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À SOMBRA DO FASCISMO – Em Histórias de pobres amantes, Vasco Pratolini escreve a crônica humanitária de uma vila acossada pelos fascistas. abril 19, 2015

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Vasco Pratolini: "O mundo caminha levado por afinidades afetivas, seja no Bem como no Mal".

Vasco Pratolini: “O mundo caminha levado por afinidades afetivas, seja no Bem como no Mal”.

Há escritores que, em lugar de um determinado protagonista ou de um pequeno número de pessoas transitando na trama como núcleo secundário, elege uma cidade ou uma determinada localidade como enfoque principal, fazendo de sua gente o personagem coletivo. O espanhol Camilo José Cela é um deles, com o romance A colmeia, um retrato da Madri de sua época, com vários tipos humanos gravitando em torno dela como um enxame de abelhas. O italiano Vasco Pratolini (1913-1991) é outro.

Em Histórias de pobres amantes (Abril Cultural, 1983, coleção Grandes sucessos), fiel ao credo comunista, Pratolini faz dos moradores da Via del Corno, na Florença de Dante Alighieri, um amontoado de abelhas se alimentando da colmeia da vida e alimentando seu casulo agridoce. São ferreiros, sapateiros, tipógrafos, feirantes, vendedores ambulantes, empregadas domésticas prostitutas e ladrões que vivem na Florença da década de 20 no apogeu do fascismo. Fascistas (pretos) e comunistas (vermelhos) se digladiam em meio à miséria humana e a esperança redentora de uma classe oprimida que ainda não perdeu a confiança no futuro, tema caro à chamada literatura engajada de esquerda (o romance foi publicado em 1947).

História de pobres amantes é um vigoroso painel de costumes, uma aquarela de tipos humanos universais, um mosaico sociológico de uma Itália que caminhava para um dos períodos mais sombrios de sua história, a ascensão do fascismo que desaguaria, anos depois, na aliança de Benito Mussolini com nazismo de Adolf Hitler. As figuras humanas do romance parecem saídas do cotidiano de uma vila caótica e fumegante, de uma colmeia em plena ebulição, com as abelhas zanzando, para lá e para cá, em busca de um mel que, na maioria dos casos, não passa do fel amargo da existência, uma vez que “a felicidade é como o círio no altar: consome-se antes que a promessa se cumpra”.

Há personagens marcantes como o ferreiro Maciste, comunista convicto, centauro metálico pilotando sua motocicleta numa madrugada sangrenta a caminho da morte pelas mãos dos fascistas, “os estafetas da morte”.  O correto Mario e a doce Gesuina; os sonhadores Ugo e Milena, tentando preservar o amor à sombra do fascismo. O pusilânime Osvaldo, joguete no covil dos fascistas, como Carlino, o mais perigoso de todos eles.  E um elenco de mulheres, Margherita, Bianca, Liliana, Aurora e Elisa e outras, casadas e solteiras, velhas e novas, todas embaladas numa atmosfera de resignação e fantasia. Todos vivendo da observação da vida alheia, do fuxico e da fofoca, já que “o mexerico é o alimento da miséria”. Mas também da solidariedade de classe, pois, ao seu modo, ainda que amedrontada, Via del Corno resiste ao fascismo, como resistiu Maciste, o mártir da comunidade.

ESFINGE NA JANELA

Capa

E, por último a Senhora, única proprietária de Via del Corno, que engendra o plano mesquinho de despejar todos os cornacchiai, como são chamados os moradores de Via del Corno. Senhora, que fora bela e conquistara os homens que desejara e, depois, já gasta pela velhice, consegue resgatar todos os retratos da juventude para que não restasse nenhuma sombra da antiga beleza. Senhora, sem nome, apenas o reverencial Senhora,   que, tomada de ojeriza pelo sexo oposto, trava uma luta sem trégua contra todos os homens de Via del Corono,  e passa  a seduzir as jovens pobres; “um ser insensível, uma criatura que se colocou à frente do universo” e “dirigiu a vida segundo os humores e interesse pessoal, incapaz de objetivar erros ou razões , quando alguma coisa ou alguém atravessa seu caminho”.

A mesma Senhora, que depois se sofrer um AVC, arrasta sua agonia como uma “esfinge imobilizada à janela, com a peruca de um lado, manhosa e louca”, de onde se dedica a cuspir nos passantes e jogar – num divertimento senil e inocente – bolhas de sabão para a alegria e o deboche das crianças.

É neste cenário de misérias humanas que os cornacchiai resistem à dureza da vida, com aquela resignação estoica da pobreza, pois, “somente quem não tem passado pode demorar-se na ilusão da felicidade” e, “quem tem história atrás de si, deve continuamente queimar detritos, acumular cinzas em seu caminho”.

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Comentários»

1. Araken Vaz Galvão - abril 20, 2015

Puxa, Elieser, que belo texto. Veio-me um desejo grande de ler novamente este belo livro. você, além de contista e poeta brilhante, é também um excelente resenhista.
Abraços

eliesercesar - abril 21, 2015

Valeu, Araken. Estou aguardando os textos.

Elieser Cesar

Date: Mon, 20 Apr 2015 13:52:54 +0000 To: eliesercesar@hotmail.com

2. Iva Maria Oliveira Vianna - abril 21, 2015

Que verdade! EM POETA,E ESCRITOR ELIÉSER CÉSAR.PARABÉNS.DEVE SER BEM INTERESSANTE,DESPERTOU-ME VONTADE DE LER! ESSE LIVRO.
HISTÓRIAS DE POBRES AMANTES!

3. Iva Maria Oliveira Vianna - maio 11, 2015

ainda não encontrei o livro deHISTóRIAS DE Pobres Amantes
grata Iva Vianna.

eliesercesar - maio 11, 2015

Você só vai encontrar em sebos, na coleção Grandes sucesso, da Abril, e bem barato.

Elieser Cesar

Date: Mon, 11 May 2015 22:55:22 +0000 To: eliesercesar@hotmail.com


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