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CABRA MARCADO PARA MORRER – Em O homem que amava os cachorros, Leonardo Padura relata a perseguição e a morte de Leon Trótski. junho 13, 2015

Posted by eliesercesar in Sem categoria.
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Trótski viveu com a sombra da morte atrás  em seu encalço.

Trótski viveu com a sombra da morte  em seu encalço.

Nenhum homem foi mais perseguido nos anos 30 do século passado do que Leon Davidovitch Bronstein, ou simplesmente Leon Trótski (1879-1940). Líder da Revolução Russa e criador do Exército Vermelho, Trótski foi banido da União Soviética, amargou o exílio na Turquia, França e Noruega, até ser assassinado, em 21 de agosto de 1940, em Coyoácan, no México, por um agente da polícia política soviética, a mando de Josef Stalin, a quem chamava de “O Coveiro da Revolução”. Antes, por decisão do homem que governou a União Soviética como mão-de-ferro até a sua morte, em 1953, Trótski já havia perdido a cidadania soviética, justamente do Estado que ajudara a fundar com Vladmir Lênin e outros bolcheviques, e ao qual defendeu tenazmente, como comandante do Exército Vermelho, durante a guerra civil  (1918-1921)  com os contrarrevolucionários,

Além de Trótski (nome tomado de empréstimo do carcereiro de uma das primeiras prisões a que fora confinado), Stalin perseguiu toda a família do comunista em desgraça, como os filhos Liova e Serioja, o primeiro morto em circunstâncias estranhas (ao que tudo indica envenenado, na França), o segundo tombado num dos campos de prisioneiros da antiga URSS, os famosos gullags. Na propaganda stalinista, Leon Trótski foi apresentado como agente do imperialismo, pago pela Alemanha e outras potências ocidentais para desestabilizar, sabotar e minar a primeira república comunista do mundo, a fim de restabelecer o capitalismo. Era uma ardilosa calúnia para colocar os Partidos Comunistas do mundo todo, satélites de Moscou, contra o inimigo comum, já que Trótski pregava a “revolução permanente” e o “internacionalismo proletário”, boicotados pelo próprio Stalin.

Devido à esta campanha orquestrada sem tréguas, Trótski viveu os últimos anos de vida como um renegado, uma apátrida, um pária, um herege recusado por diversos países, inclusive pelos Estados Unidos do Presidente Roosevelt,  pelo perigo que suas ideias representavam para a ordem burguesa. Talvez por isso, gostasse de se comparar ao personagem  Dr. Stockmann,  do drama Um inimigo do povo, do norueguês Henrik Ibsen, autor que admirava.

Não descansou um minuto. Através de conferências (cada vez mais escassas), livros e artigos para jornais denunciou os crimes Stalin, como os expurgos dos anos 30, os chamados “Processos de Moscou”, farsas pelas quais o ditador soviético exterminou toda a velha guarda bolchevique e também a antiga oficialidade do Exército Vermelho. Para Trótski, com o extermínio dos velhos bolcheviques, Stalin tentava apagar a história da revolução e, com a morte de seus cupinchas, como Iagoda e Yakov, chefes da temida polícia política, encobrir sua participação no massacre, como se o terror houvesse fugido ao seu controle onipresente. Portanto, não é de se estranhar a premonição de Lênin que, em seu testamento, pediu que Stalin fosse afastado do secretariado do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), o mesmo Lênin que, numa metáfora célebre, disse que Stalin era um cozinheiro que só preparava pratos quentes.

Polemista temido, culto e apreciador da literatura, Trótski sabia que estava marcado para morrer e que, seria morto tão logo deixasse de ser útil à propaganda de Stalin, que necessitava de um inimigo forte para se fortalecer internamente  na União Soviética e eliminar, um a um, adversários e colaboradores, como terminou acontecendo, enfeixando com isso poderes dignos de Czar vermelho.

NOIR HISTÓRICO

Livro de Padura

O martírio Leon Trótski, o retrato minucioso de seu assassino, Ramón Mercader, e a derrocada da maior utopia revolucionária do século XX, são resgatados pelo cubano Leonardo Padura no romance O homem que amava os cachorros. O título remete tanto a Ramón Mercader que, no livro, aparece junto a dois galgos russos numa praia de Havana, mas também pode ser aplicado a Trótski que também amava os cachorros. Mercader era   um agente da NKVD, o Comissariado do Povo para Assuntos Internos, a  temida e implacável polícia política soviética, antes Tcheka, depois GPU e, por último KGB.

O romance de Padura, autor celebrado por histórias policiais, peca por um certo esquematismo pedagógico, um didatismo  difícil de ser evitado pela maioria dos autores da  ficção que caminha passo a passo com a história. Procedimento até compreensível, já que , hoje em dia, poucos leitores estão a par de assuntos e personagens reais retratados no livro, como os descaminhos da revolução soviética,  suas lutas fratricidas e intestinas; a divisão interna que resultou na derrota dos milicianos pelos falangistas na Guerra Civil Espanhola e de nomes como Natália Sedova, a solidária e fiel  esposa de Trótski,   Frida Khalo (mulher do pintor mexicano Diego Rivera), com quem o exilado manteve um romance outonal, Górki, o romancista que capitulou diante do tirano,  Kamenev, Zinoviev, Bukharin, Kirov, Radek e tantos outros comunistas assassinados a mando de Josef Stalin. Daí compreensível a necessidade de explicar e contextualizar os fatos como numa aula de história.

