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MEMÓRIAS DAS TREVAS – Em Crônicas das Prisões e do Exílio, o ex-guerrilheiro Araken Vaz Galvão escreve suas memórias do cárcere. março 28, 2015

Posted by eliesercesar in Reportagem, Resenhas.
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O cronista sertanejo deixa, por ora, o território mítico do sertão da Bahia para direcionar sua pena para uma outra saga que, como o sol da caatinga, ainda resplandece calcinante na memória de milhões de brasileiros: a ação de homens e mulheres que, como ele próprio, combateram a ditadura militar (1964-1985) e, por isso, foram presos, torturados, muitos mortos e inúmeros exilados. Autor de romances com forte conotação autobiográfica, como Crônica de uma família sertaneja (2004) e Saga de um menino do sertão (2013), o escritor Araken Vaz Galvão, residente em Valença, no baixo-sul da Bahia,  acaba de enriquecer a literatura sobre o golpe militar que derrubou o Presidente João Goulart, com o livro Crônicas das Prisões e do Exílio, publicado pela Edições Alba (Assembleia Legislativa da Bahia), em boa hora, pois, num momento em que as carpideiras do golpe de 64 – ou que restaram delas – pregam a volta dos militares.

Prestes a completar 80 anos de idade (em 2016), Araken Vaz Galvão fala com autoridade de cátedra de uma página que o Brasil só não quer definitivamente fechada porque muitos dos que prenderam, mataram e torturam nos porões da ditadura ainda gozam de impunidade, ancorados numa lei de anistia costurada mais proteger os criminosos do que para garantir a participação política dos exilados e daqueles que viviam na clandestinidade.  Como muitos jovens de sua geração, Araken viveu no olho do furacão daqueles anos 1960 e 1970, e por pouco, para empregar a imagem de um poema de Brecht, escapou da crista da maré em que muitos companheiros se afogaram.

Em 1956, aos 20 anos de idade, ele já era sargento do exército. No Governo Jango foi um dos líderes do Movimento dos Sargentos, utilizado pelos militares do golpe como pretexto  para denunciar a indisciplina e a quebra de hierarquia. Com a tomada do poder em 1964, Araken  desertou, foi expulso do exército como subversivo e passou a atuar na clandestinidade. Daí, para a luta armada foi um passo, com passagem pela Guerrilha do Caparaó, na divisa de Minas Gerais com o Espírito Santo. Da luta armada para as prisões, foi apenas uma consequência previsível. No livro de memórias, o ex-sargento e agora escritor faz um balanço dos anos de clandestinidade:

Com o golpe de 64, passei à clandestinidade e nela comecei a conspirar para derrubar a ditadura; fui preso em Porto Alegre, permaneci quase um ano na prisão, saí, fui para o Uruguai para tratar da saúde e continuar conspirando. Voltei a ajudei a organizar a Guerrilha do Caparaó, fui novamente preso, depois de uma peregrinação pelas prisões de Juiz de Fora; com passagem por outras prisões – PE de Porto Alegre, PE do Rio e da Fortaleza de Santa Cruz, no Rio, até que fugi e me asilei na Embaixada do Uruguai, então no Rio.

Araken logrou empreender uma das raras fugas da Fortaleza de Santa Cruz, “fabulosa construção militar”, em Niterói, para onde fora transferido, atendendo a um pedido próprio, a fim de cumprir os 13 anos (11 de prisão e mais dois de medida de segurança) a que fora condenado, em primeira instância, em Juiz de Fora (MG).  Antes dele, uns poucos militares haviam conseguido semelhante proeza, mesmo assim com a cumplicidade de carcereiros. O ex-sargento, que sonhava  ser advogado e não escritor, foi o segundo a conseguir fugir por conta própria:

Depois soube que, com exceções dos militares ou maçons a quem os próprios guardiões deram fuga, somente um patriota fugira dali por seus próprios meios, um tenente – cujo nome nunca soube -, que fugira a nado em uma noite estrelada de verão.

A fuga de Araken nada teve do glamour cinematográfico do personagem de Steve McQueen escapando da Ilha do Diabo, no filme Papillon, ou de Clint Eastwood se evadindo a prisão de segurança máxima em Fuga de Alcatraz. Foi até bisonha. Decorrente de um descuido (ou teria sido cumplicidade como no caso dos citados militares?). Escoltado por um sargento como ele, para fazer exames num Policlínica do Rio de Janeiro, o preso pediu para ir ao sanitário, aproveitou um cochilo da vigilância e ganhou as ruas e a liberdade.

TRIBUTO À AMIZADE

Araken Vaz Galvão: "A ditadura não foi derrubada, derrotou-se".

Araken Vaz Galvão: “A ditadura não foi derrubada, derrotou-se”.

Além de uma crônica do arbítrio e da violência política, o livro de memórias de Araken Vaz Galvão é também um tributo à amizade. Como o predecessor ilustre no gênero, Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, Crônicas das Prisões e do Exílio está cheio de referências a pessoas conhecidas e à gente do povo que Araken conheceu na cadeia e em seus anos de clandestinidade. Aparecem no livro nomes como Darcy Ribeiro, um dos últimos auxiliares de Jango a deixar o Brasil logo após o golpe, o editor Ênio Silveira, Eder Sader, Marco-Aurélio Garcia, assessor especial dos últimos governos do PT e sua mulher à época, Elizabete Souza, o historiador Muniz Bandeira, de quem o autor guarda uma recordação pouca lisonjeira, e companheiros de prisão, como Marcos Medeiros, Nilo da Silveira e até (fora do cárcere) o fotógrafo Sebastião Salgado, a quem Araken serviu de guia em Lima,  capital do Peru, nos finais dos anos 70 do século passado.

