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BARTEBLY À BRASILEIRA – Em O Amanuense Belmiro, Cyro dos Anjos cria um burocrata lírico. janeiro 15, 2017

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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belmiro

Saudado pelo crítico Antônio Cândido como uma obra-prima, “pela impressão de acabamento de segurança, de equilíbrio, de realização quase perfeita que revela o artista profundamente consciente das técnicas e dos meios de seu ofício e possuidor de uma visão pessoal das coisas, lentamente, cristalizada no decorrer de longos anos de estudo”, O Amanuense Belmiro, romance escrito em 1937 pelo mineiro Cyro dos Anjos, completa, agora, em 2017, oitenta anos. Passadas oito décadas, o livro “de um burocrata lírico”, como definiu o mesmo Antônio Cândido, continua com um viço de uma obra que acaba de sair do prelo para permanecer nas prateleiras de qualquer estante que resista ao tempo e às releituras mais exigentes.

Tímido, celibatário e introspectivo, Belmiro Borca regula pelos 40 anos sem nunca ter feito nada de especial ou de marcante na vida. Vive a mesma rotina cartorial e doméstica; do cartório para casa, sempre, ao lado de duas irmãs velhas, uma das quais sofrendo das faculdades mentais, com interregnos sociais restritos a poucos amigos e a conversas regadas a chope, em doses moderadas, como convém a um homem excessivamente moderado.

Belmiro Borga é um primo distante de Bartebly, o escriturário abúlico e robotizado de Herman Melville. Porém, o que diferencia (e salva) o amanuense brasileiro do escriturário norte-americano é uma intensa vida interior. Bartebly é de um incomunicabilidade autista; Belmiro um vulcão de subjetividade e lirismo. Vive imerso em elucubrações literárias. Mantém um diário na qual registro os principais fatos de sua vida desinteressante, e é, justamente, esta falta de interesse de sua vida – rasa, na superfície e profunda, quase abissal, no âmago do amanuense – que sustenta o interesse do leitor. A literatura resgata Belmiro da mediocridade de uma vida que parece um videoteipe tal a mesmice com que se repete e  desenrola como um ioiô nas mãos de uma criança.

“Velho profissional da tristeza”, como ele próprio se define, o amanuense anota em seu diário intimista:

Quem quiser fale mal da Literatura. Quanto a mim, direi que devo a ela a minha salvação. Venho da rua deprimido, escrevo dez linhas, torno-me olímpico…. Em verdade vos digo: quem escreve neste caderno não é o homem fraco que há pouco entrou no escritório. É um homem poderoso, que espia para dentro, sorri e diz: “Ora bolas”.

O lirismo lembra o cronista Rubem Braga. O estilo enxuto, direto e de uma ironia que não poupa si mesmo, marcas do romance, remete a Machado de Assis. Tanto que um leitor desavisado que pegue o livro de Cyro dos Anjos pensará que estará lendo uma obra do bruxo do Cosme Velho.

Como um personagem do romance que o amanuense cita em seu diário, Belmiro Borba “apanhou o vício da literatura e só acha graça nisso”. Sobre seus escritos, ele confessa:

Este caderno, onde alinho episódios, impressões, sentimentos e vagas idéias, tornou-se, a meus olhos, a própria vida, tanto se acha embebido de tudo o que me mim provém e constitui a parte mais íntima de minha substância.

DIÁRIO INTIMISTA

Ao cultivar o diário, Belmiro Borba se reinventa a seu modo, e, quando escreve, deixa  em suspenso a rotina entediante para imergir na subjetividade de um temperamento observador e artístico. Ele tem plena consciência da escolha:

Fali na vida, por não ter encontrado rumos. Este Diário, ou coisa que o valha, não é sintoma disso? (Ocorrem-me umas palavras bem significativas de Gregorio Marañón: “El el lombre adulto la práctica del  Diario equivale a uma supresión progressiva de la personalidade activa, social, de su autor. Em realidade um Diario equivale a um lento suicídio.”).

Belmiro, que chega virgem à maturidade e sempre nutriu amores platônicos, tem a si mesmo em pouca conta, a não ser quando está escrevendo, instantes em que se torna olímpico, como próprio amanuense já observou:

[…] sou um amanuense complicado, meio cínico, meio lírico, e a vida fecundou-me a seu modo, fazendo-me conceber qualquer coisa que já me está mexendo no ventre e reclama autonomia no espaço.

Um espaço com autonomia de voo exígua na praticidade da vida, e amplo nos terrenos cósmicos do mundo interior; quintais estelares que fazem Silviano, caricatura de filósofo, salmodiar numa bela prece universal:

– Ó inconcebível, ó Imensurável, ó Transfinito, condescende em que se prostre a teus pés este farrapo de um farrapo, este pobre verme, sopro de um instante, prestes a ser tragado no hausto universal.

Varão fraco de uma estirpe viril, Belmiro se pergunta:

Onde estão em mim a força, o poder de expansão, a vitalidade, afinal, dos de minha raça?

Daí o personagem se reconhecer num poema do conterrâneo e contemporâneo de Cyro dos Anjos, o também miniero Carlos Drummond de Andrade:

Como esta vida vai correndo, vai correndo…. Um dia sentiremos uma sacudidela, tal como no poema:

 

                              “Stop.

                             A vida parou

                            ou foi o automóvel?”

 

Com seu temperamento tranquilo, a transitar entre amigos comunistas e integralistas, aberrebatados e serenos, práticos e nefelibatas, Belmiro Borga é como (o reconhecimento aqui é nosso, utilizando a expressão de Cyro dos Anjos), um anjo pacificador que desce sobre todas as coisas.

O mesmo Belmiro Borga que se que sente ligado a um cachorro magro e abandonado que encontrou na Rua dos Pampas e, pateticamente, se pergunta:

Alguém me quer?

E, por mais que a seus sonhos gorem, se apega às ilusões perdidas:

A vida nos ilude a cada dia, mas nós a queremos, com ardor recrudescido, como o amante que ainda ama a companheira, quando sabe que ela o engana.

E não poderia ser diferente para o amanuense que busca a alma das coisas, “certa manhã de maio no ano de 1910, ou em determinada noite primaveril, doce, inesquecível” – que “fugiu nas asas do tempo e só devemos buscá-la na duração do nosso espírito”.

Belmiro Borga é um personagem romântico, um peixe fora d’água num aquário de gente pragmática e desenvolta; um Cavaleiro da Triste Figura tardio que, com pés no chão e o coração nas nuvens, constata:

Amigo Quixote, todos os cavaleiros andantes já se recolheram e não há mais dulcinéias.

E assim, escrevendo com a mão direita e corrigindo com a esquerda, Belmiro Borba prossegue sua sina solitária de amanuense lírico, convicto de que “havemos de fazer descobertas até o último dia”.

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Comentários»

1. Ruy Espinheira Filho - janeiro 15, 2017

Ótimo, como sempre, Elieser. Abraço grande, Ruy.


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