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MARÉ DA MEMÓRIA – Em Noite Alta e Outros Poemas, Ruy Espinheira evoca o passado para iluminar o presente. janeiro 30, 2016

Posted by eliesercesar in Sem categoria.
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Noite Alta outros poemas traz a marca registrada da poesia de Ruy Espinheira Filho: a recorrência à memória para transfigurar em emoção e permanência a camoniana “grande dor das cousas que passaram”, e também as alegrias idas, suporte para o presente e esperança para o futuro.

Quase todos os poemas, situações e personagens do livro são resgatados na memória, bem precioso do poeta que se recusa a esquecer, ou melhor, que mesmo se desejasse jamais poderia esquecer toda a vasta experiência de mundo que plasma a sensibilidade do artista e o acompanha por toda vida. Em Noite Alta, o poeta lembra os amigos – sobretudo o pai, presença constante – que morreram num dia lindo, “perfeitamente um dia lindo”, contraste que me um verso de Ferreira Gullar, para quem uma manhã de sol “torna implausível a escura morte”.

No mesmo livro, o poeta caminha por uma rua onde morava um anjo; e por ela caminhará “sempre e para sempre”; respira uma tarde meiga de julho, a mesma tarde, já eternidade,  em que, há 27 anos, perdera o pai; solfeja uma canção do claro mundo com os pássaros da infância  (pássaro-preto, sofrê, curió, tiê-sangue, perdiz, curiatã e até um papagaio “fardado de Bandeira Nacional’); testemunha o trabalho de um pintor que,  morto, passou à estirpe dos que estão “acima das distâncias e dos tempos”; persevera nos sonhos que “permanecem intactos até o último instante”; revisita um cidade antiga, “pequena, porém, encantada” e enamora-se das meninas antigas, “bonitas de doer”; num itinerário poético guiado por Mnemôsine, sua musa acolhedora, e, como disse outro poeta (o galês Dylan Thomas), “acolhedora com doçura”.

Para o poeta,  todo esse desfile antigo ainda não passou, porque segue com ele, não importa quanto tempo se passou, como se pode depreender dos versos do poema Canção de um conto:

E tudo isso foi.

E hoje é um conto, enfim;

que saiu do Tempo

e se conta em mim.

Como outros, tantos,

histórias da histórias

da minha incessante

maré da memória”.

 

O poeta vive o seu tempo, mas sabe que esse tempo é também uma teimosia de  outro tempo que se recusa a passar, já que se imiscuí, com mais força e intensidade, no presente:

Então penso naquele tempo.

Como muitas vezes. Ou antes:

como sempre.

 

E tal recusa obstinada lança ao artista o desafio da permanência:

 

[…] pois como poderia transmitir a alguém a alma

daquele tempo?

 

Quem sabe através dos sonhos?

Ah, os sonhos às vezes no dizem

o que já sabemos,

mas é sempre bom escutar

os sonhos.

 

O poeta evoca o passado convicto de que a morte pouco pode diante da memória, certo de que a morte só consegue – e nisso reside seu absolutismo inelutável! –  subtrair o futuro:

Mas, já que falamos dela,

se é o limite para a avaliação

da vida,

aproveitemos para dizer que a morte

consegue apenas apagar um tempo

que poderia ter sido,

jamais anular o que foi cumprido

antes dela.

 

E tudo o que foi cumprido, de opaco ou luminoso, de mesquinho ou generoso, daninho ou edificante, a memória guarda, inclusive na memória do poeta que sabe que uma das condições do artista é não esquecer; e ele não pode esquecer jamais, porque um dia, o mais ínfimo detalhe, o mais insignificante acontecimento e o mais reles fato voltarão revoluteando na incessante maré da memória.

A mesma maré que em que deságua a poesia de Ruy Espinheira Filho, evocação do passado e iluminação do presente.

 

 

 

 

 

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