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As quatro geografias íntimas de Vasconcelos Maia dezembro 16, 2016

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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VALDOMIRO SANTANA*

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Elieser César. Vasconcelos Maia: contista da gente baiana.

Coleção Gente da Bahia, vol. 40. Salvador: Assembleia

Legislativa do Estado da Bahia, 2016, 200 p.

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Saiu-se muito bem Elieser César neste livro em cujo título chama Vasconcelos Maia de contista da gente baiana. Livro que se lê como um painel composto de quatro partes que se imbricam: a Cidade do Salvador, o mar da Bahia, os candomblés, pequenos sertões.

Quatro geografias distintas e com seus amálgamas secretos. O que cada uma tem de muito peculiar, surpreendente e mesmo espantoso. Em todas elas, gente — que é a matéria viva da literatura. Gente que anima a paisagem das ruas, becos, ladeiras, mercados, igrejas desta cidade velha, de seus terreiros de orixás e do único, o dos babás ou eguns, que são os espíritos dos ancestrais africanos, em Itaparica. Gente que, de tanto navegar nas águas da Baía de Todos os Santos, conhece no corpo e na alma a força de seus ventos e correntes, ondas e marés, sua profundidade, pontos de cardumes, ilhas, penínsulas, angras, portos. Gente da caatinga e que lá resiste, onde o sol é mais cru e desolador, pois com o poder de secar tudo.

Ao se valer do título de um dos livros de Vasconcelos Maia, Histórias da gente baiana [1964], para escrever esta reportagem literária, Elieser César soube ser fluente, preciso e claro ao tematizar a vida e a obra deste escritor que, nascido em Santa Inês, no sudoeste da Bahia, em 1923, morreu em Salvador, em 1988, autor de contos traduzidos para o inglês, alemão, francês, espanhol, italiano, búlgaro, russo e japonês.

Fluência, precisão e clareza que terminam resultando na instigação para se ler pela primeira vez ou voltar a ler histórias em              que a predominância da cor local se universaliza pelo tratamento de seus temas — o amor, a morte, suas variantes de angústia, solidão, desespero e esperança, com sua cota de mistério, que são os limites da condição humana. Ora, é nesses e com esses limites que Vasconcelos Maia criou uma autêntica obra de arte literária. Justo por isso, ela nos atinge: ao nos pôr em face de nós mesmos, revira, ilumina os núcleos de nossa vida interna, de nossa tragicomédia pessoal.

Trata-se de um livro de leitura prazerosa porque aborda o                       essencial e definitivo da ficção de Vasconcelos Maia, o que significa — para lembrar a penetrante observação de Dorothy Parker, grande contista norte-americana — que “uma boa história é muito maior do que o seu texto”. Mostra então, nessa medida, como e por que Vasconcelos Maia é um nome importante na história do moderno conto brasileiro. Também esclarece o perfil do homem e do escritor, e refere sua participação decisiva no movimento que, entre 1948 e 1952, surgiu em torno da revista Caderno da Bahia, quando Salvador começa a se tornar uma cidade aberta a todas as artes e culturalmente contemporânea do mundo.

Cumpre, no entanto, ressaltar: o prazer da leitura deste livro se deve ao fato de Elieser César ser digno do jornalista e escritor que é. Por um lado, consciente de que o jornalismo, aqui ou em qualquer lugar, é sempre pontual (uma espécie de burocracia), triste, insatisfatório, por mais que se disfarce com o jogo enganoso da espetacularização de tudo, o que é bem característico desta era global. Por outro, igualmente lúcido porque não acredita num escritor que não saiba redigir uma notícia de jornal.

Mestre em Letras pela Universidade Federal da Bahia, Elieser César aprendeu antes, ao ler Nietzsche, que o pensamento não tem nada a ver com teorias, mas com a vida, por ser intempestivo, uma experimentação incessante, a irrupção do novo, a não subordinação da diferença à identidade, por não estar trancado numa sala de espelhos. Ele próprio contista, sabe — e sente, no exercício de muito cortar e depurar o texto, para prolongar o máximo possível seu impacto na inteligência e na sensibilidade do leitor — que o conto, por ser muito mais curto do que o romance, não é de composição mais fácil.

Ao recuperar a memória da vida e da ficção de Vasconcelos Maia, este livro, que se recomenda por todas essas qualidades, tem mais uma: suscita a reflexão de que conhecer um povo é também entendê-lo nas obras de sua criação literária, aquelas que o revelam na tão fecunda e matizada intimidade de seu cotidiano, do que se esconde atrás do tumulto aparente de sua existência social.

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* Valdomiro Santana é jornalista, escritor, mestre

 em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS

 (Universidade Estadual de Feira de Santana)

 e editor da UEFS Editora.

 

 

 

 

 

 

 

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