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LIVRO MALDITO – Reedição de “Mein Kampf” (“Minha Luta”), livro-panfleto do nazismo, que cai em domínio público em 2016, provoca polêmica no mercado editorial. dezembro 8, 2015

Posted by eliesercesar in Artigos.
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Uma polêmica que remete o leitor ao símbolo da suástica e à barbárie do nazismo divide o mercado editorial de vários países, inclusive o Brasil e, principalmente, a Alemanha: vale à pena reeditar o livro Mein Kampf (Minha Luta), de Adolpf Hitler, misto de autobiografia e panfleto antissemita, considerado a “Bíblia do Nazismo”? Em 2016, 70 anos após a morre do Fuhrer , o livro cai em domínio público e poderá ser relançado por qualquer editora do mundo.

Hoje, esses direitos estão em poder do Estado da Baviera, já que Hitler não teve filhos e a editoria que publicava suas diatribes, a Franz Eher Nachfolger GmbH foi extinta após a Segunda Guerra, por lançar também romances engajados do nazismo e calendários para o partido nazista, o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, que de socialista não tinha nada.

Após o fim da editora, o governo da Baviera desautorizou quaisquer publicar do livro, o que não valerá a partir do próximo ano. Com a futura liberação editorial, veio também a pergunta carregada de matiz ideológico: você publicaria o livro de Hitler? Indagação que pode ser ampliada para: Você compraria o livro de Hitler? Ou ainda, uma vez que comprar não significa necessariamente ler: Você leria o livro de Hitler?

Para as mentes libertárias, é uma leitura indigesta. Nele, dentre outras considerações, o homem que deflagrou a Segunda Guerra e pôs o mundo em chamas, considera o judaísmo “o fermento da decomposição. Defensor da eugenia( a grosso modo, o controle social que pode melhorar ou empobrecer a qualidade das raças),o ditador nazista não tinha a menor piedade das crianças deficientes, “que só trarão a si mesmas e ao resto do mundo infelicidade e sofrimento”.
É inegável que o livro tem forte apelo comercial. Primeiro, porque tudo é proibido é também tentador, desde que Eva mordeu a maçã. Depois, pela onda conservadora que varre muitos países, incluindo o Brasil onde há quem defenda a volta dos militares. Na época de Hitler, Minha Luta vendeu mais de 10 milhões de exemplares somente na Alemanha e, como aquela Bíblia que os evangélicos têm sempre à mão, era distribuído aos novos casais. No Brasil, a Geração Editorial decidiu que irá publicar o livro no próximo ano. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, o editor Luiz Fernando Emediato justifica que “Mein Kampf” é importante para discutir a história, “por mais feia que ela nos pareça”. Já a professora de história da USP, Maria Luzia Carneiro, autora de Holocausto, Crime contra a Humanidade (Ática) discorda. Para ela, o uma nova edição do livro servirá “para dar munição ao antissemitismo contemporâneo”.
Polêmica à parte, a edição em português de Minha Luta, que já foi vendida tranquilamente nas livrarias de Salvador, nos anos 80, até cair no “índex dos malditos”, pode ser adquirida facilmente pela internet, a preços que variam de R$ 65,00 a R$ 300. E até (é bem possível) encontrada em sebos da cidade.

A palavra dos escritores dos escritores baianos

É lícito proibir a publicação de uma obra por mais nefasta que possa parecer? Em busca da resposta, ouvimos escritores e editores baianos. Membro da Academia de Letras da Bahia (ALB), Ruy Espinheira Filho diz que tem o livro em casa, começou a ler e deixou de lado. “Nos anos 80, eu queria ler tudo, mesmo a estupidez nazista. Enfim, apesar da disposição, não suportei. Ele não é um “clássico maldito”, porque não é clássico, é apenas um vasto panfleto medíocre de um palhaço insano. Mas vai vender, tudo que não presta vende bem neste país”, prevê o autor de Estação infinita e outras estações (Bertarnd Brasil, 2012), dentre outros mais de 30 livros de poesia, romance, contos e ensaio.

Ruy Espinheira: "Panfleto medíocre de um palhaço insano".

Ruy Espinheira: “Panfleto medíocre de um palhaço insano”.

Escritor e editor, Mayran Gallo ( O inédito de Kafka, Cosac 7 Naify, 2003), afirma que não compraria o livro, mas defende o direito de ele ser reeditado: “Que o julgue o leitor. Como, aliás, acontece com qualquer livro. Além do mais, proibi-lo seria incentivar sua leitura. Se alguém mata depois da leitura de um livro, o problema está em quem
leu, não no livro. Caso contrário teríamos que proibir O estangeiro, de Camus, O cobrador, de Rubem Fonseca, e até Crime e castigo, de Dostoiévski. Os livros
devem ser livres para existir, e as pessoas livres para ler”

Mayrant Gallo: "As pessoas são livres para ler".

Mayrant Gallo: “As pessoas são livres para ler”.

O escritor e professor universitário Aleilton Fonseca (Nhô Guimarães, Bertrand Brasil,2006), também da ALB, se editor, não publicaria o livro de Hitler, embora reconheça que “num mundo livre, qualquer livro pode ser publicado, pois cabem aos leitores a visão crítica e o discernimento diante das terríveis e absurdas ideias do livro.”. No entanto, por sua vontade, o deixaria “encarcerado nos arquivos da história”.

Aleilton Fonseca: "Qualquer livro pode ser publicado".

Aleilton Fonseca: “Qualquer livro pode ser publicado”.

Combatente contra a ditadura militar, Paulo Martins (Glória partida ao meio, 7 Letras, 2009), não vê razão para se deixar de publicar a autobiografia panfletária de Adolf Hitler: “Historiadores e pesquisadores vão agradecer. Além disso, podemos estabelecer limites para a liberdade de expressão? Qual é ele? As publicações do Charlie Hebdo reabriu esta discussão e me parece que a tese da liberdade plena prevaleceu. Não tenho interesse em ler este lixo, mas quem sabe precise consultá-lo para algum artigo ou tese? Afinal o fascismo está em ascensão por aqui”, diz Martins.

paulo Martins: "Historiadores e pesquisadores vão agradecer"

Paulo Martins: “Historiadores e pesquisadores vão agradecer”

O editor Rosel Soares, da Casarão do Verbo, diz que não só compraria o livro como também o reeditaria,pelo seu valor histórico e, se não tivesse com uma meia-dúzia de outros títulos no forno, poderia se lançar na empreitada. “Esta obra é o produto do que o homem é capaz de fazer. O ser humano é isso: capaz dos mais lindos e singelos gestos de amor, mas também de atrocidades inimagináveis. É necessário compreender como pensa a besta que habita o humano”, aponta Soares.

Rosel Soares: "Poderia me lançar na empreitada"

Rosel Soares: “Poderia me lançar na empreitada”

E, para encerrar a polêmica (ou pôr mais lenha na fogueira), se alguém entrar numa livraria, comprar e ler o livro maldito, não quer dizer que sairá por aí, com o braço direito erguido a gritar: “Heil Hitler!”.

 

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