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GULAG HIBERNAL – Em Contos de Kolimá, Varlam Chalámov relata a vida e a morte nos campos de concentração stalinistas, sob 60º abaixo de zero. dezembro 12, 2015

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Varlam Chalámov (á época em deixou a prisão): "No campo de concentração, cada minuto é envenenado"."

Varlam Chalámov (á época em que deixou a prisão): “No campo de concentração, cada minuto é envenenado”.”

Quem pensa que, com o Arquipélago Gulag, e Um dia na vida de Ivan Denisovich, de Aleksandr Soljenítsin (1918-2008), já viu tudo sobre os campos de concentração da União Soviética no regime stalinista, deve ler Contos de Kolimá, do também russo Varlam Chalámov (1907-1982). Perto das narrativas de Chalámov, os relatos de Soljeníntsin podem ser comparados à antecâmara do inferno. Kolimá é o próprio inferno. Trata-se de uma região desolada do extremo leste da Sibéria que abrigava campos de trabalhos forçados onde os prisioneiros, doentes e desnutridos, eram obrigados trabalhar até 16 horas, por dia, sob temperaturas que chegam a 60 graus abaixo de zero. O frio era tamanho que o cuspe congelava no ar.

Os trabalhos mais duros eram nas minas de ouro e carvão das quais muitos prisioneiros saiam para a vala comum. Para esse gulag hibernal foram enviados centenas de milhares de prisioneiros, a maioria enquadrada no famigerado artigo 58 do código penal soviético de 1922, que punia os crimes políticos por atividades contrarrevolucionárias, delitos que podiam ir de uma real conspiração para a tomada do poder à uma calúnia que selava a sorte de um inocente.  

Em Kolimá foi esmagada uma parte da intelligentsia da União Soviética. Ali, em 1938,  morreu o célebre  poeta  Óssip Mandelstam (1891-1938), preso por publicar um poema satírico em que o ditador soviético Josef Stálin era descrito com  grossos bigodes de baratas. No mesmo lugar também esteve preso o próprio Varlam Chalámov, condenado a vinte anos de trabalhos forçados por “agitação antissoviética”. Ao deixar a prisão, velho e alquebrado, e já sem acreditar nas ilusões da juventude como a fé no progresso, a justiça social e a virtude do homem,  Chalámov dedicou outros vinte anos a escrever os Contos de Kolimá, cerca de duas mil páginas de uma prosa limpa, incisiva e direta,  um dos mais aterradores documentos sobre a opressão e a injustiça cometidas por um regime totalitário.  Diz Chalámov:

Desumana, horripilante é a verdade nos campos de Kolimá. Ainda mais horripilante é a verdade sobre o homem que se revela naquelas condições extremas. Com que facilidade o homem renuncia à sutil película da civilização, com que facilidade o homem se esquece de ser homem…

Só faltou perguntar, como o escritor italiano Primo Levi, também testemunha dos horrores dos campos de concentração, no seu caso, nazistas: É isto um homem?

EDIÇÃO BRASILEIRA

Livro

Publicados na URSS somente em 1989, sete anos após a morte do autor, com o degelo definitivo promovido pela glásnost, a abertura política promovida por Mikhail Gorbatchov,  Os Contos de Kolimá foram divididos em seis volumes. No Brasil, por sugestão do professor e ensaísta Boris Schnaiderman, estão sendo publicados na íntegra pela editora 34. O primeiro volume, Os contos de Kolimá, foi lançado recentemente. Depois, completando a obra, virão: A margem esquerda, O artista da pá, Ensaios sobre o mundo do crime, A ressurreição do lariço e A luva, ou KR-2.

Na apresentação do primeiro volume, Boris Schnaiderman compartilha o horror suscitado pela leitura dos relatos de Chalámov: “Realmente, depois da apresentação de um mundo em que alguém é capaz de devorar um cão ou arrebatar um leitão congelado e comer metade num acesso de loucura, não sobra espaço para nenhum tipo de ilusão”.

