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VIVA O POVO BRASILEIRO! dezembro 22, 2016

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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– Em Histórias da Gente Brasileira, Mary Del Priore coloca a massa anônima no palco das grandes transformações do país.

Em geral os livros de história relatam os grandes acontecimentos, guerras, conquistas, descobertas, invenções e outros fenômenos protagonizados por grandes homens e mulheres: generais, imperadores, rainhas, princesas, grandes navegadores, cientistas, artistas, líderes políticos e religiosos etc. O povo só aparece como coadjuvante para compor números e o pano de fundo dos fatos cruciais que transformaram as sociedades ao longo dos séculos. Em seu novo livro, Histórias da Gente Brasileira (São Paulo: Leya, 2016) a historiadora Mary Del Priore rompe com esta lógica perversa e coloca a massa anônima no proscênio da História como fio condutor de seus relatos, o primeiro volume sobre a vida no Brasil colonial.

A obra será uma tetralogia que passará pelo Império, a Era Vargas e terminará no Brasil moderno. Já no prefácio, a historiadora avisa que, no livro, o leitor “há de conhecer uma história do Brasil diferente; não aquela dos grandes feitos, nomes e datas que marcaram o nosso passado; tampouco aquela dos fenômenos extraordinários que provocaram rupturas na nação, mas as histórias do dia a dia, ou melhor, de todos os dias da semana”. São, como ressalta Mary Del Priore, “histórias feitas por personagens anônimos do passado, que raramente nos sãos apresentados, pois se confundem com o tecido social em construção; uma história da gente brasileira no labor cotidiano, inventando, produzindo e ganhando o pão de cada dia. Sim, no gerúndio mesmo, pois a vida real se passa nesta forma de verbo”.

Trata-se, portanto, de uma história (ou melhor de várias histórias), da resistência de um povo acostumado a sobreviver a duras penas, de sua luta permanente e diária para permanecer vivo num ambiente hostil, num período em que tudo era muito difícil e se morria muito cedo, devido à toda sorte de epidemias, à falta de higiene e também de médicos. Para isso, a historiadora enfoca aspectos da vida social como os hábitos alimentares, a forma de se viver e se relacionar, de morar, de se vestir, de amar, de trabalhar e até de cuidar do corpo ou negligenciar a higiene pessoal, como fez, por exemplo, Dom João VI (uma das poucas celebridades históricas que aparecem no livro) que não gostava de tomar banho, aliás como quase todo mundo no Brasil colonial. Sobre ojeriza pela água do príncipe e, depois, rei de Portugal, conta Mary Del Priore:

Banhos? Sói em caso de doença. D. João VI seria o melhor exemplo. Contam os biógrafos que, picado por carrapatos na fazenda de Santa Cruz, onde passava o verão, teve a perna inflamada e muita febre. Os médicos lhe recomendaram banho de mar. O rei tinha pavor de ser atacado por crustáceos e, por isso, mandou construir uma caixa de madeira, dentro da qual era mergulhado nas águas da praia do Caju, nas proximidades do Palácio de São Cristóvão. A caixa era uma banheira portátil com dois varões transversais e furos laterais por onde a água do mar podia entrar. O rei costumava ficar imerso ali dentro por alguns minutos, com a caixa imersa e sustentada por escravos. O iodo marinho ajudaria a cicatrizar as feridas. O uso de caixas para banhos era conhecido das cidades europeias, cortadas por rios. Esses mergulhos improvisados na praia do Caju, a conselho médico, são a única notícia que se tem de um banho de d. João nos treze anos em que permaneceu no Brasil.

Mais feio fez o filho de D. João VI, Dom Pedro I que defecou em cima de um muro sob o olhar atônito da corte e da tropa que batia continência para o imperador cagão. A historiadora carioca reproduz o relato de um cadete de cavalaria que testemunhou a cena excremental:

Ao romper do dia chegava a cavalo d. Pedro e sua consorte, acompanhados de camaristas e generais. Não há talvez no mundo soldado tão entendido como o imperador no manejo da prático e exercício espingarda […] de resto, seus modos são grosseiros, falta-lhe o sentimento das conveniências, pois vi-o uma vez trepar ao muro da fortaleza para satisfazer uma necessidade natural e nesta atitude altamente indecorosa assistir ao desfile de um batalhão em continência. Tal espetáculo deixou atônitos a todos os soldados alemães, mas o imperador ator conservou inalterável a calma.

