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ALMAS MORTAS – Em As Feras, o argentino Roberto Artl, dente outas histórias, faz a radiografia de um escritor fracassado. janeiro 28, 2017

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Poucas histórias desnudaram tão cruamente o egocentrismo mesquinho da criação e os embustes da crítica literárias como o conto O escritor fracassado, um dos oito relatos de As Feras, do escritor argentino Roberto Arlt. É história de um jovem e promissor escritor, incensado pela crítica, admirado e invejado por seus pares, que publica um livro de sucesso, que, depois da estreia bem-sucedida, sucumbe à mais absoluta esterilidade, sendo, doravante, incapaz de escrever uma linha que preste.

A angústia da criação bloqueada leva o rapaz à autocomplacência de acreditar que está passando por um período passageiro, ao final do qual brotarão as grandes obras gestadas na aflição e no sofrimento. Ele chega a encontrar um álibi para a sua inatividade: já não escreve  com a facilidade de  antes porque o seu grau de exigência aumentara:

Se eu não produzia como certos escrevinhadores alcunhados de coelhos ou moços de recados da literatura, era porque estava ficando exigente. Isso mesmo. E a exigência bem entendida começa em casa. Nada de produzir a rodo sem quê nem porquê.; nada de sem derramar, nem de trabalhar dia e noite e noite e dia, nem de infestar os jornais com a assinatura. Isso não era digno de um escritor que se preze.

– Amigos – perorava enfático, – Amigos, temos que ser um pouco exigentes, conservar o pudor da assinatura.

E nada, mesmo! O tempo passava e nada: nenhuma linha que lembrasse o frescor e a segurança dos primeiros escritos. O jovem escritor começa a suspeitar de que triunfara cedo demais, antes da maturidade que, para os verdadeiros talentos, pavimenta o caminho das grandes obras:

Derramaram excessivos elogios sobre mim. Alguém me fez um malefício. Triunfei cedo demais naquele círculo de pequenas feras, para quais a minha linda flor com que podiam se enfeitar era uma vaidade regada a adulações.

Como último recurso para voltar a escrever, o escritor imagina um pacto fáustico:

Fiquei horas e mais horas sentado diante de um papel em branco, imaginando que por obra e graça de um pacto com um demônio tutelar seria capaz de escrever algo comparável à Divina Comédia…

Atormentado, o artista estéril se vê obrigado a enfrentar a mais intolerável das perguntas feitas a quem deixou de criar e produzir: “Quando é que você vai publicar alguma coisa? ”.

Diante da cobrança, se  desespera ainda mais:

Os senhores entendem como é horrível tal situação? Dois anos sem escrever coisa alguma. Proclamar-se autor, ter prometido mundos e fundos a quem se desse ao trabalho de nos ouvir, e um belo dia, de repente e à queima-roupa, acordar com a consciência de ser incapaz de redigir uma linha original, de realizar algo que justifique o prestígio residual.

Daí para a inveja de quem conseguia produzir e, principalmente escrever bem, foi um mau passo:

Porque eu não conseguia produzir e outros conseguiam? Onde residia a misteriosa razão que fazia com que um homem que se expressava mal como um imbecil escrevesse como alguém de talento? Em que consistia a personalidade? Como é que se construía a personalidade, posto que eu conhecia indivíduos desprovidos dela na vida prática, mas que em suas páginas depositavam linha após linha lingotes de originalidade? E, no entanto, eram incapazes de responder com a mínima habilidade a qualquer tirada provocativa de minha parte.

DE ESCRITOR MEDÍOCRE A CRÍTICO VENAL

A aflição aumentava. A impotência “traçava um círculo de brasa em cujo centro eu me contorcia como um escorpião”. O caminho natural, como de muitos escritores frustrados, foi a crítica literária, a mais venal que se possa conceber, posto escolhida pelo prazer sadomasoquista de enaltecer os medíocres e desancar os talentos promissores:

Exaltei as mais acabadas bestas apocalípticas, deleitando-me com o sofrimento que iria proporcionar aos escritores em torno dos quais, por inveja, erguia-se o silêncio.

E ainda:

Histérico como um pederasta, manuseei e critiquei duramente homens que deveriam ter merecido todo o meu respeito, se eu fosse capaz de respeitar algo.

