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JIHAD outubro 21, 2016

Posted by eliesercesar in Contos.
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O menino não queria ir à festa. A mãe, outrora foliona extasiada, preferia ficar em casa. O pai não fazia questão de sair, detestava a música barulhenta e requebrativa, com letras bobas e refrões onomatopaicos, mas acabou convencido pelas duas filhas adolescentes, que por nada perderiam o Carnaval, ainda mais que ficariam num camarote para assistir ao desfile dos principais blocos com as melhores atrações da folia. Queriam (e por isso, se rebelaram juntas), ver um jovem cantor sertanejo numa festa de samba e pagode. Os pais cederam e foram à rua, afinal, era melhor ter as meninas vigiadas de perto, longe das investidas dos marmanjos que não respeitavam ninguém; quem tem filha moça sabe como é!

No final da manhã, toda a família já estava no camarote. O menino indiferente à algazarra na pista. As meninas animadas, cochichando entre si sempre que viam um rapaz atraente. O pai, parado e sisudo. A mãe teve uma recaída foliã e dançou como nos tempos de solteira ao som de uma esgoelada cantora de sucesso. O calor era intenso. Os pais bebiam cerveja e os filhos refrigerantes.

No começo da tarde, a multidão aumentou com a passagem de enorme bloco sem cordas que misturava folia e política, com protestos contra os políticos, a corrupção, a política econômica, a indigência da saúde pública, a péssima qualidade do ensino público e tudo o mais que ensejasse insatisfação e repúdio. Cartazes e placas enxotavam o presidente considerado golpista e, portanto, sem nenhuma legitimidade para permanecer no cargo.

O pai lembrara que até poucos anos, carroças puxadas por cavalos e jumentos acompanhavam o cortejo, até que as autoridades proibiram a participação de animais, a pretexto de evitar maus-tratos quando, na verdade, maltratada mesmo era a gente miúda espremida fora das cordas a mendigar uma nesga de uma festa para qual representava apenas uma composição numérica.

No intervalo da passagem dos trios elétricos, quando a pista foi esvaziada e abertos os portões de entrada para o circuito da folia, as meninas pediram para descer um pouco e ver do chão a passagem de um grupo de mascarados que se aproximava. Desceram. Um dos mascarados tocou no queixo de uma das meninas. “Gracinha! ”. O pai quis brigar com o homem, mas a mulher o conteve. Ele reconheceu que seria desvantagem lutar com o grupo e se conformou, humilhado. Quis voltar para casa, mas as filhas insistiram que ainda era cedo, a mulher concordou, o menino não se pronunciou e ele teve que ceder mais uma vez.

Olham gente, um homem-bomba! ” O menino foi o primeiro a ver o folião vestido de árabe. Repararam direito e viram que o homem, barbudo e com um turbante branco na cabeça, trazia, amarrada no tórax nu e suado, uma geringonça coberta por fios e pavios. Com uma mão segurava o que parecia ser um pequeno detonador e com a outra acenava para o público. “Terrorista na Bahia! Quem já viu? ”. O pai comentou, sorrindo, e lembrou de um episódio bizarro: um rapaz levara pânico aos participantes de um concurso público, ao ameaçar explodir uma suposta bomba que levava no corpo. A polícia foi acionada e constatou que o pretenso terrorista carregava, na verdade, balas de gengibre. “Vai ver que ali também tem balas de gengibre”, pensou o pai.

O muçulmano se aproximava, sempre sorrindo e acenando para o público, cada vez mais numeroso. “Vamos, pai, tirar uma foto”, chamou o menino já correndo para junto do desconhecido. As irmãs o seguiram. A mãe também. O árabe abriu os abraços e um sorriso largo. Envolveu as meninas num abraço amistoso. Depois alisou os cabelos do menino. A mulher, sorridente, posava ao lado dos filhos para que o marido registrasse no smartphone a grande fotografia do Carnaval. Um trio elétrico se avizinhava, arrastando uma pequena multidão. Dobrando a esquina, um grupo de policiais abria caminhos aos empurrões. Foi então que o jihadista carnavalesco gritou: “Allahu akbar! [Deus é grande!]”. E, mais rápido do que os policiais que se aproximavam, acionou o pequeno detonador que não largara um segundo sequer.

Era, de fato, uma fantasia de Carnaval.

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