Tudo muito natural para uma época em que os penicos cheios e “ as tinas destinadas a receber todas as imundícies e refugos da casa” eram jogados nas ruas e nas praias. Mas, Dom Pedro I parecia não ter, de fato, “o sentimento das conveniências” como anotou, horrorizado, o cadete Eduardo Theodor Boesche. Tanto que, como informa Mary Del Priore, ele enviou à Marquesa de Santos, sua amante, um desenho daquilo que disse ser seu pênis ejaculando.

Fora os episódios pitorescos de Dom João VI e seu filho nada protocolar, é mesmo a gente miúda quem toma a rédeas dos acontecimentos em Histórias da Gente Brasileira. O livro é dividido em três partes. A primeira, “Da Terra ao Trabalho”,  aborda os primeiros anos da Colônia,  medo dos  navegantes de bestas imaginárias como a Mantícora, fera da Índia, forte como um tigre e gulosa de carne humana; o sabor novidadeiro das frutas tropicais desconhecidas dos europeus como araçá, cajá, gabiroba, ingá, jabuticaba, pequi, pitanga e umbu; a povoação com mamelucos (filhos de brancos com índios) se juntando aos primeiros degredados, dentre eles 400, entre colonos e soldados, transportados por Martim Afonso de Souza, “para serem deixados aqui”. Mulheres de má reputação foram trazidas de Portugal para casarem no Brasil, desde que “não sejam tais que de todo tenham perdido a vergonha”, como escreveu um cronista da época.

MULHERES DE ENGENHO

Nem todos os degredados se deram mal. Houve “quem chegou ao Brasil pobre e nu, mas que, graças à cana, se tornou senhor de engenho”, como um tal João Pais, “que, segundo documentos, chegou a possuir dezoito engenhos com dez mil escravos”. Em 1711, o jesuíta André João Antonil definia o Brasil como “o inferno dos negros, o purgatório dos brancos e o paraíso dos mulatos”.

Pouca gente suspeita, mas aquele período não foi exclusivamente uma época de sujeição da mulher, iaiás e sinhazinhas belas e recatadas do lar. Já havia mulheres empreendedores. Em Campos Goitacaz, no Rio de Janeiro, havia, em 1785, dez engenhos que pertenciam a mulheres, dentre elas Dorothea Barreto, Raimunda Rodriguez, Rosa Maria, Úrsula Campelo e Maria Almeida, “todas envolvidas com o cultivo da cana”.

O comércio “foi a razão de ser da colonização e, em maior ou menor escala, o modo de viver de grande parte dos emigrantes vindos da metrópole”.  Com a instauração das capitanias hereditárias as terras dos índios foram confiscadas e o trabalho agrícola forçado imposto aos autóctones. Tanto que na Bahia foi preciso esmagar os índios  Paiaiá, Acroá e Amoipira, além de chacinar os de Jaguaripe e Paraguaçu para desbastar terras para o plantio da cana-de-açúcar. Em 1534, com a divisão das terras em 15 fatias doadas 12 a donatários se consolidou a agricultura escravagista, modelo importado de Portugal que fez aumentar o tráfego de negros da África.

No começo do Século XVIII, com ciclo das minas, escravos negros foram transferidos da lavoura do açúcar e do tabaco para a mineração, provocando o temor total da ruína da economia colonial, já que “lavouras perdidas e engenhos de fogo morto foram o saldo deste êxodo em muitas regiões”. Já no Século XVI, as , com sua sanha devoradora, eram um grande problema, tanto que foram apelidadas  de “rei do Brasil”, pois, “em carreiras cerradas e ondulantes, dia e noite,  devastavam tudo dentro ou fora das habitações, alojavam-se na terra como toupeira e devastavam as sementeiras”. A vida na Colônia só mudou com  a chegada da família real, em 1806, quando “a cidade ficou mais cosmopolita, o número de seus habitantes cresceu, as formas de trabalho se sofisticaram, os encontros culturais se multiplicaram, os grupos de estrangeiros  mesclaram-se aos naturais, a língua falada e escrita ganhou palavras novas, enfim, o dia a dia se modificou”.

