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ARRASTA-CRIANÇA dezembro 15, 2014

Posted by eliesercesar in Contos.
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Para Maria Cecília, que duvida desta história.

Arrasta-criança

I

 

Meu pai disse que eu deveria obedecer a ele e a mamãe, que não deveria falar com estranhos, nem me perder de vista quando estivéssemos na rua, para que o Arrasta-criança não me puxasse pelos cabelos e me levasse para o galpão, escuro e abandonado, onde as crianças desobedientes ficam presas para sempre.

Era medonho, o Arrasta-criança, garantia meu pai. Alto, magro, com umas mãos do tamanho de uma raquete de ping pong, umas pernas finas e compridas para correr mais depressa, quando sequestrasse a criança; orelhas de abano; dois orifícios no meio da cara no lugar do nariz e apenas um dente colossal e em forma de triângulo, com o qual, pica-pau medonho, ficava pinicando a cabeça da criança mais próxima.

Antes de raptar qualquer menino ou menina desobediente, o Arrasta-criança mandava a mulher dele averiguar o terreno, a fim de ver o momento mais propício para atacar  a criança mais fácil de ser raptada. Então, Maltrata-criança, sua consorte infernal, se disfarçava de uma boa matrona e circulava pelos grandes magazines, lojas, estações rodoviárias, parques e jardins, e também aeroportos, farejando a melhor vítima.

Identificado o próximo e indefeso alvo, ela acionava o marido que (vapt!), num piscar de olhos desaparecia com a criança que se distanciava dos pais ou dos adultos que a acompanhavam. Meu pai dizia que a polícia jamais havia resgatado um pimpolho levado pelo Arrasta-criança, nem sequer localizado o local do cativeiro. Parece que ele e a mulher mantinham cativeiros móveis, mudando de um lugar para outro, ou até mesmo de uma cidade para outra e, o que é mais incrível, sem despertar a menor suspeita nos novos vizinhos. Ou ainda – misericórdia! – se descartando rapidamente dos pequenos que, no cativeiro, choravam e berravam à procura dos pais, sem que ninguém os ouvisse. Teria revestimento acústico o galpão onde meu pai dizia que o Arrasta-criança aprisionava suas vítimas inocentes? E como meu pai sabia que se tratava de um galpão? Poderia ser um quarto escuro, um sítio, uma fazenda distante, sei lá…Mas, naquela época, meu pai sabia de tudo mesmo.

 

II

 

Acho que foi o Arrasta-criança quem levou a filhinha de Dona Esmeralda. A menina desapareceu na estação rodoviária. Foi a mãe se distrair para comprar a passagem de ônibus e a menininha sumir. Não adiantou a polícia procurar, até em outros estados; de nada valeu a Dona Esmeralda aparecer no programa de desaparecidos da TV, com a aflição palpitante das mães desesperadas. Os dias foram passando, os meses se sucedendo, os anos se revezando nesta corrida de obstáculos que é o tempo, e nada da menina (ou a adolescente) aparecer. Coitada de Dona Esmeralda! Não suportou a saudade, nem o peso da responsabilidade de ter se distraído num minuto fatal. Hoje, vive de tranquilizantes, como uma sonâmbula. O marido a culpou pela tragédia doméstica e saiu de casa.

Uma vez perguntei a meu pai se o Arrasta-criança e a Maltrata-criança não faziam parte de uma quadrilha internacional de tráfico de crianças, que raptava meninos e meninas em países pobres para vendê-los a casais sem filhos nos países ricos. Não sei porque meu pai ficou zangado. Que tráfico internacional de crianças que nada!  Já falei para sua mãe não deixar você ver esses programas de mundo cão na TV. Arrasta-criança simplesmente some com as crianças que não obedecem aos pais; crianças que nunca mais verão os pais; muito cuidado, portanto!

Estremeci. Deus me defenda!

 

III

 

Meu pai disse que era praticamente impossível prender o Arrasta-criança e a mulher dele. Os dois estavam protegidos por um sortilégio que os distanciava dos braços da lei. Porém,  havia uma maneira, apenas uma, de descobrir o paradeiro do temível casal. Através do sonho de uma criança, pura e obediente, um anjo revelaria o esconderijo da dupla. Aí, sim, todas as crianças raptadas poderiam ser resgatadas, incólumes. Meu pai assegurou que esta criança poderia ser eu, caso fosse boazinha e obediente, estudasse direitinho, fizesse corretamente os meus deveres, comesse sem reclamar, rezasse antes de dormir, e cumprisse, sem pestanejar, as suas ordens e as de mamãe; que fosse, enfim, uma boa menina.

Como meu pai sabia que um anjo poderia revelar a uma criança o esconderijo do Arrasta-criança? Sei lá! Sei apenas que meu pai era muito sabido e, por isso mesmo, sabia de muitas coisas. Fiz um grande esforço para não contrariar meus pais. Passei a lhes obedecer ao primeiro chamado; me apliquei nas lições; já não deixava meu quarto bagunçado como antes (bonecas e brinquedos por todos os lados e a cama desfeita); nem chorava mais para tomar banho e escovar os dentes. Rezava quando ia me deitar e, antes de pegar no sono, me concentrava para merecer o sonho com o anjo. Antes do sono me vencer de vez, já me via famosa, nos jornais e na TV, como a menina que levara a polícia ao casal de bandidos e salvara as crianças, já devolvidas, alegres e chorosas, aos pais, chorosos e alegres.

Contudo, por mais que eu me esforçasse, por mais que me fizesse boazinha e obediente, não conseguia sonhar com o anjo. Sonhava, sim,  coisas banais, num piquenique na praia; brigando com um coleguinha de escola; correndo na chuva; montando cavalo; caindo da bicicleta ou tinha pesadelos com vampiros, cobras e outros bichos malvados que me faziam acordar assustada e aliviada. Oba, foi só um pesadelo! Um sonho ruim. Já passou. Nada de anjo. Nada de Arrasta-criança. Nada de Maltrata-criança. Muitos menos os dois juntos em seu esconderijo, rodeados por crianças famintas e amedrontadas…

Foi então que comecei a desconfiar que não existia nenhum Arrasta-criança e muitos menos uma Maltrata-criança; que os dois eram invenção de meu pai para me tornar dócil e obediente. Um dia, tomei coragem e perguntei:

– Ò, meu pai…

– Hã?

– O Arrasta-criança existe de verdade?

Meu pai estava de costas e, lentamente, se virou. Tomei um choque.

– Eeeexiiisteee…

Na boca de meu pai, pica-pau medonho, havia um enorme dente em forma de triângulo, que modificava seu timbre de voz; antes normal e cristalino, naquele instante roufenho e arrastado:

– Claaarrooo quueee eeexiiiste ….

 

IV

Ainda hoje, muitos anos depois (meu pai já arrastado pela poeira da eternidade), tenho medo do Arrasta-criança.

 

 

 

 

 

 

 

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