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INFERNO DOMÉSTICO – Em O gato, Georges Simenon mostra a convivência belicosa e solitária de um casal de idosos.  agosto 1, 2015

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Gato

Famoso pelas histórias policiais protagonizadas pelo comissário Jules Maigret, da Polícia Judiciária de Paris, e admirado por romancistas como André Gide, Louis-Ferdinand Céline, Graham Greene e Truman Capote, o escritor belga Georges Simenon (1903-1989) também escreveu romances de profunda introspecção psicológica. Um desses livro é O gato, de 1966, em que Simenon mergulha no inferno doméstico de um casal de idosos fadados a suportar as pirraças, as mesquinharias, os achaques, as pequenas intrigas e também, como define o romancista, “os ataques oblíquos” um do outro, até a morte libertadora.

Dois viúvos solitários decidiram se casar. Ele, Émile Bouin, um homem mundano, ex-operário e funcionário público aposentado, de 65 anos. Ela, em solteira, Marguerite Doise, de 63 anos, mulher refinada, de ares aristocráticos, descendente de um ilustre fabricante de biscoitos levado à falência, e viúva do primeiro violino da Ópera.

Com tamanha diferença de origem, temperamento e estilo de vida, o arranjo – sim, porque o enlace não passou mesmo de um arranjo insustentável – não poderia dar certo. Como, de fato, não daria. Ele criava um gato, odiado por ela. Ela dedicava seu escasso carinho a uma barulhenta arara, abominada por ele. Um dia, o gato aparece morto. O marido não tem dúvida: fora envenenado pela mulher. Para se vingar, depena o rabo da arara que também acaba morrendo. É o fim de qualquer possibilidade de trégua doméstica; de viverem, pelo menos, como inimigos cordiais. Taxativa, a mulher escreve um bilhete para o marido, dizendo que, por ser católica, não poderia pedir o divórcio, informando que não falaria mais com o marido e rogando que ele também se abstivesse de lhe dirigir a palavra.

Era o começo de um jogo que iria durar para o resto da vida. A partir daí ele se comunicaria com ela arremessando bilhetes, com pontaria infalível, no regaço da mulher. Ela, por sua vez, respondia também com bilhetes deixados sobre os móveis da casa. Uma das mais primeiras providências de Marguerite foi entronizar, à cabeceira da própria cama, um retrato do primeiro marido. Émile, que já dormia em cama separada, revidou com um retrato da falecida mulher, jovem, expansiva e fogosa , que morrera inválida depois de ter sido atropelada por um carro.

Encarniçados numa guerrilha doméstica, com cada um procurando devolver o que julgava uma ofensa do inimigo mudo, Émile e Marguerite transformaram o lar numa inexpugnável trincheira e a velhice, que deveria escoar tranquila e serena, num estuário de mágoas e frustrações. A rotina da casa era a mesma, cada um no seu canto, remoendo suas dores, inclusive as físicas, devido à idade avançada de ambos:

Não fazia diferença que estivessem sós na casa silenciosa e que se houvessem condenado ao mutismo: nem por isso deixam de trocar os mais ferozes insultos.

RÉQUIEM DE UMA NOTA SÓ

Cartaz do filme, de 1976, interpretado por dois ícones do cinema francês.

Selo belga alusivo ao cartaz do filme, de 1976, interpretado por dois ícones do cinema francês.

A decepção vem logo na noite de núpcias. Émile é lúbrico e ativo. Marguerite recatada e frígida. O marido se despe e deita-se ao lado da mulher. Ela permanece rígida, fria como uma estátua de gelo. O sexo estava interditado entre os dois:

A coisa não dera certo. Intimidados ambos, tinham a impressão em que nada idade dele os gestos que faziam, desajeitadamente aliás, eram ridículos, constituíam-se como uma espécie de paródia de mau gosto.

Émile se desafogava na voluptuosa e desfrutável Nelly, viúva de um comerciante e proprietária de um restaurante muito popular. Em casa, cada um se dedicava a espreitar a decadência física do outro, embora ambos procurassem esconder a nudez, com aquela mistura de pudor e vaidade dos velhos:

Sabia que ela o observa, deliciada com aquela degradação paulatina; logo, porém, seria a vez dele de lançar olhadelas furtivas ao peito magro e achatado, às nádegas caídas, aos tornozelos inchados de sua mulher.

Na juventude, ele apreciava mergulhar na multidão, e “fazer parte de um todo, de integrar-se numa espécie de sinfonia, da qual cada nota, cada mancha de cor, cada lufada quente ou fria, eram um encantamento”. Porém, a sinfonia do velho Émile Bouin há muito já se transformara num réquiem de uma nota só.

A infelicidade conjugal o fazia dar passeios higiênicos pelos parques e pelos bulevares, mas a volta para a insalubridade espiritual do lar, era sempre triste. Quando precisava retornar Émile “caminhava mecanicamente, de cabeça baixa, sem ter de prestar atenção ao caminho, como um cavalo velho que volta ao estábulo”.

Assim, o casal infeliz cumpria a enervante obrigação de se suportarem mutuamente: “Não se cumprimentavam, não trocavam um olhar. Cada uma prosseguia com a própria rotina, só se espreitando quando não se julgavam observados”. Se iam ao mercado, cada um tomava seu lugar na fila e pagava do próprio bolso. No tempo em que frequentavam o cinema, cada um comprava o próprio ingresso. Tinham ainda o hábito de seguir o outro na rua, à curta distância, com os passos miúdos e vacilantes. Formavam um daqueles casais em que um depende do outro para continuar brigando e no seio do qual as desavenças crescentes terminaram por açambarcar o sentido da vida. Um já não poderia mais viver sem o outro.

Prova-o um lance capital da história. Para pirraçar o marido, a mulher começa a receber a visita de uma vizinha que mal suporta, fazendo-a de confidente diante da qual confessava que casara por piedade e (nas entrelinhas) pintava o cônjuge como um grosseirão, um brutamontes, ao passo que ela era a vítima delicada e indefesa de monstro. Cansado daquela lengalenga, o homem faz as malas e aluga um quarto na casa de Nelly. Na saída deixa o bilhete: “Pouco me importa que você morra”.

A ausências dura apenas onze dias. Num jogo de gato e rato, Marguerite começa a seguir o marido desprezado pelas ruas. Para um regozijado Émile, “com uma humildade que jamais imaginara”, como “uma confissão, uma súplica”. Ele volta para a casa e o pequeno inferno reaviva as chamas da discórdia. Até quando ela morre e ele “já não era mais nada”.

Com O gato, Georges Simenon expõe o desamparo e a solidão de dois velhos obrigados a se suportarem até que venha a morte, redentora dos infelizes.

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Comentários»

1. Lígia - agosto 3, 2015

Esse é um dos grandes livros do Simenon. É a mais perfeita tradução da existência infeliz de vários casais. Coitados do gato e da arara, vítimas desse fogo cruzado de ódio e intransigência. Considero genial também o livro O homem que via o trem passar. Grande leitura.


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