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LIÇÃO DE MAU JORNALISMO – Em Número Zero, Umberto Eco expõe os métodos de intimidação e chantagem da imprensa venal e arrivista.  julho 21, 2015

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Número zero

Um jornal é feito para informar da maneira mais objetiva e isenta possível, elaborando suas pautas em sintonia com o interesse público e não em consonância com  os objetivos de determinados grupos políticos e corporações empresariais. Certo? Não o jornal criado pelo filósofo, semiólogo e escritor Umberto Eco, no romance Número Zero, que acaba de ser publicado no país pela editora Record. Trata-se de um jornal que jamais será impresso, mas que em sua linha editorial se assemelha a muitos periódicos do mundo inteiro, inclusive do Brasil onde mídia, robustecida por um monopólio monolítico dos meios de comunicação, costuma atuar como partido político, com a maior desfaçatez.

O jornal do livro é criado por um grupo de redatores e repórteres, para defender os interesses de um barão da mídia, o Comendador Vimercate (Sílvio Berlusconi plasmado, para o leitor mais atento). A finalidade do periódico é chantagear, extorquir e difamar adversários e desafetos do Comendador, a fim de abrir-lhe caminho para ingressar no “clube de elite das finanças, dos bancos e, quem sabe, dos grandes jornais”. Para isso, está disposto “a dizer a verdade sobre todas as coisas”, principalmente tudo aquilo que o jornal – transformado numa  arma devastadora, veículo do arrivismo financeiro e do alpinismo social do Comendador – plantará como verdade. O projeto é simples e de fácil execução:

Doze números zero, digamos 0/1, 0/2, e assim por diante, impressos em pouquíssimos exemplares reservados que o Comendador vai avaliar e depois dará um jeito para que sejam vistos por pessoas que ele lá sabe. Quando o Comendador demonstrar que pode pôr em dificuldade aquilo que se chama de clube de elite das finanças e da política, é provável que o clube da elite lhe peça para parar com essa ideia, então ele desiste do Amanhã e consegue licença para entrar no clube de elite. Suponhamos, só para dar um exemplo, que apenas uns dois por cento de ações de um grande diário, de um banco, de um canal de televisão importante.

Para isso, em muitas latitudes, serve (ou pelo menos já serviu) boa parte dos jornais: abrir caminho para o poder e o enriquecimento rápido com a pena da chantagem do tipo “ou nos dá isso, ou publicamos aquilo”. O jornal se chamará Amanhã. O testa-de-ferro do Comendador que contrata a equipe de jornalistas para montar o periódico explica por quê:

Porque os jornais tradicionais contam, e infelizmente ainda contam, as notícias da noite anterior, e por isso se chamam Corriere dela Sera, Evening Standard ou Le Soir. Agora a gente fica sabendo das notícias do dia anterior pela televisão às oito da noite, portanto os jornais estão contando sempre as coisas que a gente já sabe, e é por isso que vendem cada vez menos. No Amanhã, essas notícias já estão fedendo como peixe podre claro que devem ser resumidas e lembradas, mas para isso basta uma nota que se leia em alguns minutos.

A estratégia toca num ponto crucial para a sobrevivência dos jornais impressos no contexto da notícia em tempo real: fugir da repetição dos noticiários da televisão e dos sites noticiosos, procurando aprofundar e interpretar o que fatos mais relevantes  já  noticiados e, sempre que possível, pautar seus desdobramentos e antecipar suas consequências. Até o público do novo jornal é escolhido estrategicamente entre a camada de leitores, digamos, mais propensa ao conservadorismo, como, por exemplo, o da revista semanal de maior circulação no Brasil: bons e honestos burgueses, com mais de cinquenta anos de idade, “que desejam a lei e a ordem, mas adoram fofocas e revelações sobre várias formas de desordem”.

