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GUERRA E PAZ SOVIÉTICO – Em Vida e Destino, Vassili Grossman emula Tolstói, escreve o épico sobre Stalingrado e condena o totalitarismo. fevereiro 18, 2016

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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V G

Considerado o Guerra e Paz da União Soviética, Vida e Destino, do escritor ucraniano Vassili Grossman (1905-1964), é um romance múltiplo. Neste épico do Século XX, vários temas se imbricam num vigoroso painel da URSS durante a ditadura de Josef Stalin. O principal pano de fundo é Batalha de Stalingrado, decisiva para os rumos da II Guerra Mundial. Como jornalista, Grossman esteve no front de Stalingrado e, depois, acompanhou o Exército Vermelho até Berlim na vitória dos aliados contra os nazistas.

Já se disse que a literatura russa sempre caminhou, passo a passo, com a história. Guerra e Paz, de Leon Tolstói, é o maior exemplo dessa bem-sucedida parceria doméstica, ao retratar a invasão da Rússia pelas tropas de Napoleão Bonaparte, no começo do Século XIX. Quase um século e meio depois, Vassili Grossman emula o clássico russo e, com a agudeza e a observação do bom repórter, e a sensibilidade e o cuidado estético do zeloso escritor, reconta a heroica resistência em Stalingrado.

Para além de um romance de guerra, o escritor soviético empreende a condenação, às vezes sutil, outras explícita e direta, dos regimes totalitários, tanto de Stalin quanto de Adolf Hitler. Em muitos trechos, o autor fala pretensamente da barbárie nazista  – numa estratégia compreensível para driblar a onipresente censura stalinista – quando, nas entrelinhas, dirige suas baterias antitanques ao comunismo soviético. Ou a ambos os regimes totalitários, como na passagem em que um prisioneiro soviético diz que é aceitável apanhar e ser confinado nos campos de concentração nazistas, mas jamais nos campos de trabalhos soviéticos (para os quais foram enviados milhões de comunistas), pois, desse modo, estaria apanhando da sociedade que ajudara a construir e que pregava a construção de um novo homem, livre e sem distinção de classes.

As 900 páginas de Vida e Destino relatam acontecimentos cruciais da primeira metade do Século XX: a invasão da URSS pelas tropas de Hitler e a defesa heroica de Stalingrado, os campos de concentração nazistas e o gulag soviético, o regime de terror e as delações durante o stalinismo; a “Solução Final” engendrada pelo nazismo contra o povo judeu, o extermínio de homens, mulheres e crianças nas câmaras de gás;  o confinamento dos intelectuais nos campos de prisioneiros da URSS e, acima de tudo, as esperanças malbaratadas de uma geração que acreditou na liberdade e na construção de um mundo melhor e acabou massacrada pela tirania e pela opressão.

Sobre o poder enfeixado por Josef Stalin, diz Vassili Grossman neste soberbo romance:

Durante mil anos, a Rússia tinha sido o país do absolutismo e da autocracia ilimitada, o país dos tsares e dos favoritos. Contudo, em mil anos de história, não houvera poder comparável ao de Stalin.

Em relação à “Solução Final”, numa das cenas mais sinistras da literatura contemporânea, Adolf Eichmann, o comandante nazista responsável pela logística do extermínio do judeus, bebe vinho com um oficial da SS, dentro de uma câmara de gás que recebe os últimos acabamento para vomitar seu veneno letal, e saúda:

– Imagine que daqui a dois anos estaremos novamente sentados nesta câmara, junto a essa mesinha aconchegante, e diremos: ‘Em vinte meses resolvemos uma questão que a humanidade não tinha resolvido em vinte séculos’.

Noutro episódio marcante do romance, também ambientado numa câmara de gás, desta vez em pleno vapor genocida, Vassili Grosmann descreve, com realismo cortante, o extermínio de um grupo de judeus:

A entrada para a câmara se abriu de modo gradual e súbito. O fluxo de gente deslizou com vagar. O velho e a velha que tinham vivido juntos cinquenta anos, e sido separados na hora de se despir, voltavam a andar agora lado a lado, a mulher do operário levava o bebê acordado, mãe e filho olhavam por cima das cabeças dos caminhantes, fitando não o espaço mais o tempo. Surgiu a cabeça, e bem ao seu lado viam-se os olhos bondosos de Marússia Boríssovna e o olhar cheio de Rebecca Bukhman. E eis Lúcia Chterental, não há como reprimir ou diminuir a beleza daqueles olhos jovens, do nariz a respirar levemente, do colo, dos lábios azulados. Sófia Óssipovna voltou a estreitar contra si os ombros do menino. Jamais tivera no coração tamanha ternura pelas pessoas.

O FASCISMO E O HOMEM

Satalingrado

Humanista em tempos sombrios, Vassili Grosmann considera o fascismo incompatível com o ser humano, “pois, quando o fascismo triunfa, o ser humano para de existir”, mas, “quando triunfa o ser humano, dotado de liberdade, discernimento e bondade, o fascismo perece, e os que haviam sido subjugados voltam a ser gente”. Vítima e testemunha desses mesmos tempos sombrios – a mãe dele, Iekaterina Saviélievna Grossman, a quem Vida e Destino é dedicado, morreu num campo de concentração nazista, após a invasão da URSS – o escritor mostra a visão da barbárie:

Vi a força inabalável da ideia de bem comum nascida em meu país. Vi essa força no período da coletivização geral, e a vi em 1937. Vi como exterminaram pessoas em nome de um ideal tão maravilhoso e humano como o do cristianismo. Vi aldeias morrendo de fome, vi crianças e camponeses morrendo na neve na Sibéria, vi trens levando para a Sibéria centenas de milhares de homens e mulheres de Moscou, Leningrado, de todas as cidades da Rússia, declarados inimigos do bem comum. Essa ideia era maravilhosa e grande, porém foi implacável em matar uns, em destroçar a vida de outros, em separar maridos e esposas, pais e filhos.

Agora o grande horror do fascismo germânico elevou-se sobre o mundo. O clamor e lamento dos condenados enchem o ar. O céu tornou-se negro e o sol foi coberto pela fumaça dos fornos crematórios.

Porém, esses crimes jamais vistos pelo homem na Terra, no Universo, foram cometidos em nome do bem.

Com fôlego balzaquiano, Vida e Destino faz desfilar um exército de 150 personagens (muitos deles reais) nos campos de batalhas, nas prisões e nas cidades. O eixo da narrativa transcorre em torno das famílias Chápochnikov-Chtrum, numa simetria com os Bolkonski-Rostov de Guerra de Paz. O leitor mais atento irá perceber que, para Grossman, vida e destino correspondem ao binômio vida x morte; vida para os que lograram escapar das tenazes do estado totalitário; morte para  a maioria daqueles que se insurgiram contra a tirania de Hitler, na Alemanha, e de Stalin, na URSS.  Mas, apesar de sua atmosfera opressiva, Vida e Destino é, antes de tudo, um libelo contra a despotismo e a escravização do homem por uma casta sádica e armada até os dentes, um grito dilacerante de amor à liberdade, vindo das profundezas de um mundo em chamas.  Pois, como diz o próprio Vassili Grosmann:

A aspiração do homem à liberdade é indestrutível e pode ser reprimida, mas não exterminada. O totalitarismo não pode renunciar à violência. Renunciando à violência, o totalitarismo perece. Eterna e ininterrupta, aberta ou mascarada, a violência desmedida é a base do totalitarismo. O homem não renuncia à liberdade de boa vontade. Essa conclusão é a luz do nosso tempo, a luz do futuro.

ROMANCE SEQUESTRADO

Vida e destino

A história da publicação de Vida e Destino é digna de um roteiro de filme de espionagem. Proibido (por motivos óbvios) durante três décadas na União Soviética, o romance teve os originais sequestrados pelos órgãos de segurança locais, microfilmados por simpatizantes e enviados clandestinamente para o exterior. Só foi publicado, por uma editora Suíça, em 1980, dezesseis anos após a morte do autor. Três anos depois, saiu a tradução francesa e, logo depois, a italiana. Na URRS, a primeira edição só apareceu em 1988, sob os auspícios da glanost (abertura) de Mikhail Gorbatchov.

No Brasil, surge agora pela Alfaguera, com tradução do russo de Irineu Franco Perpétuo,  quatro décadas depois da morte de Vassili Grosmann.  Na URSS, o autor tentou autorização para a publicação do romance, mas ouviu que o livro representava “um perigo para o comunismo, para o poder soviético e para o povo soviético”, e que, talvez, só pudesse ser publicado dentro de trezentos anos.

Sorte do leitor, agora com a edição brasileira ao alcance das mãos,  que teve que  esperar tanto.

TRECHO:

Tempo é um meio de transporte no qual as pessoas surgem, se movem e desaparecem sem deixar traço…. No tempo surgem e desaparecem cidades maciças. O tempo as levam e as traz.

O tempo deságua no homem e no Estado, se aninha neles e depois saí, e o homem, o Estado ficam…o reino ficou, mas seu tempo se foi…o homem está lá, mas seu tempo sumiu. Onde ele está? Eis o homem: ele respira, ele pensa, ele chora, mas aquele tempo particular, único, pertencente apenas a ele, se foi, sumiu, passou.

O mais difícil é ser enteado do tempo. Não há sorte mais dura que a do enteado, vivendo em um tempo que não é o seu. Os enteados do tempo são facilmente reconhecíveis….

[…] O tempo só ama aqueles que ele gerou: seus filhos, seus heróis, seus trabalhadores. Nunca, nunca ele vai amar os filhos dos tempos passados, como as mulheres não amam os heróis dos tempos passados, e as madrastas não amam os filhos que não são seus.

Assim é o tempo: tudo passa, mas ele fica. Tudo fica, mas só tempo passa. Como tempo passa ligeiro e silencioso. Ontem mesmo você era seguro, alegre, forte: um filho do tempo. Mas hoje veio outro tempo e você não entendeu.

 

 

 

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