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MAFUÁ DA AMIGA – Em A solidão mais funda, Ângela Vilma dialoga com vários poetas, num brinde à amizade. outubro 5, 2016

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Em 1948, o poeta Manuel Bandeira resolveu presentear os amigos com a publicação de Mafuá do Malungo, com versos onomásticos e circunstanciais oferecidos em aniversários, casamentos, batizados e até em dedicatórias de livros, presente e brinde à amizade. Foram somente 110 exemplares numa edição impressa manualmente pelo poeta João Cabral de Mello Neto, em Barcelona. Sessenta e oito anos depois, a poeta baiana Ângela Vilma, numa iniciativa igualmente generosa, também decidiu homenagear os amigos poetas, num diálogo intertextual com a poesia deles. O resultado foi A solidão mais profunda- Homenagem aos grandes solitários- coletânea de poemas recentemente lançada pele editora baiana mondrongo.
 
Entre os homenageados estão poetas vivos e mortos, consagrados e desconhecidos do grande público, como os brasileiros Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Adélia Prado; os portugueses Fernando Pessoa e Antônio Nobre; o chileno Pablo Neruda, o francês Arthur Rimabud; o tcheco Rainer Maria Rilke, a russa Anna Akhmátova, a polonesa Wislawa Szymborska e a estadunidense Emily Dickson. Com os poetas de sua aldeia, a Bahia, Ângela Vilma prodigaliza homenagens a Castro Alves, Eurico Alves, Ruy Espinheira Filho, Antonio Brasileiro, Affonso Manta, Anne Cerqueira, Kátia Borges, Kátia Borges, Rita Santana, Martha Galrão e – suprema generosidade! – até ao autor desta resenha, dentre outros.

 
Este é um livro não apenas de uma artista sensível e atenta ao mundo em sua volta, mas também de uma leitora exigente e voraz. O diálogo com poemas e até determinados versos dos poetas homenageados por Ângela Vilma demonstram que nenhum poeta se realiza plenamente sozinho, por carregar também uma parceria simbólica com os que vieram antes e que ainda estão presente; com a tradição que se renova no presente, seiva que mantém o viço e o vigor da criação poética. Sim, porque o verdadeiro poeta se dessedenta em toda fonte de boa poesia como, aliás, reconhece a própria Ângela Vilma nos versos de “ Para Anna Akhmátova”:
 
Bebe-se, sim, o outro,
em doses grandes, e a simbiose
raramente falha.
 
UNIVERSO PARALELO
 
Essa é herança que a poeta carrega consigo como uma influência que plasmou sua sensibilidade e tonificou sua poesia. O livro é composto de duas partes. Na primeira, “À maneira de”, Ângela Vilma dialoga com outros poetas, exercitando a intertextualidade. A segunda, “Herança”, é um tributo às influências dos poetas e escritores cultivados pela autora como quem cuida de um jardim raro. Assim, podemos ver a poeta se declarar “herdeira de Clarice/do suicídio de Virgínia/ das perdas de Cecília”, numa dor pungente que pode ser ilustrada neste verso:
 
Meu acervo é um precipício.
 
Num verso sublime, o argentino Jorge Luís Borges disse que “la lluvia es una cosa que sin duda sucede em el pasado”. Ângela Vilma intuí o mesmo no verso inicial de “Para Eugênio de Andrade”:
 
A chuva sempre ausenta o teu rosto.
 
Como Carlos Drummond de Andrade, de quem diz ter herdado o sentimento do mundo, Ângela Vilma também acha que, em alguns momentos, a vida é mesmo besta, meu Deus:
 
A vida. Essa estúpida anedota.
 
Nas 96 páginas de A solidão mais profunda, Ângela Vilma conduz o leitor e se deixa conduzir pelas vozes de outros poetas. Desse modo, vai “cumprindo a poesia com os dedos de mago, entre girassóis e luas”. E prossegue convicta de que a poesia, sobretudo no momento único da criação, requer um profundo isolamento em que a poeta se vê diante do desafio de criar seu universo paralelo:
[…] recintando em silêncio,
A solidão para mim mesma.
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