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CONTO: A DIFÍCIL ARTE DA BREVIDADE julho 10, 2015

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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(Apresentação do livro As cabeças do Doutor Satamini, de Juca Badaró).

capa-satamini1

Entre o romance, a poesia e o conto, a chamada short story dos norte-americanos que legou mestres como Edgar Allan Poe, Sherwood Anderson, Thomas Wolfe, O. Henry e Ernest Hemingway, dentre outros, é o gênero que oferece mais liberdade ao escritor. É o mais livre porque não tem a ambição totalizadora do romance, com seu mundo fechado em que se pretende contar tudo (ou quase tudo) e os personagens, muitas vezes, se imbricam em enredos paralelos; e porque escapa à limitação espacial e métrica da poesia. O bom conto é, por essência, uma história em aberto, que não se completa integralmente, mas sugere outras saídas ao leitor. Daí a sua alada liberdade.

Mas, não pensem que por ser breve o conto é um gênero fácil, receita para escribas amadores, treinamento para futuros romancistas e laboratório para a prosa objetiva. Ao contrário, justamente na brevidade está a sua maior dificuldade e também sua armadilha. Tanto que muitos bons romancistas já quebraram a cara no conto. Um dos maiores contistas de todos os tempos, o russo Anton Pavlovitch Tchekhov já advertia: “A concisão é a irmã do talento”.  E a concisão – acompanhada da linguagem simples, fluente, objetiva e refratária a todo tipo de atavios verbais e salamaleques retóricos – é de difícil conquista. Por isso mesmo, a irmão (predileta, acrescentaríamos) do talento, como definiu Tchekhov.

Quando nos deparamos com um estilo conciso e simples, como o de José J. Veiga, por exemplo, não pensem que tal concisão e igual simplicidade foram fáceis de conquistar. Fácil é a enganosa complexidade dos truques verbais e dos cacoetes semânticos. Difícil, em sua luminosa simplicidade, o estilo solto, leve, alado, como o de quem escreve com uma pluma e não com um tacape; como o de quem, descontraído, conversa com um amigo.

A dificuldade maior do conto é que, pela sua intrínseca brevidade, ele não permite deslizes, pontas soltas (que no romance podem ser reatadas adiante); lapsos, frouxidões, já que este gênero literário deve ser mantido a rédeas curtas, para não sair por aí, galopando em prados que não são os dele. O conto exige um domínio total e seguro do criador. Já nas primeiras linhas, como ensina o uruguaio Horacio Quiroga, na quinta lição do seu Decálogo do Perfeito Contista: “Não comece a escrever sem saber, desde a primeira palavra, aonde vais. Num conto benfeito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas”.

Acento introspectivo

cabeças

Em seu primeiro livro, As cabeças do doutor Satamini, o baiano Juca Badaró demonstra haver escapado de armadilhas do conto, gênero de difícil consecução, repetimos. São onze histórias, algumas mais curtas, outras um pouco mais longas, a maioria caracterizada pelo forte acento introspectivo do autor que examina a alma de seus personagens, como em A mulher de dentro, O homem só e Medo do porão escuro ou meses que precedem e sucedem.  Em suas histórias, Juca Badaró fala daquilo que é o assunto de todos os escritores em qualquer  latitude do planeta: o homem com seus sonhos, suas esperanças, quase sempre malbaratadas pela inelutável precariedade da vida, suas angústias; suas alegrias, seus planos para o futuro e suas dolorosas recordações. Enfim, de tudo aquilo que é a principal matéria-prima para o artista: a instável condição humana, sempre sujeita ao imprevisto e ao imponderável.

Juca Badaró é, acima de tudo, um atento observador urbano, como o personagem de Linha dois:

A demora no metrô era um convite ao meu pequeno prazer. Os minutos entre uma composição e outra na plataforma, eram mais do que suficientes para alimentar minha imaginação, interrompida apenas no momento em que as portas se abriam e todos aqueles homens e mulheres se misturavam numa das mais curiosas aglomerações humanas, onde ao menos seis pessoas se espremiam num espaço de um metro quadrado. E a convivência de seres tão distintos em suas individualidades ocultas me impressionava.

Em seis contos o autor dialoga com as artes: Tina e A serpente (pintura), O divino e maravilhoso (música), A distância de um sussurro (artes plásticas), O homem só (literatura), Às vezes me aventura em obras de ficção (outra vez, literatura) e As cabeças do doutor Satamini (escultura). O primeiro é um relato sadomasoquista e remete o leitor  ao absurdo kafkiano.  O segundo, um rito de passagem através da iniciação musical e afetiva em que, ao final, “o menino se fez homem”. Em A distância de um sussurro há uma crítica   sobre o valor artístico dessas instalações pós-modernas, tão suscetíveis a fraudes e a engodos estéticos de toda natureza, como um penico no meio do salão a pretender indicar que a vida é, ao final das contas, uma brincadeira escatológica:

[…] pensou qual seria a diferença entre um carrinho de mão utilizado pelos operários e um carrinho de mão colocado numa instalação artística? A proposta artística? A finalidade da obra de arte?

Em O homem só, um dos contos mais bem realizados do livro, encontramos um jovem escritor deslocado na vida, como um outsider (“tenho dificuldade em me relacionar com a qualquer ser humano, a menos que tenha algum tipo de admiração por ele, mínima que seja, mas se faz necessário”); um desses irmãos eletivos do Arturo Bandini, de Pergunte ao pó, de John Fante. O primeiro bispo é um relato antropofágico, com um moderno  Dom Pero Fernandes Sardinha, o primeiro bispo do Brasil que serviu de banquete aos Caetés, transplantado para a contemporaneidade. Por fim, As cabeças do doutor Satami, conto que dá nome a coletânea, gravita em torno da obsessão de um homem em relação a sete cabeças esculpidas em bronze e mármore de carrara. Talvez, o ponto alto do livro, é uma história de mistério, quase detetivesca, com final surpreendente.

Agora, retornando ao gênero deste livro: se o romance é um rio torrencial, a poesia um lago quieto e cristalino; o conto será um riacho de águas traiçoeiras, raso na borda da areia, mas profundo entre as duas margens que o delimitam. Riacho que Juca Badaró, que não se afoga nas águas turvas das  palavras, soube neste primeiro livro atravessar.

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