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AUTO-DE-FÉ DE PERPLEXIDADE julho 4, 2017

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Vaca

Em Vaca de Nariz Sutil, o mineiro Campos de Carvalho faz a expiação de um neurótico de guerra.

Há quem compare o escritor mineiro Campos de Carvalho (1916-1998) há Edgar Allan Poe, pelo aspecto sombrio da obra, e a Henry Miller, pela iconoclastia  sem peias. Creio que a comparação mais próxima seria com o francês Louis-Ferdinand Celine, o Celine de Viagem ao fim da noite, pelo niilismo visceral, o desnudamento cru da condição humana e um certo existencialismo misantropo, contidos, por exemplo, em Vaca de nariz sutil.

Neste livro de 1961, o personagem destila sua neurose de guerra, sua antipatia pelos semelhantes, sua cicatriz cruel de sobrevivente dilacerado, seus traumas e recalques, com o mesmo prazer mórbido com que os iconoclastas destruíam as imagens sagradas. Nas memórias e reflexões que chama, acertadamente, de “auto-de-fé de perplexidade” – a perplexidade sem trérgua da condição humana – o narrador sem nome não poupa nem a si mesmo, ou, principalmente, a si mesmo:  “Um monstro Eu, ou quem me fez? ”. Enfim, um anti-herói, um outsider que carrega “o diploma de esquizofrênico no bolso junto com uma medalha de ouro”. (mais…)