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ÉDIPO CAATINGUEIRO – Em O homem da lupara amarela, Alfredo Gonçalves de Lima Neto se inspira em Sófocles para criar uma tragédia no sertão. abril 1, 2017

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Lupara

Em companhia de um amigo, um rapaz viaja para Crato, no sertão do Ceará, para conhecer a festa do padre Cícero Romão Batista, o Padim Ciço dos devotos nordestinos. Lá, ouve de uma cigana a terrível profecia: “Estás fadado a deitares com tua mãe e também a matares o teu pai! ”. Até então de boa índole, o jovem se assusta. Volta para casa, mas não consegue esquecer a previsão da mulher. Teria o vaticínio a mesma força, inelutável e cega, que rege o destino fechado dos heróis caídos da tragédia grega?

A resposta está no romance O homem da lupara amarela do escritor Alfredo Gonçalves de Lima Neto, médico nascido em Salvador e radicado em Valença, no baixo sul da Bahia., que transplanta para o sertão baiano o cerne da desdita de Édipo Rei, a mais conhecida tragédia de Sófocles (496 ou 494 a.C – 406 a.C).

Publicado pelo próprio  Lima Neto – também autor dos contos  Os encantos da morte (2011) –  o livro é um faroeste nordestino, já que a trama se oferece a um cineasta que queira filmar um “nordestern” tal a saraivada de tiros, a profusão de duelos e a quantidade de emboscadas, ações típicas dos filmes celebrizados nas telas por John Ford e Sérgio Leone, dentre outros mestres do gênero.

Apavorado com a possibilidade de incesto, e  parricídio; pensando poder evitar a maldição, o rapaz abandona a casa dos pais que julga verdadeiros, não sem antes cometer um crime (involuntariamente, mas que serve de adubo para a futura tragédia), e parte para as terras de Jacobina, no piemonte da Chapada Diamantina, onde se torna bandoleiro e se confrontará com o seu inexorável destino, a sina a que já estava fadado e   que não o permitirá gozar da boa sorte.

No romance de Lima Neto, Laio é representado pelo jagunço, praticamente imbatível com as armas, Nicanor de Tonho de Bené, ou Nicanor Gumercinado da Anunciação, logo depois Nicanor da Lupara Amarela. Jocasta é a prostituta Tamatiá Porã. Édipo, o salteador Jacó, valente e impiedoso como o pai. Esse o triângulo da tragédia grega no sertão.

De jovem  pacífico,  Nicanor se transforma, com o seguindo um rumo irrevogável,  num pistoleiro sanguinário, obcecado pela ideia de vingar a morte do pai, assassinado por bandoleiros. Como um mocinho de filme de caubói, ele se vê impelido a matar. Escapa de uma emboscada, matando três jagunços. Um dos mortos é “o mais procurado bandito de toda a Sicília” que, para escapar das vendetas mediterrâneas, se refugiara na fazenda de um coronel, a quem alugara os serviços de morte executados com o auxílio de sua inseparável lupara amarela, arma ornamentada com uma película de ouro e, por isso mesmo, capaz de despertar a cobiça “em todos aqueles que nela pusessem os olhos”

ARMA ENFEITIÇADA

A lupara, como explica o autor, é uma espécie de espingarda italiana de dois canos curtos, calibre doze e de pequeno alcance como uma escopeta, muito empregada pela máfia siciliana. Quando o seu dono tomba morto, a arma caí aos pés de Nicanor que se apossa dela, fazendo-a cuspir muito fogo e mandando para o outro mundo muitos homens que não valiam um dólar furado.. Não era uma espingarda qualquer, pois carregava um sortilégio:

A cobiçada lupara faria com que seu dono buscasse o auxílio de uma velha feiticeira, conhecida naquelas plagas, que o orientou a embebê-la – a arma – em sangue humano ainda morno, colhido de uma jugular a golpe de punhal de prata, e posta a quarar por três dias e três noites no interior de uma caldeira de cobre, à sombra de alguma oliveira. A feiticeira não apenas garantira que a lupara jamais lhe seria subtraída em vida como também lhe assegurava uma certeira pontaria sobre aquele que, porventura, lhe destinasse a desditosa sorte.

Com a infalível arma, Nicanor parece ter mesmo o corpo fechado como acredita o povaréu. Numa sequência cinematográfica, ele enfrenta e elimina facínoras temíveis como Peçanha Cascavel (assim apelidado por carregar no pescoço um colar chocalhante feito com os dentes de suas vítimas); um assombroso estuprador e assassino disfarçado de padre e um cangaceiro que desertou do bando de Lampião.

Tal um herói de bangue-bangue, o homem da lupara amarela tinha seu código de ética. Só despachava para o inferno o rebotalho. À exceção é um delegado que teve que matar em legítima defesa. Após muitas aventuras, cuja trilha sonora é o berro da lupara amarela, Nicanor se defronta com o filho que repetirá a sina milenar de Édipo. O desfecho não poderia ser diferente daquele do infausto rei de Tebas:

Nunca mais voltaria a enxergar o mundo que o condenava.

A partir daí, como o assum preto “cego dos óio” da canção de Luiz Gonzaga, o Édipo brejeiro de Alfredo Gonçalves  Lima Neto irá reverberar o seu canto triste pela caatinga tórrida do sertão.

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Comentários»

1. Araken Vaz Galvão - abril 6, 2017

Caramba!! Se o Lima Neto não ficasse zangado eu diria que esta linda resenha está mais bonita que aquele lindo livro.


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