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ENTREVISTA COM RILKE março 25, 2015

Posted by eliesercesar in Prosa.
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(Um diálogo intertextual com a 1ª e 2ª Elegias de Duíno*)

rainer-maria-rilke1

Como o senhor exprime a angústia existencial de sua poesia?

Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos, me ouviria?

Para senhor, “Todo anjo é terrível”. Como define os anjos?

Pássaros quase mortais da alma.

Sua poesia tem a marca da transitoriedade e da volatilidade da vida. No final, o que fica para o homem?

Resta-nos, quem sabe,

a árvore de alguma colina, que podemos rever

cada dia; resta-nos a rua de ontem,

e o apego cotidiano de algum hábito

que se afeiçoou a nós e permaneceu.

O que é a beleza, para senhor?

Pois que é Belo

senão o grau do Terrível que ainda suportamos

e que admiramos porque, impassível, desdenha

destruir-nos?

A morte é a mesma para todos?

Será mais leve para os que se amam?

O que diria a um suicida em potencial?

Si, as primaveras precisam de ti.

Muitas estrelas queriam ser percebidas.

O que dizer, então, da morte do herói?

O herói permanece, sua queda

mesma foi um pretexto para ser – nascimento supremo.

O senhor acredita na paixão amorosa?

Não é tempo daqueles que amam liberta-se

do objeto amado e superá-lo, frementes?

Por quê?

Assim a flecha ultrapassa a corda, para ser no voo

mais do que ela mesma.

Como encara a proximidade da morte?

É estranho, sem dúvida, não habitar mais a terra,

abandonar os hábitos apenas aprendidos,

às rosas e outras coisas singularmente promissoras

não atribuir mais o sentido do vir-a-ser humano;

oque se era, entre mãos trêmulas, medrosas,

não mais o ser; abandonar até mesmo o próprio nome

como se abandona um brinquedo partido.

O que teria a dizer à uma mãe que perdeu um filho jovem?

Os mortos precoces não precisam de nós, eles

que se desabituam do terrestre, docemente,

como de suave seio maternal. Mas nós,

ávidos de grandes mistérios, nós que tantas vezes

só através da dor atingimos a feliz transformação, sem eles

poderíamos ser?

A fugacidade da existência incomoda?

O sentir em nós, ai, é o dissipar-se –

exalamos nosso ser; e de uma outra ardência

nos desvanecemos.

[…] Inutilmente procuram nos reter. Evolamos.

[…] Olhai, as árvores são; as

casas resistem. Somente nós passamos,

permuta aérea, em face de tudo.

De que maneira o homem tem  consciência de seu lugar no cosmo, poeira de pó entre as estrelas?

Às vezes minhas mãos se reconhecem ou

meu rosto gasto nelas tenta se abrigar.

Isto me dá uma certa consciência de mim mesmo.

Quem, no entanto, por tão pouco ousaria ser?

Fosse Prometeu acorrentado na rocha à espera que a águia viesse novamente comer-lhe o fígado, o que desejaria?

Ah, encontrássemos também nós,

uma estreita faixa de terra fértil, puramente

humana, entre a torrente e a rocha!

* A métrica dos poemas obedeceu a disposição da 2ª edição de Elegias de Duino, de Rainer Maria Rilke, publicada pela Editora Globo, em 1976, com tradução e comentários de Doa Ferreira da Silva.

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