A linha editorial do Amanhã é “um perfeito manual do mau jornalismo”, como o romance de Umberto Eco é definido na orelha do livro, com a precisão que faltará ao fictício jornal. Numa conversa na redação, o chefe da equipe de jornalistas sentencia, num cinismo desconcertante: “Não são as notícias que fazem os jornais, e sim o jornal que faz as notícias”. Pois, não temos, aqui, o velho costume de filtrar o que deve ser divulgado para abrir a torneira das informações que interessam a determinados grupos sociais?

Se você é um desses leitores compulsivos de jornais que acreditam numa sumidade universal chamada Opinião Pública, sempre disposta comentar tudo, como se o povo tivesse opinião própria, e não palpites emprestados de segunda mão e mal digeridos; se você é um desses leitores, então pense nessa afirmação; “Os jornais ensinam como se deve pensar”. Quantas pessoas, ao nosso redor, que jamais abriram um livro, replicam, no dia seguinte, o que assistiram nos telejornais ou leram nos jornais impressos, tartamudeando ideias alheias que, por sua vez, tampouco são originais?  Não é à toa que o mesmo jornalista diz: “As pessoas no início nãos sabem que tendências têm, depois nós lhe dizemos e elas percebem que as tinham”.

O PELICANO DA GUERRA DO GOLFO

Pelicano

A lição de mau jornalismo do romance de Umberto Eco contempla contorcionismos editoriais, como a manipulação de imagens e técnicas para contrapor o desmentido, deslize que arranha a credibilidade de qualquer jornal. Vejamos um exemplo do primeiro procedimento, nas páginas de Número Zero:

– Não nego, mas meu pai me acostumou a não acreditar em todas as notícias. Os jornais mentem, os historiadores mentem, a televisão hoje mente. Você viu nos telejornais há um ano, com a Guerra do Golfo, o pelicano coberto de óleo, agonizando no golfo Pérsico? Depois foi apurado que naquela estação era impossível haver pelicano no Golfo, e as imagens eram de oito anos antes, no tempo da Guerra Irã-Iraque. Ou então, como disseram outros, pegaram um pelicano no zoológico e lambuzaram de petróleo.

Agora, uma ilustração do segundo expediente, a tentativa de deslegitimar o desmentido, por mais irrefutável que este possa parecer:

– […], Mas um jornal também é avaliado pela capacidade de enfrenar desmentidos, principalmente se for um jornal que dá mostras de não ter medo de meter o nariz na podridão. Além de treinarmos para quando chegassem desmentidos de verdade, era preciso inventar algumas cartas de leitores seguidas de nossos desmentidos. Para mostrar ao cliente nossa fibra.

Para desmentir o destemido, ensina o cínico personagem, é fundamental colocar em cheque a credibilidade e a confiabilidade do desmentidor, quem sabe até seu caráter e sua sanidade mental, até porque, como disse Nelson Rodrigues, de perto ninguém é normal.

Outra esperteza dos jornais, ressaltada em Número Zero, é embutir opiniões quando deveria haver exclusivamente informações. De que maneira? Vejam só:

Muito simples – disse eu- Observem os grandes jornais de língua inglesa. Quando falam, sei lá, de um incêndio, ou de um acidente de carro, evidentemente não podem dizer o que acham daquilo. Então inserem no artigo, entre aspas, as declarações de uma testemunha, um homem comum, um representante da opinião pública. Pondo-se aspas, essas informações se tornam fatos, ou seja, é um fato que aquele sujeito tenha expressado tal opinião. Mas seria possível que o jornalista tivesse dado a palavra somente a quem pensasse como ele. Portanto, haverá duas declarações discordantes entre si, para mostrar que é fato que há opiniões diferentes sobre um caso, e o jornal expõe esse caso irretorquível. A esperteza está em pôr antes entre aspas uma opinião banal e depois outra opinião, mais racional, que se assemelha muito a opinião do jornalista. Assim o leitor tem a impressão de que está sendo informado de dois fatos, mas é induzido a aceitar uma única opinião como a mais convincente.

