jump to navigation

PROFETA DA DERROTA setembro 9, 2016

Posted by eliesercesar in Resenhas.
trackback

– Em Caçada Russa e outros relatos, seu livro de estreia, Flávio VM Costa apresenta um mostruário de seres fracassados.

 cacada-russa

Os personagens fracassados, resvalando no limbo da existência ou mesmo chafurdando nele, marginais, sem perspectiva de vida, conformados ou impelidos por uma revolta impotente, alguns seguindo adiante com uma espécie de resignação estóica, fazem do jornalista baiano Flávio VM Costa, em seu livro de estreia, Caçada Russa e outros relatos, o profeta da derrota. Como Elefantião, o negro submetido à tirania da avó no melhor dos 13 contos do livro, “Quatro vidas de Sebastian”, definido pelo seu criador pelo inexorável epiteto.

Na orelha do livro, lançado recentemente pela editora Penalux , o jornalista Claudio Leal diz, com exata pertinência, que os personagens de Flávio VM Costa lembram João Antonio e Lima Barreto, demiurgos dos excluídos. Eu acrescentaria que nos remetem também ao Mayrant Gallo de O inédito de Kafka (Cosac &Naify, 2003), pela derrocada iminente de seus seres de papel e espírito vital.  As criaturas de Caçada Russa e outros relatos são joguetes impelidos, pelo destino cruel e inevitável, para o derrotismo, sopradas ao léu pelos ventos traiçoeiros do desastre individual, e coletivo (o egoísmo e a mesquinhez do mundo).

O próprio Elefantião, “alto, negro, espadaúdo e, quando criança, acima do peso”, – característica está última que lhe enseja o apelido, motivo de bulliyng na escola e na vida – colabora para a falta de respeito e até indiferença com que é tratado, já que o “elefantianismo”, padrão de comportamento social que todos já tivemos  a oportunidade de ver por aí, é assim descrito pelo contista estreante:

 

Com o tempo a vigilância excessiva da avó fez o menino, que tinha horários restritos para frequentar os amigos na rua, desenvolver uma espécie de simulacro de filosofia própria, com arremedos religiosos: o Elefantianismo. Aforismos sobre  a falta de vaidade, a necessidade de ser ridicularizado diante dos outros, o reconhecimento da superioridade dos machos alfas (todos seus amigos acreditavam formar uma alcateia de machos alfas) e da ausência de atrativos próprios para as mulheres, constituíam o cerne do Elefantianismo.

 

CRISTIANISMO PAQUIDÉRMICO

Com sua passividade quase messiânica para a aceitação do destino, como os humilhados deste mundo que esperam ser exaltados numa outra terra prometida pela fé, não seria o Elefantianismo um cristianismo paquidérmico, de si mesmo inflado pela acomodação passiva aos reveses da vida? Porém, Elefantião cresce, aprende a tocar violão e passa a cantar na rádio comunitária e em barzinhos da região, mas sua vida continua em descompasso com a alegria, mesmo que ele interprete  “músicas de Tim Maia, Batatinha, Caetano, Dolores Duran, Tom Jobim, Gordurinha, Gil, João Gilberto, Paulinho da Viola, Pixiguinha, Vinicius de Moraes, Baden Powell, Moraes Moreira, Lupicínio Rodrigues, Adoniran Barbosa, Jorge Bem Jor e Roberto Carlos, seu predileto”. O eclético e romântico, Elefantião até se tornou (quem diria?) um homem bonito, “aquele tipo de homem negro que nossa sociedade, mesmo a contragosto e com condescendência, costuma reconhecer como belo: musculoso, alto, cabelo raspado e sorriso luminoso de dentes alvos e regulares”.

A sádica e obsessiva tirania da velha acaba a festa de Elefantião. A avó desalmada descobre as cantorias do neto com pendor artístico e o proíbe de continuar a fazer shows. Dócil, numa recaída à filosofia derrotista de vida e cedendo novamente aos apelos intermitentes do Elefantianismo, o jovem cantor vende o violão e emudece.  Depois, como numa libertação final de tudo aquilo que lhe tolhia a vida e os movimentos, se vingará ao seu modo passivo da avó impiedosa. Então, sairá novamente às ruas, talvez, imbuído daquele sentimento altruísta do elefante do poema do Carlos Drummond de Andrade, que vê diariamente frustrada sua oferta de amizade, mas não desiste de sua pungente fraternidade: “Amanhã recomeço”.

Se nos debruçamos um pouco mais sobre um único personagem de Caçada Russa e outros relatos é porque acreditamos que ele sintetiza o pathos dos demais personagens do livro, o de seres derrotados, pisados pelas patas implacáveis do destino, escoiceados pela vida rasa, avançando em direção ao abismo e à escuridão. Assim acontece também  com Sebastian, o craque de bola do mesmo conto, que vê sua promissora carreira futebolística ser chutada para o escanteio da felicidade pela brutalidade e pela indisciplina; idem com  a transexual Tiana, vítima de um erro “na equação dos genes”; com o estudante de “Atlanta”, revoltado contra uma injustiça em sala de sala;   com o aspirante a escritor de ‘Chamas”, que se imola sob o peso da angústia da criação, com guerrilheiro de “Ponto”, traído por quem menos despertava a suspeita e, em maior ou menor grau de infortúnio, com a maioria das criaturas de Caçada Russa e outros relatos, esse mostruário de seres fracassados.

 

Anúncios

Comentários»

No comments yet — be the first.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: