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ALBATROZ LÍRICO – Em O príncipe das nuvens, Ruy Espinheira Filho se inspira na vida errática do poeta Carlos Anísio Melhor. setembro 26, 2016

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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De vez em quando, eu via o poeta, mas nunca me aproximei dele, devido, talvez, àquela timidez boba e cativante dos jovens. Os cabelos desalinhados, o bigode um grande pente entre o nariz e a boca, ao estilo Nietzsche, os óculos com grossas lentes míope indefeso, ele almoçava num pequeno restaurante dos Barris, em meados dos anos 80. Alcoólatra, com passagens por sanatórios, tinha portanto, uma áurea de maldito, se é que algum poeta, por mais trágica que tenha sido sua vida e por mais dilacerante que seja a sua obra, possa ser chamado de maldito, como, de resto, não parece  maldito um anjo que arde no inferno de sua própria luz.

Para mim (apenas pelo que ouvia falar) ele passou a se assemelhar a um daqueles personagens inesquecíveis de Dostoiévski, com a alma ao mesmo tempo estilhaçada e iluminada. Cheguei a ter um livro de poemas dele (se não me engano, o único publicado), hoje em minha segunda biblioteca, aquela que temos na rua, perdida nas mudanças de endereço e nos empréstimos sem volta. Sua poesia fortemente dramática causara-me funda impressão, como estes versos:

Amor, amor, amor em que trágico cotidiano tu morreste.

Eis que agora, muitos anos depois, o mesmo poeta, já morto, me visita. Não, não tenho o menor poder mediúnico. Longe disso, se, muitas vezes, nem com os vivos consigo me comunicar direito, quanto mais decodificar a recalcitrante linguagem dos mortos. Porém, foi quase isso, uma vez que tornei a rever o poeta através do mais recente romance do escritor, poeta, ensaísta, professor e jornalista Ruy Espinheira Filho: O príncipe das nuvens – uma história de amor ditada pelo espírito do poeta c.a maior, uma publicação da Editora Descaminhos.

O livro é inspirado na vida errática do poeta baiano Carlos Anísio Melhor (1935-1991). Portanto – se inspirado – não se trata de uma história real, nem de uma biografia romanceada, mas plasmada na trajetória espiritual do artista. No romance, o estado de espírito do poeta é comparado ao do albatroz do poema homônimo de Charles Baudelaire: majestoso e soberano em pleno; subjugado e humilhado aos pés de marinheiros rudes num sujo convés.

Eis poema de Baudelaire, na tradução de Ivan Junqueira:

O ALBATROZ

Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

Agora, o trecho de Ruy Espinheira Filho:

Não por acaso me ocorrera na pensão de tia Nenza, a imagem do albatroz, o príncipe das nuvens, que, se baixar em seu voo, pode perder inteiramente a majestade nas mãos de gente rude, sendo ridicularizado, maltratado, humilhado. Semelhante ao poeta, sim, que sempre se move tão mal em meio aos homens sem asas.

Triste sina, ao de poeta como a.c maior, rasteiro para o vulgo; senhor de si mesmo nas alturas das criação, inatingíveis aos que não têm as asas da imaginação ou são equipados apenas com asas sem autonomia de voo, como de galinhas invejosas do albatroz!

VISÃO DA VIDA E DA ARTE

Numa história em que um poeta é o personagem principal, Ruy Espinheira Filho não poderia deixar de reverberar muitas vozes, num diálogo com escritores, como Goethe, (referência frequente de c.a. maior), para quem a brevidade da vida se compara à uma temporada de verão; filósofos como Schopenhauer, que definia o amor como “uma compensação da morte”; a poeta Safo que, num pragmatismo ardente, dizia que “o amor é gozar muito e logo chorar muito”, Tosltói, pondo água na fervura dos corações românticos, ao afirmar que “dizer que se vai amar uma pessoa a vida toda é como crer que uma vela continuará a queimar enquanto vivemos”, a mesma vela que se apagou para o agonizante Ivan Illitch, suportado pela família em seu desenlace inevitável.

No livro, que incluí poemas de c.a maior,  Ruy Espinheira Filho aproveitou a polifonia do romance para falar também de sua visão da arte, da poesia e da vida, desmitificar os embustes de determinada crítica acadêmica, aquela que jamais aconselha que se vá beber na própria fonte, original e pura, mas consultar a crítica especializada, numa inversão desonesta do caminho a ser seguido na recepção e na fruição da obra de arte.

Essa atitude militante do artista contra esses taxidermistas da literatura que tentam empalhar a criação, retirando dela o brilho e o vigor originais, pode ser melhor apreciada no capítulo 39, que trata de uma entrevista concedida pelo poeta c.a. maior a um jornal, uma profissão de fé no poder transformador da literatura, reformador só “em termos individuais, já que “algumas pessoas com certeza de transformam com a literatura”

Como na vida, o poeta a.c maior também vai perdendo amigos para a soberana dos tempos. Num trecho que remete à sua própria poesia- celebração da permanência catalisada pela memória – Ruy Espinheira Filho explica esse vazio, presente em que já viveu muito, quando a vida se transforma num “festival de antepassados. Sim, porque os mortos não deixam de nos visitar, de preferência nos sonhos, como a mãe,do poeta c.a. maior que ensejará um exorcismo libertador, como aliás, é todo exorcismo:

Esta é, na verdade, a grande perda que a morte significa: o passado. Ou seja: a perda de nós mesmos. Não podemos perder o futuro, pois não o possuímos. Mas o passado é o que somos e perdemos quando a morte apaga todas as memórias.

Para o Príncipe das Nuvens de Ruy Espinheira Filho, a vida sempre foi “carícia e puro açoite”, até que também nele (o poeta visceral c.a. maior) “a vida descansou de toda obra”. Como, ao final, descansará em todos nós.

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Comentários»

1. Ruy Espinheira Filho - setembro 26, 2016

Bom você ter gostado, Elieser, para mim particularmente importante por você ser também ficcionista. Agora, os poemas do livro são, mesmo, de C.A.Maior. A ficção que você lembrou de um livro antigo meu com certeza já era um adiantamento deste romance… Um abraço grande, Ruy.


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