jump to navigation

CELEBRAÇÃO DA PERMANÊNCIA – Em Poemas de Amor e Morte – antologia & inéditos, Ruy Espinheira Filho resgata o passado através da memória afetiva.      agosto 22, 2015

Posted by eliesercesar in Resenhas.
trackback

Livro de REf

Poeta da memória cintilante, aquela que ilumina o presente com o brilho das  coisas que deixamos para trás (infância, juventude, amores, entes e amigos queridos), mas ainda resplandecem no desassossego da alma, Ruy Espinheira Filho ata, em novo livro de poesia, duas pontas cruciais da existência, o amor (aqui considerado, sublime nascimento), e a morte. Com o auxílio da memória, incansável guardião do tempo, em Poemas de Amor e Morte – antologia & inéditos, mesmo falando da morte em 42 dos 132 poemas do livro, Ruy Espinheiro Filho faz a celebração da permanência. Sim, porque, na poesia dele, a morte, tema recorrente, é também a vida que teima em permanecer na lembrança afetiva do poeta, em conviver com ele, em transcender sua escuridão intrínseca para se vestir de rutilante evocação da vida.

Para o poeta baiano, evocar o passado é sentir, com estoica resignação, que todo o presente se evolará como fumaça e, por mais paradoxal que possa parecer, tematizar a morte é saber que tudo permanece vivo, “na memória intacta e, mais que nunca, preciosa” (Soneto para Safira Disparue).

Amor e morte caminham tão imbricados na lírica de Ruy Espinheira Filho, que até muitos versos inspirados no sentimento amoroso exalam a melancólica nostalgia do logro de toda ação humana que se projeta no futuro, como no verso:

Todo amor está perdido ao nascer (Do Amor).

Ou na triste constatação do final do poema Campos de Eros:

E amor, amor, amor

por toda parte trucidado e em flor.

Ou, se preferirem, na inelutável fugacidade dos quatro últimos versos de Canção da Permanência:

É tudo perene: flama

embalsamada incendida

(até, por fim,  se fechar

o conto a minha vida).

Na poesia de Ruy Espinheira Filho, vivos e mortos caminham numa atmosfera de perda e nostalgia, a impulsionar  a vida no seu em incessante rumo ao encontro da morte, até que não sejamos mais do que “barro sem esperança de escultura (Elegia de Agosto)

O desencanto, talvez, venha da certeza da nossa finitude, inexorável:

Como saber que somos efêmeros nos consolará? (Adeuses).

Daí, a precaução de quem, como poeta galês Dylan Thomas, pensará duas vezes antes de se deixar entrar numa determinada noite acolhedora com doçura, pois diante do encanto:

Todo cuidado é pouco.

Com ele

só podem lidar, sem perigo,

o Amor Perfeito,

os unicórnios

e a infância. (Encanto).

Tocado por Mnemôsine, a deusa grega da memória, o poeta revisita seus mortos e é por eles revistado. É a maneira do artista lograr uma simbólica vitória sobre a morte, pois, contra a memória a morte nada pode, pelo menos enquanto aquele já partiu estiver vivo “no recanto mais cintilante da memória” (A Que Partiu Há Pouco).

Sendo assim permanece vivo o pai, do belo e pungente poema homônimo, enquanto o filho poeta caminha entre túmulos e “sob árvores exausta de velar os mortos”, evocando a luminosa companhia paterna, presença que  o revigora, embora ninguém perceba que acaba de lhe ocorrer um cataclismo cósmico:

Caminho

Novamente caminho

estás comigo como quando pousavas a mão no meu

ombro

A ternura contida mas espessa

 

Estás comigo

                      juntos retornaremos

ao áspero respirar da cidade

e me fazes cálido e forte

                                         e ninguém percebe

que a estrela Absinto desabou sobre mim.

O poema O Pai é, por excelência, uma fiel tradução moderna e tradição da lírica daquilo que Camões, num célebre soneto, chamou de A grande dor das cousas que passaram. Só que, na poesia de Ruy Espinheira Filho, não passaram, mas eternizaram-se na memória, limbo, inferno e paraíso do passado.

Como todos que já viveram muito, o poeta recebeu muitas notícias de morte de um amigo. Porém, revivificados em sua poesia, esses amigos mortos não foram esquecidos, pois:

Ficam, todos, com densidade maior

do que tinham antes de suas notícias

fúnebres. (Outra Vida).

O livro Poemas de Amor e Morte foi publicada na Coleção Mestres da Literatura Baiana, uma parceria da Assembleia Legislativa da Bahia com a Academia de Letras da Bahia). Certamente haverá quem, depois de ler a antologia, diga que a poesia de Ruy Espinheira Filho é saudosista, soturna e crepuscular, muito voltada para o passado. Pura precipitação! Nostálgica, vá lá, mas impregnada daquela cálida e suave nostalgia que rege e ilumina o presente e nos faz caminhar com todos, os vivos e os mortos, com Eros e Thanatos, carregando amor e morte, neste “espaço de Cronos que habitamos” (Nesta Varanda).

Na poesia de Ruy Espinheira “o tempo é ontem” (Visita do Poeta Carlos Anísio Melhor); não o ontem de um passado pesado e mórbido como uma lápide abandonada, mas um ontem estival e límpido, capaz de (como no poema Canção Cor-de-rosa) enviar:

as nuvens de outrora

para iluminar

as cinzas de agora.

 

 

Anúncios

Comentários»

1. eliesercesar - agosto 23, 2015

DE ARAKEN VAZ GALVÃO, escritor radicado em Valença, no baixo sul da Bahia: Uma resenha mui elaborada resenha, para um poeta brilhante. Ou seja, um resenhista brilhante comenta os versos de um dos maiores poetas do Brasil.

Ruy Espinheira Filho - agosto 23, 2015

Obrigado, Elieser, sinto-me muito contente e honrado com a sua resenha. Abraço grande, Ruy.

2. W. J. Solha - agosto 24, 2015

Bela resenha, Elieser (hail!) César! Digo isso de cátedra porque acabo de fazer uma sobre a mesma coletânea do Ruy Espinheira Filho, que merece não apenas as nossas duas, mas duzentas.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: