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CAMINHANDO COM PESSOA – Em Lisboa 1935, Antonio Brasileiro mostra a leveza poética burilada na maturidade. março 10, 2016

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Brasileiro

A poesia de Antonio Brasileiro sempre foi marcada pela força das indagações filosóficas. A busca pelo sentido da existência, a procura pelas respostas de uma mente que parece não cessar de perquirir e até as crispações existenciais de quem nunca deixa de enfrentar os “touros ferrenhos” que rondam a alma, sempre perpassaram a poesia do artista baiano radicado em Feira de Santana. Mas, eis que, agora, na maturidade, o poeta (quem sabe com o espírito, enfim, sossegado?) em lugar de buscar respostas para os desassossegos da vida, parece aceitar o mundo tal como ele é, com menos questionamento e mais compreensão, numa cumplicidade solidária com os homens e uma comunhão quase religiosa com a natureza.

Daí a leveza ser a característica marcante do novo livro de poesia de Antonio Brasileiro: Lisboa 1935, recém-publicado pela editora baiana mondrongo. Não que nesta nova obra o poeta deixe de falar de coisas incômodas e dolorosas, como se pode conferir nos versos do poema Foz:

Que sentido existe

no que vive triste

e no que morre triste?

Porém, mesmo descendo a esferas abissais, o poeta se permite caminhar “por entre os matos leves”, já que “pode-se ser feliz sem tantas coisas” (As Palavras). Poderíamos nos arriscar a dizer que, hoje, não interessa tanto ao artista as divagações filosóficas e as elucubrações metafísicas. Em Lisboa 1935, a influência do pensador sobre o artista mostra-se atenuada, para que o poeta – livre das amarras da razão – possa trilhar por caminhos menos espinhosos e mais suaves

Depois de tanto procurar explicações, o poeta de versos grandiloquentes, como “a perfeição reside nos tumultos” (Estudo 208, do livro A Pura Mentira, de 1984) , mesmo consciente de que sua condição de poeta é irrevogável, confessa que poderia ser uma nuvem, porque “gente se explica”. É novamente a leveza tangendo, para pastos distantes, os “touros ferrenhos” da alma.

Leveza expressa no poema que abre o livro, quando o poeta decide deixar as bagagens (o pesado e inelutável fardo da vida) sobre os trilhos , para, enfim, numa catarse bucólica, se deixar levar “por entre os matos leves”. Eis toda a encruzilhada de As Bagagens:

Deixo minhas bagagens sobre os trilhos,

os abandonados trilhos junto à estação velha

e ando ao léu por entre os matos leves.

Não vou. Não sei destinos.

Levam-me os ventos.

Não, não os ventos – leva-me

a consciência.

            por entre

       os matos leves.

As bagagens, lá, sobre os trilhos.

Abandonados trilhos.

Com pureza franciscana, o poeta acalenta a ideia de conversar com pássaros, tão logo os lobos internos sosseguem (Quando meus sonos se acautelarem):

(Quando meus sonos de acautelarem,

vou ensinar aos pássaros menores

coisas que sei.)

São os mesmos passarinhos com as quais pretende acordar e olhar “as plantinhas boas”. Da leveza sinfônica de Lisboa 35 emana uma manhã pastoral, dado a recorrência a imagens campestres: passarinhos, matos leves, um rio que corre leve pelos sonhos, borboletas silenciosas no jardim, e, “um homem, silencioso, sentado ali”, bois e até “rolinhas fogo-pagôs barítonas” Este cenário idílico lembra o Ricardo Reis do “Corai-me de rosas…”. Aliás, por falar no heterônimo, o título da obra de Antonio Brasileira remete o leitor à Lisboa do ano da morte de Fernando Pessoa.

O próprio poema que dá nome ao livro corresponde à uma viagem afetiva e imaginária no tempo:

Eu queria ter vivido

ali.

Quem sabe, avistasse

o Fernando:

Olá, Fernando!

Eu, setenta anos. Ele,

meu filho.

Há o desejo de redenção, ou melhor, de resgate da pureza inicial, nos seis versos de Poema:

Vou me buscar onde fui.

Porque me perdi.

Onde fui é ali

E me acharei.

Ali, pertinho de mim,

  talvez.

Naturalmente que, nesta atmosfera propícia, o peta ache que:

Tudo vai virar ciranda

em nossa vida encantada:

carrossel de alto costado

moça que cede os encantos.

Então, pacificado, o artista que se debateu com muitos demônios poderá, finalmente, “escrever um poema sobre hibiscos”

Mas que ninguém se engane com a leveza cativante de Lisboa 1935. Como o próprio Fernando Pessoa, o poeta continua um fingidor, vez que, como anota Antonio Brasileiro, “paz não há (Degraus), “a vida é um bilhete de ida” (Poemas do Gato) e o bravo coração não está pacificado (A Música dos Violinos).

Pelo menos para os poetas, essa raça de condenados rutilantes, o coração nunca estará pacificado. O que não os impede de caminhar ao léu, “por entre os matos leves”.

MONDRONGO

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Comentários»

1. eliesercesar - março 15, 2016

Somente a contundência das palavras do resenhista alcança a leveza do voo do poeta.
Araken


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