Ou, se quiserem:

Escrevia maldosamente e convicto de que “quanto mais injusta ou maldosa a crítica mais festejada”.  Escrevia sabendo de que “o prazer que o autor experimenta ao publicar um livro era estragado pela crítica, e quando se comentava a espinafrada, não era pela espinafrada em si, mas pelo prazer de saber que havia um companheiro sofrendo em sua vaidade ou orgulho.

 

E, como boa parte da crítica atual que despreza o público, “eterna besta”, para escrever para si mesma e alguns poucos “eleitos”, ao invés de esclarecer, o escritor fracasso na pele de juiz dos livros alheios, confundia e tergiversava, demonstrando um conhecimento osmótico:

Tomava uma obra e em vez de falar dela e de sua substância, com a malícia do homem traquejado no ringue da literatura, fazia jogos de cordas de fraseios de estética duvidosa. Assim ia enchendo o espaço e impacientando autor, que via que eu não ia ao cerne da coisa. Às vezes eu estava nas raízes e ás vezes nos galhos; se fosse mesmo necessário recorria aos Vedas, ao Kalevala, a Buda ou Zoroastro, se fosse preciso citava Aristóteles, Bacon, Gracián, Benedetto Croce ou Spengler, os Manuscritos Secretos ou o Manifesto Comunista. … no caso dava na mesma, pois o que contava era encher o ostentar conhecimento, não as habilidades do outro, de tal modo que chegava ao fim do artigo sem que o público, o autor, nem o mesmíssimo Satanás pudesse saber que diabos eu achava do livro.

O escritor fracassado é da mesma estirpe de “homens, artistas menores, vaidosos inconcebíveis, mentecaptos que se Honoré de Balzac estivesse vivo teriam-lhe imputado como crime imperdoável uma vírgula fora do lugar ou um adjetivo mal-empregado”. Verdade que tanto contorcionismo verbal, tanto malabarismo retórico acaba por cansar e o escritor fracassado abandona a crítica, “convencido de “a imbecilidade era incurável”. Pelo menos nesta assertiva o crítico foi honesto.

Por fim, o escritor frustrado capitula de vez:

– Para quer perder o somo com lutas estéreis, se no fim da estrada temos como único prêmio uma profunda sepultura e um nada infinito?

CARICATURA DA VIDA

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Almas mortas, os personagens dos contos de As Feras se movem numa espécie de caricatura da vida, entre a infâmia e a sordidez, sem nenhuma possibilidade de redenção, salvo talvez o noivo indeciso de Noite Terrível que vê na fuga do casamento, marcado para a manhã, seguinte a oportunidade de escapar de um destino medíocre. De humor negro, O Corcundinha é também uma história de um noivado gorado. Suspeitando de que a família, formalista e conservadora, da noiva lhe prepara um casamento de conveniência, um homem pede a futura esposa, numa prova de amor, que beije num corcunda baixinho, disforme e pedante. Mas, seu plano de mau gosto não tem o desfecho inesperado.

Ester Primavera é uma história de um homem torturado por ter atirado na lama à reputação de uma mulher honesta. A Lua Vermelha é como uma  ficção científica que começa numa festa e termina no apocalipse. Pequenos Proprietários aborda inveja e a intriga entre vizinhos pobres que se odeiam.  As Feras relata a rotina bestial de uma “infra-humanidade”,  bandidos, putas,  gigolôs e cafetões em bordéis de última categoria, onde, como observa o personagem principal, “o tempo cai com gotejo de água na poça imunda de nossas almas”. Uma Tarde de Domingo flerta com a traição conjugal.

Também autor de histórias policiais, Roberto Alt (1900-1942) foi contemporâneo do labiríntico Jorge Luís Borges. Na voz de seu alter ego Emilio Renzi, no romance Respiração Artificial,  o argentino Ricardo Piglia, (recentemente falecido) considera Roberto Arlt “o único escritor verdadeiramente moderno que a literatura argentina do século XX produziu”, já que, para ele, Borges “olha para o século XIX”., quando não o encerra.

Contudo,  como um clássico ainda  em vida,  Borges pareceu olhar para todos os séculos, do  Quixote ao gênero policial inaugurado, universalmente  por Edgar Allan Paul, e por ele próprio e Adolfo Bioy Casares, na Argentina.

 

 

 

 

 

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