Faltou mencionar cenas de canibalismo, roubos, assassinatos, fuzilamentos,  tortura física, delações, autoflagelações e suicídios, num mundo que não comporta nenhum tipo de altruísmo, num mundo em que apenas o instinto de sobrevivência prepondera no animal apegado ao fiapo de vida:

Mas o instinto de conservação, o apego à vida, exatamente o apego físico à vida ao qual está subordinada inclusive a consciência, é o que salva. Ele vive do mesmo modo como vivem a pedra, a árvore, o pássaro, o cachorro. Porém, apega-se mais à vida dos que eles. E é mais resistente do que qualquer outro animal.

Nos campos de Kolimá, os prisioneiros são mantidos em constante estado de fome, para arrancar-lhes justamente as últimas reservas de dignidade. Invejam (quando não roubam), o pão do outro, a sopa rala do companheiro, ração mínima e matematicamente calculada para permitir a sobrevivência e mover a esquálida força de trabalho. Um naco de pão é capaz de siderar o espião da comida alheia:

Os olhos brilhantes e encovados de Bagrietsov olham fixamente para a boca de Gliébov; não havia em ninguém força de vontade poderosa o bastante para fazer desviar os olhos da comida que desparecia na boca de outro ser humano. Gliébov engoliu a saliva, e, no mesmo instante, Gliébov voltou-se para o horizonte, para a lua grande e alaranjada, deslizando no céu.

 

A MORTE DO POETA

Morte de Óssip Mendelstam, em Kolimá, foi testemunhada por Chalámov.

Morte de Óssip Mendelstam, em Kolimá, foi testemunhada por Chalámov.

Chalámov testemunhou os últimos momentos do poeta Óssip Mandelstam, desenlace que reproduz no conto Xerez, alusão a um poema do artista morto (“Digo com a franqueza/ que prezo tanto:/ tudo é apenas delírio e xerez,/ meu anjo”:

O poeta estava morrendo há tanto tempo que não entendia mais que estava morrendo.

Suprema miséria! Os vizinhos escondem a morte poeta durante dois dias,  para receber o pão destinado a quem já não pode mais comer, movendo, como uma marionete, a mão do cadáver.

Quer dizer, ele morreu antes da data de sua morte – um detalhe bem importante para os seus futuros biógrafos.

O frio é o companheiro de todas as horas, provoca queimaduras e mutilações nas mãos e nos pés:

Não mostravam o termômetro meteorológico aos trabalhadores, não havia necessidade, eram obrigados a sair para trabalho sob qualquer temperatura. Além disso, mesmo sem termômetros, os prisioneiros antigos mediam o frio quase com exatidão: ser há nevoeiro gelado, na rua faz quarenta graus abaixo de zero, se o ar da respiração sai com ruído, mas ainda não é difícil respirar, então, quarenta e cinco graus. Abaixo de cinquenta e cinco, o cuspe congela no ar. O cuspe congelava no ar há duas semanas.

O sono minava mais as forças do que a fome. Os presos trabalhavam umas dezesseis horas e gastavam mais quatro entre o despertar e o café da manhã, a espera da distribuição do pessoal, o deslocamento ao local de trabalho, o almoço,  o jantar e a preparação para dormir, “sobravam ao todo quatro horas; o sono interrompido subtraía mais força do que a fome”.

Em Kolimá, em curto espaço de tempo, os artistas e intelectuais perdiam todos os modos civilizados, pois, tudo o que lhes era caro “se transformava em cinzas, a civilização e a cultura os abandonam no mais curto período de tempo, em semanas”, inclusive o argumento da discussão, nos campos de trabalhos forçados, “o punho, o pedaço de pau, a coronhada, o soco nos dentes”. Por isso, “o intelectual transforma-se em covarde, e o cérebro lhe sugere uma justificativa para seu comportamento”.

Filho de um padre ortodoxo, poeta e contista Chalámov deixou Kolimã com uma certeza que levou para o resto da vida e preencheu as páginas de seus contos:

O campo de concentração é inteiramente uma escola negativa de vida. Ninguém leva daqui nada de útil, nada de bom: nem o preso, nem o chefe, nem o segurança, nem as testemunhas involuntárias – engenheiros, geólogos, médicos -, superiores ou subordinados.

Cada minuto da vida no campo de prisioneiros é um minuto envenenado.

Mas, Varlam Chalámov –  “cronista de minha própria alma” – não se deixou  envenenar pela estupidez e pela crueldade do regime que o castigou.  A prova são  estes Contos de Kolimá,  pepitas de outro extraídas da lama.

 

 

 

 

 

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