Porém, as quase 600 páginas do romance de Padura podem ser lidas como um romance policial, um thriller de ação, um noir histórico, já que lança uma sombra escura sobre os escombros de um sonho que virou pesadelo, uma pretensa sociedade de novos homens, temperados na igualdade, na liberdade e na fraternidade, como quis a Revolução Francesa, também esfacelada pela reação termidoriana.  E, na verdade, também se trata de uma história policial e das boas: o cerco que se fecha sobre  um único homem, inapelável e inevitável como o destino do herói da tragédia grega. É assim mesmo que, no final da vida, Leon Trótski se sentia: personagem real de tragédia grega (Édipo em Moscou?), como salienta Leonardo Padura:

O ódio de Stalin, transformado em razão de Estado, tinha posto em marcha a mais potente engrenagem de marginalização jamais dirigida contra um indivíduo solitário. Mais ainda, tinha se entronizado como estratégia universal do comunismo, controlado a partir de Moscou, e até como política editorial de dezenas de jornais. Por isso, engolindo os vestígios de seu orgulho, teve que admitir que, enquanto no Kremiln não decidissem quando a sua vida deixaria de ser útil, manteriam-no preso num ostracismo inflexível justamente até se decretar a queda do pano e o fim da palhaçada. E, pela primeira vez, atreveu-se a pensar em sua vida em termos de tragédia: a clássica, a grega, sem oportunidade para apelações.

Como se pode depreender deste trecho, a simpatia por Trótski é patente. A condenação a Stalin, inevitável, uma vez que o Grande Líder dos Povos é  acusado de ter matado 20 milhões de pessoas, entre a coletivização forçado no campo, os campos de prisioneiros e o fuzilamento de antigos camaradas. Contudo, Leonardo Padura escapa do maniqueísmo historicista, ao humanizar o retrato do assassino.  Recrutado entre os milicianos espanhóis, treinado na severa escola de agentes e espiões soviéticos, até a despersonalização quase completa, com a finalidade de matar Trótski, Ramón Mercader, ou Jacques Mornard, o falso bon vivant belga que assassinou o líder comunista, é apresentado como um joguete em meio a forças poderosas e obscuras; um títere que se acreditava escolhido pela mão da história para acabar com um inimigo da revolução e do Estado soviético. Portanto, um personagem complexo e ambivalente, ao invés de um simples pau mandado do stalinismo.

Ramón Mercader foi um stalinista convicto e cego, como o foram milhões de comunistas mundo a fora, inclusive no Brasil, até (os mais recalcitrantes até depois) das denúncias dos crimes de Stalin, feitas por seu sucessor, Nikita Kruschev, durante o XX Congresso do PCUS, em 1956, três anos após a morte do ditador. Ramón Mercader é também uma vítima das mentiras e da cegueira de uma época. Empunhando a picareta de alpinista que desferiu o golpe fatal na cabeça do velho revolucionário, Mercader é, de fato, um frio assassino teleguiado pelo Kremlin, mas muitos outros comunistas teriam se oferecido para fazer o mesmo, convictos de que, com o assassinato, estariam salvando a pátria da revolução  e prestando um enorme serviço ao socialismo e, não, como a história demonstraria mais tarde, à ambição de um único homem, ao livrar-lhe de seu pior inimigo.

Para contar essa emaranhada trama da história, Leonardo Padura introduz um terceiro personagem: um escritor frustrado que conhece Ramón Mercader numa praia de Havana, depois que o assassino de Trótski cumpre, no México, a pena de 20 anos de prisão, e se muda para União Soviética, onde – pelo menos é o que sugere o romance, como toda boa história policial – teria sido envenenado por uma substância radioativa, num mirabolante enredo de verdades e mentiras, como é permitido à ficção. Soa gratuito, no final, a imolação do narrador, que resolve não publicar a história que lhe chegou às mãos pelo homem que amava os cachorros.

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Comentários»

1. Araken Vaz Galvão - junho 13, 2015

Erudito e perspicaz, Elieser Cesar nos brinda com uma brilhante resenha sobre a obra do escritor cubano, Leonardo Padura, “O Homem que Amava os Cachorros”, um levantamento – entre o ficcional e o biográfico – sobre o assassinato de Leon Trótski, onde também é retratado o período dificílimo pelo qual passou o povo cubano depois do desmoronamento da União Soviética. O livro de Padura foi um grande êxito editorial, por uma destas razões que não se sabe muito bem qual, não que não seja uma bela obra, mas porque livros como a trilogia: O Profeta Armado, O Profeta Desarmado e o Profeta Banido, de Isaac Deutscher e A Segunda Morte de Ramon Mercader, de Jorge Semprun, sobre o mesmo assunto (mas não obrigatoriamente analisado sobre o mesmo prisma) não foram tão festejados.
Ao realçar com a maestria de sempre a forma como a obra de Padura é escrita Elieser Cesar nos convida a uma mais acurada reflexão sobre um dos temas mais candentes do século XX; a Revolução de 17.


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