Intitulada “O Supérfluo e o Ordinário: casa, comida e roupa lavada”, a segunda parte de Histórias da Gente Brasileira trata dos hábitos da população. Mary Del Priore desmistifica a crença de que naquela época, com tantas terras para o plantio, a mesa era farta. Pelo contrário, comiam-se mal. Nas regiões de engenho, por exemplo, com a cana por toda parte não sobrava espaço para plantar mais nada, sequer sobrava terra para o pasto. “Ovelhas e cabras eram consideradas inúteis. Os porcos, difíceis, pois rapidamente se tornavam selvagens. E o gado mais tinha era que obrar na lide do engenho. Os senhores de léguas de terras opulentas não tinham o que comer! Sofria-se da falta de farinha. Por outro lado [com tanto açúcar] a doceria arredondava a gordura de 1frades e sinhás”, conta a historiadora.

SEXO COM MELANCIA

Em tal cenário, a mortalidade infantil grassava na Colônia. Raras eram as crianças que milagrosamente se salvavam. Para esse quadro contribuíam “o abuso de comidas fortes, o vestuário impróprio, o aleitamento mercenário com amas de leite atingidas por sífilis, boubas, e escrófulas, a falta de tratamento médico quando as moléstias, os vermes, a umidade das casas e o mau trato do cordão umbilical”. A precariedade e a falta de higiene eram tamanhas que o Rio de janeiro foi descrito por um viajante inglês como “a mais imunda associação humana vivendo sob as curvas do céu”, Mary Del Priore completa o quadro nojento: “Em contraste coma belíssima baía azul e montanhosa, as casas eram feias. As ruas, sujas, atraíam porcos ou outros animais domésticos que vinha comer os restos de lixo jogados porta afora. O desasseio das praias, em cujas águas se derramavam os dejetos domésticos, preocupavam as autoridades: ‘Despejos cujos eflúvios voltam para a cidade e fazem a pestífera”.

A luta contra as doenças e pela vida era incessante, uma vez que “em toda a América, entre os Séculos XVI e XVII, epidemias não cessaram de realizar sua obra de extermínio”. Entre os males mais devastadores estavam o sarampo, a varíola, a tuberculose as doenças venéreas. Na terceira e última parte do primeiro volume de Histórias da Gente Brasileira, ‘Ritmos da vida: nascimento, adolescência, uniões, doença e morte”, Mary Del Priore fala sobre a infância, a adolescência, a família, a sexualidade e o despertar dos desejos, a vida e a morte. Releva que a iniciação sexual se dava na adolescência. “Os rapazes principiavam com frutas – como a melancias – A masturbação era severamente condenada. Dela dizia-se que destruía a família, fazia mal à saúde, prejudicava o trabalho e os estudos por esgotar as forças”. Para facilitar a prática, “suprimiam-se os bolsos das calças”. As meninas eram ameaçadas de ficarem feias, as leituras e picantes (“as pestilenciais novelas”) e a poesia erótica eram proibidas, assim como a ingestão de chá e vinho.

Os amores homoeróticos eram demonizados como “acessos nefandos e ajuntamento de natura”, como os que acometiam o jovem pajem João da Batista, da Ilha de Madeira, que, “em visita à casa de um sapateiro para encomendar chinelas para o seu amo, depois de ouvir ´palavras torpes´e comer pão com frutas deixou-se seduzir, mas fugiu antes que seu parceiro ejaculasse, livrando-se segundo sua confissão ao Visitador, de castigos maiores por parte do Santo Ofício”. A sodomia era severamente punida, inclusive com morte.

Após conhecer as condições de vida do Brasil colonial pelo livro de Mary Del Priore, ninguém vai duvidar de que, naquela época, viver, era de fato, muito perigoso, como diria séculos depois o escritor mineiro João Guimarães Rosa no romance Grande Sertão: Veredas.

 

(Publicada na Revista Oficina de Educação, Nº 10, de Dezembro de 2016, do Colégio Oficina, de Salvador)

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