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MILITÂNCIA SECRETA  DA POESIA – Em Adeus, Fernando Pessoa, Paulo Martins discute o dilema entre a poesia e a politica, o poeta libertário e o militante partidário. novembro 12, 2016

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Há espaço para a poesia, e, ainda mais,  para a criação poética, em um mundo ameaçado pela injustiça e pela opressão, com o agravante de que  uma ditadura anunciada vem sendo gestada qual  serpente no ovo? Num cenário como este, não seria melhor abandonar quaisquer veleidades artísticas e partir para o confronto, armado se necessário, com as forças conservadoras que preparam um golpe contra a frágil democracia? Não urge, neste contexto, deixar a poesia para uma época mais propícia aos transportes líricos?

É este o dilema enfrentando por Trajano, um jovem poeta, estudante secundarista e aprendiz de revolucionário, principal personagem do  romance Adeus, Fernando Pessoa (Rio de Janeiro: 7 Letras, 2014) , do escritor baiano Paulo Martins. Diante do agravamento da crise política e institucional do Brasil do início dos anos 60 do século passado, Trajano se divide entre a contemplação e a ação; entre as musas etéreas e o monolitismo ideológico  do Partido Comunista. Assim o poeta-militante resume sua dúvida crucial:

Enfim, não era fácil ser poeta e ser homem de ação ao mesmo tempo. Isso, evidentemente, dependia muito do momento histórico em que  se vivia. E nós vivíamos, naquele momento, no tempo da revolução. Isso é, no tempo do advento da violência revolucionária irreversível. Queriam por tudo escravizar nosso país. E não era possível defendê-lo apenas com versos.  Seria justo continuar reservando um lugar cativo para a poesia em minhas preocupações?

O rapaz não deseja uma ruptura irreconciliável com a poesia, até porque intuí que os regimes políticos, de direita, centro, esquerda, fascista, nazista, comunista, qualquer deles,  vão acabar um dia, ou se revezar no cenário mutável da história,  e que “a única coisa que sobra, perdura e resiste ao tempo são as palavras”:

E tempo teria que haver para a poesia. Para a poesia plena, vasta e imorredoura. Mas não agora. Depois. Só depois. Lá adiante. Longe, talvez muito longe.

Porém, pelo avanço das forças conservadoras e retrógradas, o rapaz sacrifica o poeta que havia nele, já que, para todo revolucionário romântico, a revolução exigia os maiores sacrifícios pessoais, no amor, na carreira profissional e na realização artística. Em cena que funciona como uma catarse ao avesso, Trajano acaba rasgando aos picadinhos todos os poemas que escrevera até então e mergulha de ponta cabeça na luta política. Este gesto radical de alguém propenso ao radicalismo se consuma  de um modo involuntariamente poético, pois o personagem está  trepado numa amendoeira. De cima da árvore, larga a poesia pela política, “mãe de todas as realidades e transformações”, e, na despedida do fazer  poético (não do eu profundo  que jamais o deixará), parodia Fernando Pessoa, para quem depois de escritos os versos tomam a direção dos  homens que os acolhem:

Do alto desta amendoeira

com um lenço branco digo adeus                         

aos meus versos que partem para a humanidade.

                                                                                      

Para o jovem poeta do romance de Paulo Martins, dizer adeus a Fernando Pessoa significa romper com toda a poesia e com uma visão de mundo (egoísta e pequeno-burguesa, como diriam seus colegas de partido) ancorada neste fenômeno que não é sólido, mas diáfano, e nem por isso se desmancha facilmente no ar, que é a poesia.

Trajano cita e recita muitos poetas de gerações e nacionalidades diversas. Chega ao ponto de encarar um desafio com outro poeta, num lupanar, em que declamam boa parte da poesia de Fernando Pessoa. Tivesse lido Octavio Paz, talvez, resolvesse o suposto  paradoxo que o atormenta. Disse o poeta e ensaísta mexicano, ao receber o Prêmio Alexis de Tocqueville das mãos do presidente da França, François Miterrand: “a religião pública da modernidade tem sido a revolução, e a poesia, sua religião privada”.

