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REALISMO SECO – Em Que assim seja, o poeta Luís Pimentel faz chover na poesia e estiar no sertão. novembro 24, 2016

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Em seu novo livro de poesia, Que assim seja (Itabuna: mondrongo, 2016), o escritor e jornalista Luís Pimentel emite um timbre confessional, quando fala das perdas que acumulou na vida, como a morte da mãe, e também um tom coletivo, como nos instantes em que pinta, com pincel escaldante, o drama da seca no sertão; o mesmo sertão em que o menino Luís – natural da pequena Itiúba, no semiárido baiano – deu os primeiros passos, entre bois, vacas, jumentos, mandacarus, umbuzeiros, vaqueiros, feirantes, beatas, todos castigados pela longa estiagem, num lugar em que “o sol que ilumina é o mesmo que mata”.

Nesta região inclemente, o poeta vê “o menino, a sede, a seca/formando um só espantalho/braços abertos pro nada/entre o curral e a caatinga”.Sim, porque Luís Pimentel foi um desses nordestinos que muito cedo migrou para o sul do país, em busca de um sol mais ameno e de uma vida mais tranquila, que vieram com o jornalismo, a literatura, a família e novos e velhos amigos. Hoje, completamente integrado ao Rio de Janeiro, ao ponto de ser um porta-voz literário da velha boêmia da música carioca, Luís Pimentel nunca se deu por satisfeito, pois para o artista, mesmo empanturrado de vida, sempre falta algo:

Todos os dia me reescrevo.

É o que diz o Pimentel , à maneira ceciliana de reinventar a vida, em “Revisões”.

O poeta caminha consigo mesmo , com orgulho estoico, nos versos de “Que assim seja”, o poema que abre o livro:

Não vou mendigar dias melhores.

Basta o dia, feito de dias que amanhecem,

das horas que somam e se repetem,

em noites e em mais noites sorrateiras.

Assim vou remoendo o que assim seja.

Mesmo com os “sonhos a escorrer por entre os dedos”, o artista enfrenta todos os percalços da vida com o determinismo teimoso de tragédia grega:

Aprendi a a não pedir outro destino.

Ou, se preferem:

Aprendi a crescer desde menino.

De que forma?

Minguado por fora, crescendo por dentro,

planta regada em banho-maria:

água contada, turva, suja e fria.

Neste mundo em que é preciso ir em frente, até o fim, “o espelho é o que nos diz, sem cerimônia/que a nova batalha se inicia”. Porém, como ninguém é de ferro, “é preciso o descanso/entre uma rasteira e outro paulada”. Neste contexto desanimador, “pensar que temos Deus é um negócio;/conforta, o calor se instala/a fúria some”. O homem, no entanto, continua de pé e tenta se reescrever todos os dias, “pois as lutas são filha das esperança”.

Em “Olhar”, a dor provocada por um retrato na parede ( como aquele de Itabira do poema de Carlos Drummond de Andrade):

O retrato de minha mãe

olha-me da escrivaninha

sei que não são os olhos dela

que ainda velam a penumbra.

Ao lado do menino na roça (como veremos adiante), ou na saudade do adulto (como mostramos agora, em “Esquinas”) a figura da mãe é presença marcante:

Não peguei minha mãe no colo

quando ela mais precisava.

Não consigo fazer o nó virar lágrimas,

nem naquele dia nem no outro.

Tema universal de todos os poetas, o tempo é o assunto dos versos de “Passageiro”:

Se nem a árvore do tempo

ao tempo resiste, tudo passa:

a dor, o dilema, o descompasso

e também a festa que nos alegra,

o sol e o mormaço.

Face à gulodice do tempo que a tudo devora, a poesia é um lenitivo para a vertiginosa velocidade da vida (“Dito não dito”):

Assim seja esse canto,

essa magia. O que nos faz

levantar, seguir em frente.

MORTE E VIDA SEVERINA

Na segunda parte do livro, Poemas Secos, Luís Pimentel parece empunhar um espinho de mandacaru para escrever, no solo crespo do sertão, um Morte e Vida Severina, ao modo dele. Os poemas que tratam da seca e de seus reflexos socioeconômicos, como o longo “Poema Seco”, vêm em linguagem desidratada como um açude sem água:

Seco

o focinho do cão

e o olho da cobra.

Morto tudo o que um dia

ousou chamar-se vida,

morta a vida, como as

Sementes e as Severinas.

No céu sem nuvens do sertão, sem o menor prenúncio de chuva no ar, o sertanejo religioso perde a fé e a esperança, e:

Pergunta ao pai

Ao filho

Ao espírito santo

Ao porco enlameado

Ao cabrito esturricado

À primeira pedra:

Por que me abandonaram?

Em “Sonho”, o menino segue com a mãe pelo caminho da roça. Ele carregando gravetos. Ela empurrando um carrinho.O fardo dele “era espinhento”. O da mãe, “pesado”. O poeta concluí:

De nós, nenhum deus sabia.

O êxodo rural, impelido pela longa estiagem, é tratado no poema “Medos guardados”:

O ônibus que leva o homem

para bem longe o leva para

onde ele desconhece.

Rio de Janeiro, São Paulo ou outra metrópole do sul do país? Nem o retirante sabe ao certo:

O homem sabe que vai chegar

em uma cidade qualquer, que é outra

e não aquela, carregando sua mala azeda,

o ombro curvado ao peso do medo

que faz doer as tripas […]

Tem razão o poeta Antonio Brasileiro quando, na orelha do livro, diz que “o tom confessional de muitos poemas contrasta com o ‘seco’ realismo de outros, como o longo e excelente Poema Seco”.

No poema “Fim”, que fecha o livro, o poeta fala da partida (entrega ou recomeço?) em que é preciso “tirar o fardo das costas e prosseguir/na escuridão do caminho”. Por isso parte, “com saudades do porvir/que não verei/que não terei,/sequer senti”.

E se não há outro caminho mais suave, uma estrada mais amena, bem, que assim seja!

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