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CLANGOR DE FERROS NA NOITE julho 4, 2015

Posted by eliesercesar in Contos.
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Ferros

Logo amanhecerá e um de nós dois não verá a luz do novo dia. Ou, talvez, ambos. Ele está bem próximo, atrás da pilastra, à minha espreita. Quase posso ouvir-lhe a respiração, contida pela ansiedade ou, quem sabe, pelo mesmo medo que se apossa de mim, agora; um medo irreprimível e atávico, misturado à coragem forçada de quem não pode deter o inevitável; ancestral como o primeiro combate travado pelo homem fora da caverna. A qualquer momento, ele deixará o esconderijo, e eu a proteção provisória desta coluna, para o combate sem trégua mediado pela neutra madrugada. Não sei  porque diabos temos que nos matar um ao outro? Que lei intransigente determina que devemos nos matar? Em nome de que regra, em obediência a que código de honra temos que abandonar nossa precária proteção para o duelo de feras que exige o sacrifício de pelo menos um dos lutadores? Pensando bem, não tenho ódio do inimigo e, para ser sincero, sequer o considero inimigo. A vida, com suas exigências absurdas e suas contingências inelutáveis, simplesmente nos colocou em trincheiras opostas, e só nos cabe dar prosseguimento à uma peleja que, se não tiver fim, como não vem tendo há muitos anos, ninguém saberá quem começou, quem tem razão, se é que algum lado tem razão,  depois de tanta fúria desarrazoada; quem morreu inocente e quem tombou com as mãos mais manchadas de sangue. Não sei como consigo pensar em tudo isso, num momento de concentração extrema,  em que os  nervos são como fios descapados,  faíscas  prontas a provocar incêndio. Deveria estar concentrado como um lutador de boxe no último e decisivo round, ou um samurai esperando o corte;, mas não consigo evitar os pensamentos, como se, nessas hora crucial,  a roda da vida girasse numa sucessão de recordações marcantes e também sem nenhum relevo. Mas, como eu ia dizendo, sequer o considero inimigo, e, se inimigo tem que ser, é um desses inimigos sem rosto, sem rastro de ofensa cometida, sem o rancor multiplicado pelos dias.

Até poderíamos ter sido amigos. Soube que temos o mesmo gosto pela leve embriaguez do vinho, pelas mulheres robustas e pelo jogo de futebol. Fossem outros tempos, de compreensão e paz, e não de ofensa e intolerância, quem sabe eu poderia ter desfrutado da graça e dos favores de uma das suas irmãs, na época em que eram jovens e apetitosas, mas, para os da minha raça, inacessíveis pelo sangue e pelo ódio. Ou ele se engraçado com uma das minhas irmãs, antes alegres e desejáveis, hoje carpideiras do sangue que nos une e do ódio que nos separa; todas elas (as minhas irmãs e as dele) manipuladas num tabuleiro de um xadrez plebeu e sanguinário. Sim, ele estava muito próximo, podia sentir no ar sua aproximação meticulosa e fatal. A barra de ferro, – insígnias medievais das nossas famílias – que ele esgrimia atrás da precária proteção de tijolos em posição de ataque. Fosse à luz do sol, eu poderia ver melhor a aproximação do inimigo e intuir de onde partiria o golpe inicial. Mas não poderíamos ainda ser amigos? O que me impedia de dizer-lhe: ei, vamos esquecer tudo isso; sair daqui cada um para o seu lado, para a sua família, passar uma borracha no passado; e, finalmente, viver em paz. Quem sabe ainda poderíamos sentar à mesma mesa, tomar um vinho encorpado e discutir futebol, com a naturalidade de dois amigos separados apenas pelas cores de seus times, e ainda assim somente durante os noventa minutos de um jogo decisivo?  Porque não podia ser assim? Que lei determinava que eu devia matá-lo ou ele acabar comigo, dentro    de instantes? Já não bastavam as perdas dos dois lados? Para que mais sangue derramado?  Para que se pudesse derramar mais sangue numa batalha sem vencedores? Até quando, meu Deus? A troco de quê?

Quem daria o primeiro passo no caminho da distensão, o aceno inicial rumo ao sossego e à tranquilidade, sem o receio de parecer um covarde? Não seria o ato mais corajoso depor as armas e sair do inflexível impasse como duas pessoas civilizadas que amam a vida, inclusive as promessas inexequíveis, como essa possibilidade de paz que a noite espessa jamais trará? Conheço o caráter de sua gente e ele conhece os da minha estirpe,  para saber que preferimos morrer a estender a mão ao inimigo jurado de morte. Porém, um dia, um dos nossos, ou do lado deles, teria que se recusar a prosseguir a matança que  não  começou e sequer sabia quem havia começado. De que lado, não importa. Importa o gesto capaz de deter a faca, o machado ou, como agora acontece, as barras de ferro em sua insana viagem entre o crânio fendido e a morte sem glória. Contudo, esse arauto da paz não podia ser nenhum de nós dois, a poucos metros do desenlace repetitivo e letal de nossas famílias. Muito menos, neste instante, em que vejo, sorrateira e cautelosa, a sombra assassina que se aproxima. Ei-lo, ei-lo, ali! Considero a aproximação do inimigo e, decidido, sem medo ou coragem, como se impulsionado por uma vontade mecânica, empunhando a barra de ferro à altura da cabeça, salto para o espaço vazio que nos aguarda, a mim e a ele, desesperados pelo amanhecer; o mesmo amanhecer que um de nós dois jamais verá.

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Comentários»

1. Alfredo Gonçalves de Lima Neto - julho 6, 2015

Mais um belíssimo conto de Elieser. Os minutos que antecedem ao embate de morte entre dois homens estigmatizados a cumprir o destino que os une e ao mesmo tempo os separa. A tênue linha que os delimita. Suas dúvidas, suas esperanças, seus desígnios. Pura literatura!!!
Bravo.
Alfredo Gonçalves

eliesercesar - julho 6, 2015

Valeu, Alfredo. Esqueci de falar da outra vez: me diverti muito com o hilariante A moquequeira do Baixo Sul, digno de integrar o melhor cardápio de baianas nas letras. Abraço

Elieser Cesar

Date: Mon, 6 Jul 2015 13:07:07 +0000 To: eliesercesar@hotmail.com

2. Iva Maria Oliveira Vianna - julho 9, 2015

ÓtimO conto,DE ÉLIESER.PARABÉNS.
GRATA IVA VIANNA.


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