O rompimento com a poesia é simbolizado  por Fernando Pessoa, logo ele, “o gênio que havia descoberto aos quinze anos e transformado em meu mestre, além do poeta preferido entre todos os poetas preferidos de todos os tempos”; o mesmo Fernando Pessoa capaz de, num dia triunfal, escrever de uma só vez mais de trinta poemas, em pé, debruçado sobre uma cômoda alta, e visitado por Alberto Caeiro, um dos heterônimos do grande  poeta português.

ROMANCE HISTÓRICO  E DE FORMAÇÃO

Adeus, Fernando Pessoa é um romance de formação, o gradativo amadurecimento poético e político de um jovem da classe média urbana de Belo Horizonte, numa Minas Gerais chafurdada na conspiração golpista. Por isso é também um romance histórico. A ação transcorre de agosto de 1961, quando Jânio Quadros, num  gesto tresloucado, renunciou à presidência da República (precipitando o país em uma  grave crise institucional) a 31 de março de 1964, com a deflagração do golpe militar que destituiu o Presidente João Goulart e lançou o Brasil em 21 anos de trevas e  arbítrio.

O pano de fundo do romance serve como uma aula de história, da preparação, consolidação e desfecho de um golpe que, há duas décadas,  vinha se anunciado e  que só foi adiado pela comoção provocada pelo suicídio de Getúlio Vargas, em 1954. Em Adeus, Fernando Pessoa, o leitor acompanha a lenta agonia do governo popular de João Goulart, com episódios heroicos como a Cadeia da Legalidade, comandada pelo destemido Leonel Brizola, no Rio Grande do Sul, para garantir a posse de Jango; a traição dos militares mais próximos do mandatário da República, a crença ingênua do PCB de que não haveria golpe militar e os erros de um governo, indeciso e claudicante,  que facilitou o caminho dos golpistas.

Testemunha, o leitor,  o desfile de estudantes fictícios, poetas, escritores, filósofos, líderes políticos reais, agentes da repressão, poetas, operários, homens e mulheres  que cruzam a luta de Trajano e seus companheiros; estudantes secundaristas e universitários, nos primeiros passos da militância no PCB, em sua crença religiosa nas virtudes do comunismo soviético (“o mundo socialista é o mundo da paz”, diz um personagem);  no amor por uma bela comunista e na decepção pela linha revisionista que faz alguns deles, incluindo o jovem poeta, abraçar a dissidência do PCdoB. Para eles, o Partidão havia abandonado o caminho da luta revolucionária em defesa das reformas dentro da própria burguesia.

Adeus, Fernando Pessoa é parte de uma trilogia ainda por ser completada,  que Paulo Martins iniciou com Glória Partida ao Meio (Rio de Janeiro, 7 Letras, 2009), ambientado na luta armada contra a ditadura militar, portanto, cronologicamente posterior a este romance de agora. Para além dos fatos históricos, o que mais chama  a  atenção neste novo romance de Paulo Martins é a complexidade do personagem dividido entre a paixão e a razão, a poesia como imanência e a política como contingência. Por isso, diríamos que esta história que exige de Trajano e seus camaradas uma tomada de posição frente à realidade histórica, ao estilo sartreano,  nos remete à literatura político-existencialista francesa, a histórias como a Condição Humana, de André Malraux, O sangue dos outros, de Simone de Beauvoir, e  o Muro, do próprio Jean-Paul Sartre.

Em Adeus, Fernando Pessoa, o jovem militante político adiou o seu projeto de poesia:

Depois daquele dia me reduzi a um poeta do futuro. Não pertencia mais a uma categoria do presente, do devir. Um devir sem data e sem previsão certa de ser alcançado. Porque o poeta havia entrado em hibernação. Sua alma congelara.

Mas, para a sorte do dividido e dilacerado rapaz, a poesia não desistiria dele. Permaneceria inoculada na alma, como um daqueles amigos calados e distantes de Drummond, “que secretamente influem na vida, no amor, na carne”.

Tanto que o romance termina com uma janela aberta para o retorno do poeta:

Que a vida sangre e a caneta escorra.

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