De Ênio Silveira, “sempre com um belo cachimbo na boca e vestido com paletó esporte – de um tecido conhecido nos meios elegantes pelo terno inglês tweed -, com gravata, meias e sapato combinado”, Araken reserva um episódio anedótico. Em um dos muitos interrogatórios a que fora submetido pela polícia política do regime militar, Ênio dissera, em tom de galhofa, mas levado a sério pelos energúmenos de farda, que divergira com o sogro, então proprietário da Companhia Editora Nacional, “por uma questão de sexo”. Foi o bastante para que se pusessem em dúvida a sexualidade de Ênio. Mas tarde, o próprio editor explicaria: tratava-se de uma discordância sobre a conveniência de se publicar ou não o livro Lolita, de Vladimir Nabakov, então considerado maldito por relatar a obsessão de um homem maduro por uma ninfeta. Ênio queria publicá-lo. O sogro, não. Resultado, o genro deixou a editora do sogro para fundar a legendária Civilização Brasileira.

Companheiro da Fortaleza de Santa Cruz, o antropólogo e escritor Darcy Ribeiro é retratado “sempre lendo e fazendo anotações”. No momento em que saia para a fuga, Araken Vaz Galvão encontra Darcy na sua ocupação favorita, lendo e fazendo anotações, se dirige a ele e diz: Adeus, professor! Muitos anos depois, conta o ex-guerrilheiro e escritor, em seu livro de memórias:

Ele levantou as vistas do seu inseparável livro, quiçá um pouco assustado com o tom elevado e determinado de minha voz, e depois de um pequeno silêncio interrogativo, levantou a mão acenando-me, e respondeu:

– Tchau!

Nunca mais voltei a encontrar-me com ele, a última pessoa com quem falei na prisão, antes de minha fuga.

Em suas memórias, Araken Vaz Galvão fala também dos anos de exílio em Montevidéu, onde conspirou com outros exilados, a exemplo de Leonel Brizola,  das primeiras leituras, já homem feito (Jorge Amado, José Lins do Rego e Érico Veríssimo), de suas cinco “bibliotecas”, organizadas ao longo de 44 anos e perdidas, “seja por confisco da ditadura militar, por abandono, fugindo dessa mesma ditadura”, ou porque suas ex-mulheres (atentem que o guerrilheiro lutava “sem perder a ternura jamais”)  destinaram os livros ao primeiro sebo que encontraram.

Embora trate de temas dolorosos, o livro de Araken Vaz Galvão não guarda rancor ou ressentimento. Conta apenas o que aconteceu durante uma “página infeliz da nossa história”, como a define a canção de Chico Buarque. Até porque a obrigação do escritor é contar, contar a vida que vivemos, que não é outra “senão a que nos mata”, como diz outro escritor, o paraguaio Augusto Roa Bastas, autor do clássico Eu o Supremo, citado por Araken Vaz Galvão.  E a vida relatada nas memórias de Araken  não é outra senão aquela que matou os sonhos de liberdade de toda uma geração brasileiros, como o sertanejo Araken Vaz Galvão, que resistiu bravamente, como um umbuzeiro na seca.

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Comentários»

1. Dinorah Rubim - março 30, 2015

Araken, mestre que tenho a honra de chamar de amigo, como esperei esse presente pra História: você escrever suas memórias do cárcere e do exílio. Só tenho a agradecer! Estou ansiosa para adquirir o livro. Parabéns!

2. Alfredo Gonçalves de Lima Neto - abril 1, 2015

O Escritor e amigo Araken Vaz Galvão Sampaio guarda em sua pena toda luz daqueles que, como ele, construíram a história de nosso país com as tintas da resistência. Dono de memória pródiga e domínio na arte da escrita, lega-nos suas vivências dos tempos do arbítrio como se conversasse ombro a ombro conosco, relatando-as fielmente tal e qual, hoje lhes vem a tona. Envolvente, límpidas e decididamente, com o espírito de quem as escreveu com o próprio sangue e lágrimas. Mais um livro de sua lavra com a rica experiência com a qual construiu a sua vida. Parabéns!
Alfredo Gonçalves de Lima Neto

3. Ismael Soares - agosto 11, 2015

Araken Vaz Galvão, escritor e ex-sargento, o qual tive a honra de ser seu soldado lá nos idos de 1962, um pouco antes do “tempo infeliz da nossa história”. Orgulho-me de ser um dos poucos ou única testemunha viva que conheceu e compartilhou dias de caserna com o jovem e literário militar. Meu fraternal abraço!
Ismael Soares

eliesercesar - agosto 12, 2015

Oi Soldado velho, como vai? Obrigado por suas palavras. Eu, as vésperas de fazer 80 anos.
Nunca pensei que chegaria a este ponto. Principalmente por ter vivido perigosamente, porém
com orgulho por ter conhecido pessoas como você.
Abraços

4. Carlos Ribeiro - agosto 20, 2015

Ótima resenha – o que não é novidade – de Elieser Cesar sobre o nosso intrépido escritor ex-guerrilheiro sertanejo Araken Vaz Galvão. Após a interessada e interessante leitura só me resta saber agora onde comprar o livro.

Araken Vaz Galvão - outubro 22, 2016

Carlos, meu comp dei pane e estou sem teu endereço para mandar um exemplar do meu (aliás, são dois) livro.
Abraços
Araken

5. formacaoeconexoes - outubro 16, 2015

Amigo Araka, estou curioso para rever estas memorias, algumas partilhadas em muitos caminhos e esquinas desta América


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