Estratagema semelhante é empregado para desqualificar um acusador incômodo:

 […] Hoje, para contra-atacar uma acusação não é necessário provar o contrário, basta deslegitimar o acusador. Portanto, aqui está o nome e sobrenome do sujeito, e Palatino dá um pulo em Rimini, com um gravador e uma máquina fotográfica.  Siga esse íntegro servidor do Estado, ninguém nunca é cem por cento íntegro, mesmo que não seja pedófilo, não tenha matado a avó, nem embolsado propina, terá feito alguma coisa estranha, ou então, se me permitem a expressão, estranhifica-se aquilo que ele faz todos os dias. Entendido? 

Outro instrumento de coação que o futuro jornal lançará mão é a fabricação de dossiês, com um levantamento completo e detalhado dos podres de quem se quer intimidar ou chantagear:

– Esse negócio de dossiê é bom – observou Simei. – Nosso editor iria ficar contente de ter instrumentos para manter sob controle quem não gosta dele, o de quem ele não gosta. Colonna, por gentileza, monte uma lista de pessoas com quem nosso editor pode ter de se haver, encontre um universitário reprovado e sem dinheiro e faça-o preparar uma dúzia de dossiês, que por enquanto serão suficientes. Parece-me uma ótima iniciativa, e barata.    

No Amanhã até os horóscopos são inventados por um redator. Para isso, basta apenas que ele “leia alguns jornais e revistas que publicam horóscopos e extraia deles alguns esquemas repetitivos”, limitando-se aos prognósticos otimistas, pois “as pessoas não gostam que lhe digam que no mês que vem vão morrer de câncer”. Embora se pretenda moderno, o jornal  está carregado de preconceitos, em sintonia, talvez, com seu público alvo:

– Eu sei, queridinha – reagiu Simei contrariado – mas os nossos leitores ainda dizem bicha, ou pelo menos pensam bicha porque para eles faz sentido usar essa palavra. Eu sei que agora não se diz preto, mas negro, e um deficiente visual não enxerga um palmo à frente do nariz, coitadinho. Nada tenho contra os bichas, é como os pretos, adoro todos, desde que fiquem em suas casas.

Para quem pensa que o Brasil inventou a corrupção, o romance de Umberto Eco cita “uma rede de corrupção política que envolve todos os partidos” e um esquema de lavagem de dinheiro para o qual é preciso calcular uma perda de um cinquenta por cento, que ainda assim se perde muito menos. Para não ficar apenas no mau jornalismo, Número Zero fala também de intrigas internacionais, complôs, conspiração, falcatruas e assassinatos. Pelas 207 páginas da edição brasileira desfilam instituições suspeitas como a loja maçônica P2 que, segundo algumas teorias da conspiração, estaria por trás do suposto assassinato do papa João Paulo I, a Gladio, organização clandestina de espionagem internacional, a CIA, o crime organizado da Máfia e da Cosa Nostra, o escândalo do Banco do Vaticano e a Operação Mãos Limpas que, na década de 1990, apurou o grande esquema de corrupção na Itália.

Para temperar as ecléticas referências, um jornalista sustenta a esdrúxula, porém verossímil, hipótese de que Benito Mussolini não foi executado pelos partisans (membros da resistência italiana), juntamente com a amante, Claretta Petacci, em 25 de abril de 1945, mas salvo pelos aliados e escondido no Vaticano, pois em seu lugar teria sido morto um sósia. Bom achado para um jornal que nasceu disposto a dizer a verdade sobre todas as coisas e a meter o nariz na podridão.  Ao final da leitura de Número Zero fica a pergunta no ar: quem garante que o Amanhã não é o espelho dos jornais de hoje?

 

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Comentários»

1. eliesercesar - julho 24, 2015

Sua resenha (brilhante como outras que tenho lido) fez-me lembrar de Assis Chateaubriand. Sempre pensei que não há (nunca houve) opinião pública, mas opinião puta.
Abraços, mesmo imaginando que este comentário não seja publicado.


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