jump to navigation

ÔNIBUS & CIA junho 2, 2016

Posted by eliesercesar in Contos.
trackback

Vendedor

Primeiro entraram os dois rapazes. O magro e sarará ficou na dianteira. O mulato atarracado se alojou no meio do veículo. O primeiro falou: Bom dia! Ninguém respondeu. Bom dia! Muitos passageiros responderam ao cumprimento, com a rapidez mecânica das mulheres que lotam os programas de auditório da TV. Outros o fizeram por cortesia forçada ou vergonha de ficar calado. O sarará insistiu. Mais forte, gente educada, quero ouvir mais forte! Vou falar de novo. Booom diiaaa! A resposta veio mais alta. Booom diiaaa! O sarará deu um sorriso de satisfação e anunciou que estavam ali para distrair a  todos, com um pouco de poesia. Pronto! Mais um para estragar a viagem, pensei com os olhos pregados no livro que levava para qualquer lugar que permitisse a mínima tranquilidade necessária à leitura. Sempre julguei tentativa de extorsão a aproximação desses vendedores e pedintes de ônibus dispostos a arrancar qualquer moeda dos passageiros que, se tivessem dinheiro sobrando, não andariam nessas espeluncas itinerantes, quase sempre lotadas e tremelicantes como se os parafusos e as arruelas quisessem se desprender das ferragens. Que o prefeito deixasse o seu carro refrigerado e entrasse numa dessas batedeiras conduzindo o rebanho dócil da cidade, de bairro em bairro, de casa para o trabalho e do trabalho para casa, para a igreja ou ainda para o bar, templo de muitos. Somos artistas de rua, disse o sarará. Ai, meus Deus! Somos poetas…Misericórdia!

E viemos, aqui. Ah, já vieram? Maravilha! Então, não estão mais aqui, pensei em dizer, mas me calei, com receio de ser tomado por um bicho mal-educado e rabugento, pelo mesmo povo solidário e disposto a linchar o primeiro batedor de carteiras nas ruas. Viemos aqui ofertar a beleza da poesia, a generosidade da arte. E o outro? Era mudo? Para o meu azar, não era. Foi ele quem primeiro tartamudeou uns versos de Castro Alves, tropeçou num popular poema de Drummond e, num dueto canhestro, mastigou com o parceiro uma poesia de Cecília Meireles, mais conhecida pela voz de um cantor popular do que pela versão impressa. Por fim, despejaram os versos: Que venha, que venha a hora da paixão. Rimbaud, poeta do Século 16, informou o sarará. Desta vez, não me contive e deixei escapar: Rimbaud, Século 16? Dezenove, apressou-se a corrigir o mulato atarracado. Surpreso, o sarará olhou para mim. Ele conhece, ele conhece do riscado, disse como um professor surpreendido com a resposta correta de um aluno obtuso. Para disfarçar o acanhamento, voltei ao livro. Agora, para encerrar, vou recitar uma poesia da minha autoria, anunciou o sarará. Agora, me ferrei, pensei e tentei me concentrar na leitura para não escutar nada, mas o ouvido traiçoeiro permanecia atento e tive que engolir a baboseira completa. Os dois rapazes recolheram algumas moedas e saltaram no próximo ponto, onde entrou um vendedor das deliciosas balinhas de gengibre, boa para a garganta, melhor para o pigarro, dois real. O baleiro desceu e eu retomei a leitura, interrompida com a chegada do evangélico. Amados, eu vos trago a palavra de Deus, a única capaz de salvar e libertar a alma das algemas dos vícios e da prisão dos pecados. O apóstolo de ônibus salmodiou a retórica decoreba até que me viu com o livro nas mãos. Que livro é esse, amado? Amado, uma porra, pensei em dizer, mas, com estoica resignação, mostrei-lhe a capa do livro, e o incentivei: leia! Contos da Colina…. Não, não, Contos de Colina. Será esta a Colina Sagrada, irmão? Kolimá, respondi, uma região da Sibéria, na Rússia, Contos de Kolimá E quem escreveu? Varlam Chalámov, um russo, informei O evangélico coçou o queixo, pensou um pouco. Nunca ouvi falar desse profeta; aliás deve ser um falso profeta, pois não existe nenhum profeta russo. Então, não pude segurar o riso. Outros três passageiros também riram. Os demais permaneceram sérios, como a nos recriminar por rir do pregador. O evangélico se zangou e disse que eu deveria atirar aquele livro pela janela, pois, no mundo, só havia uma obra digna de se ler, reler e carregar, a Bíblia Sagrada, onde estavam escritas as palavras da salvação. Eu já temia a manifestação de sua cólera sagrada, quando ele resolveu descer. Entrou o vendedor de picolé, sabor da fruta, para refrescar a viagem de vocês, apena um real, preço de geladinho. O vendedor de picolé desceu. Subiu o pedinte, desempregado, com mulher e dois filhos para sustentar; melhor pedir do que roubar, já roubara, sim, fora para cadeia, mas, hoje, pedia humildemente, porque não queria mais roubar; o desemprego era grande e ninguém dava emprego a ex-detento; assim, era melhor pedir. Conseguiu alguns trocados e saltou de cara amarrada. Entrou um vendedor de palavras cruzadas e outros passatempos da viagem. Iria distribuir a mercadoria sem compromisso; quem segurasse já estava ajudando. Ele saiu distribuindo o produto. Mergulhei a cara no livro, e ele passou por mim. Um pouco atrás uma mulher não quis pegar a mercadoria. Não, obrigada, recusou com voz gentil. O homem a fuzilou: tem gente tão metida que parece ter as mãos de ouro; um dia também vai precisar dos outros; então, o bicho vai pegar. Um rapaz se intrometeu na conversa: ela não é obrigada a pegar nada, muito menos comprar. Calma, só estou vendendo minha mercadoria. Então, deveria ser mais educado. Antes de descer do ônibus, o vendedor de palavras cruzadas gracejou: mortorista, toca para o cemitério. Ainda tive que aturar dois músicos de canções sertanejas; dois ex-viciados convertidos ao evangelho, oferecendo receitas para alimentação sadia, um vendedor de CDs piratas, outro de água mineral e mais um das paçoquinhas que derretem na boca, uma é cinquenta, três é um real. Quando as ciganas entraram, não suportei mais, saltei do veículo xingando o prefeito que permite aquele comércio promíscuo nos ônibus. Quando o motorista arrastava o veículo, ainda na calçada pude ouvir: tá incomodado? Vá de táxi.

Dei uma banana, e prossegui meu caminho, a pé.

Anúncios

Comentários»

1. Iva Maria O. Vianna - junho 15, 2016

OBRIGADA,Verdade,somos poetas.

iva vianna.

________________________________


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: