro Secretário. Na realidade, todas as virtudes que Fidel atribuí ao Partido são suas próprias virtudes pessoais – reais ou supostas, porém consubstanciadas a este tipo de dirigente carismático da revolução – são suas próprias virtudes teologais. Quando está falando do Partido, Fidel Castro está fazendo seu auto-retrato imaginário: o partido é seu ego e super-ego. O partido resume-o todo e Ele resume e assume o Partido e nele o Partido se consome, ou seja, é consumido e consumado.

Em “autocrítica desapiedada” (como Mário Vargas Llosa, outro crítico dos regimes totalitário definiu a Autobiografia, em artigo de 1977 contido no livro Contra vento e maré), Federico Sánchez sustenta que “o sistema socialista foi substituído por outro sistema, por uma super-estrutura stalinista”. Ao ouvir o veredicto de sua expulsão, Federico Sánchez, ou melhor Jorge Semprún, faz um balanço de sua militância no PCE:

Acredito ser perfeitamente sincero comigo mesmo se digo que me invadiram nesse momento dois sentimentos contraditórios. De um lado, a certeza de que se encerrava um período essencial de minha vida, o mais rico de aventuras e experiências. De outro, a firme convicção de ter sido fiel, até o fim, ás minhas convicções mais profundas de não ter traído a liberdade comunista que me levou ao partido, com a idade de dezoito anos, e que agora, em função de uma idêntica exigência de rigor e coerência, me expulsava do partido.

A Federico Sánchez só restava uma despedida sem cerimônia e o retorno à pele de Jorge Semprún:

[…] Não voltarei a me desesperar com tanta estupidez, tanta pobreza intelectual, tanto servilismo.

Adeus para sempre, camaradas.

 

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